aqui tem música, poesia, reflexões, homenagens, lembranças, imagens, saudades, paixões, palavras,muitas palavras, e entre elas, tem cada um de vocês, junto comigo... Cida Torneros
Maracanã
terça-feira, 7 de dezembro de 2010
La solitudine
La solitudine
Marco se n'è andato e non ritorna più
E il treno delle 7:30 senza lui
È un cuore di metallo senza l'anima
Nel freddo del mattino grigio di città
A scuola il banco è vuoto, marco è dentro me
È dolce il suo respiro fra i pensiere miei
Distanze enormi sembrano dividerci
Ma il cuore batte forte dentro me
Chissà se tu mi penserai
Se con i tuoi non parli mai
Se ti nascondi come me
Sfuggi gli sguardi e te ne stai
Rinchiuso in camera e non vuoi mangiare
Stringi forte a te il cuscino
Piangi e non lo sai quanto altro male ti farà la solitudine
Marco nel mio diario ho una fotografia
Hai gli occhi di bambino un poco timido
La stringo forte al cuore e sento che ci sei
Fra i compiti d'inglese e matematica
Tuo padre e i suoi consigli che monotonia
Lui con il suo lavoro ti ha portato via
Di certo il tuo parere non l'ha chiesto mai
Ha detto "un giorno tu mi capirai"
Chissà se tu mi penserai
Se con gli amici parlerai
Per non soffrire più per me
Ma non è facile lo sai
A scuola non ne posso più
E i pomeriggi senza te
Studiare è inutile tutte le idee si affollano su te
Non è possibile dividere la vita di noi due
Ti prego aspettami amore mio...
Ma illuderti non so!
La solitudine fra noi
Questo silenzio dentro me
È l'inquietudine di vivere la vita senza te
Ti prego aspettami perché
Non posso stare senza te
Non è possibile dividere la storia di noi due
La solitudine fra noi
Questo silenzio dentro me
È l'inquietudine di vivere la vita senza te
Ti prego aspettami perché
Non posso stare senza te
Non è possibile dividere la storia di noi due la solitudine
A Solidão
Marco foi embora e não retorna mais
O trem das 7:30, sem ele
E um coração de metal sem alma
No frio da manhã cinza da cidade
Na escola o banco está vazio, Marco está dentro de mim
É doce sua respiração entre meus pensamentos
Distâncias enormes parecem nos dividir
Mas o coração bate forte dentro de mim
Quem sabe se você pensará em mim...
Se com os seus pais não fala mais
Se você se esconde como eu
Desvia os olhares e você está
Confinado no quarto e não quer comer
E abraça forte contra si o travesseiro
E chora sem saber quantas outras dores te trará a solidão
Marco em meu diário há uma fotografia
Com olhos de menino, um pouco tímido
Aperto-a contra o peito e sinto que você está lá
Entre as tarefas de inglês e Matemática
Seu pai e o seus conselhos... que monotonia!
Ele com o seu trabalho o levou para longe
Certamente, ao seu parecer, não lhe perguntou jamais
E disse: "Um dia você me entenderá"
Quem sabe se você pensará em mim
Se com os amigos falará
Para não sofrer mais por mim
Mas não é fácil, você sabe
Na escola não posso mais
E as tardes sem você
Estudar é inútil, todas as idéias se concentram em você
Não é possível dividir a vida de nós dois
Eu imploro! Espere-me, meu amor
Mas te iludir eu não sei
A solidão entre nós
Este silêncio dentro de mim
É a inquietação de viver a vida sem você
Eu lhe imploro, espere-me, porque
Eu não posso estar sem você
Não é possível dividir a história de nós dois
A solidão entre nós
Este silêncio dentro de mim
É a inquietação de viver a vida sem você
Eu lhe imploro, espere-me, porque
Eu não posso estar sem você
Não é possível dividir a história de nós dois a solidão
Marco se n'è andato e non ritorna più
E il treno delle 7:30 senza lui
È un cuore di metallo senza l'anima
Nel freddo del mattino grigio di città
A scuola il banco è vuoto, marco è dentro me
È dolce il suo respiro fra i pensiere miei
Distanze enormi sembrano dividerci
Ma il cuore batte forte dentro me
Chissà se tu mi penserai
Se con i tuoi non parli mai
Se ti nascondi come me
Sfuggi gli sguardi e te ne stai
Rinchiuso in camera e non vuoi mangiare
Stringi forte a te il cuscino
Piangi e non lo sai quanto altro male ti farà la solitudine
Marco nel mio diario ho una fotografia
Hai gli occhi di bambino un poco timido
La stringo forte al cuore e sento che ci sei
Fra i compiti d'inglese e matematica
Tuo padre e i suoi consigli che monotonia
Lui con il suo lavoro ti ha portato via
Di certo il tuo parere non l'ha chiesto mai
Ha detto "un giorno tu mi capirai"
Chissà se tu mi penserai
Se con gli amici parlerai
Per non soffrire più per me
Ma non è facile lo sai
A scuola non ne posso più
E i pomeriggi senza te
Studiare è inutile tutte le idee si affollano su te
Non è possibile dividere la vita di noi due
Ti prego aspettami amore mio...
Ma illuderti non so!
La solitudine fra noi
Questo silenzio dentro me
È l'inquietudine di vivere la vita senza te
Ti prego aspettami perché
Non posso stare senza te
Non è possibile dividere la storia di noi due
La solitudine fra noi
Questo silenzio dentro me
È l'inquietudine di vivere la vita senza te
Ti prego aspettami perché
Non posso stare senza te
Non è possibile dividere la storia di noi due la solitudine
A Solidão
Marco foi embora e não retorna mais
O trem das 7:30, sem ele
E um coração de metal sem alma
No frio da manhã cinza da cidade
Na escola o banco está vazio, Marco está dentro de mim
É doce sua respiração entre meus pensamentos
Distâncias enormes parecem nos dividir
Mas o coração bate forte dentro de mim
Quem sabe se você pensará em mim...
Se com os seus pais não fala mais
Se você se esconde como eu
Desvia os olhares e você está
Confinado no quarto e não quer comer
E abraça forte contra si o travesseiro
E chora sem saber quantas outras dores te trará a solidão
Marco em meu diário há uma fotografia
Com olhos de menino, um pouco tímido
Aperto-a contra o peito e sinto que você está lá
Entre as tarefas de inglês e Matemática
Seu pai e o seus conselhos... que monotonia!
Ele com o seu trabalho o levou para longe
Certamente, ao seu parecer, não lhe perguntou jamais
E disse: "Um dia você me entenderá"
Quem sabe se você pensará em mim
Se com os amigos falará
Para não sofrer mais por mim
Mas não é fácil, você sabe
Na escola não posso mais
E as tardes sem você
Estudar é inútil, todas as idéias se concentram em você
Não é possível dividir a vida de nós dois
Eu imploro! Espere-me, meu amor
Mas te iludir eu não sei
A solidão entre nós
Este silêncio dentro de mim
É a inquietação de viver a vida sem você
Eu lhe imploro, espere-me, porque
Eu não posso estar sem você
Não é possível dividir a história de nós dois
A solidão entre nós
Este silêncio dentro de mim
É a inquietação de viver a vida sem você
Eu lhe imploro, espere-me, porque
Eu não posso estar sem você
Não é possível dividir a história de nós dois a solidão
domingo, 5 de dezembro de 2010
sábado, 4 de dezembro de 2010
A Bárbara Iansã
A Bárbara Iansã
É fogo! Diria a menina desavisada, diante do seu impasse inusitado quando o mundo parece se dividir em milhões de pedaços incandescentes e são tantos os caminhos a escolher para trilhar.
A luz entontece, a alma se confunde, o peito explode, o universo se faz borbulha de vulcão interno. Ser mulher e ser guerreira se torna sinônimo nessa vida moderna, onde cada boca pintada com batom luminoso grita o coro das corajosas em fila indianamente formada para abraçar felicidade e futuro.
No vai que vai, a senhora prometida amansa as intempéries, mulher quebra tabus, avança no caminho da decisão, ama seu homem, seus filhos, enfrenta a tempestade da sobrevivência. Como formiguinha carregadeira de tarefas, ela viaja nos coletivos que a destinam ao trabalho diário, e sonha com a identificação da deusa mista, nas figuras de Bárbara e Iansã.
- Sou filha de Iansã! Repete a jovem afogueada e risonha, batendo com a mão espalmada sobre o coração na cadência de cada novo dia.
Isso acontece na Bahia, em termos regionais, mas se espalha pelo Brasil, como um inconsciente disseminado através de arquétipos femininos repetidamente cantados nas canções populares e nas festividades do 4 de dezembro.
Mulher de briga, cada filha dela, nada tem a temer quando se posta diante do desafio optando por ser representante do milagre fecundo da procriação.
O fogo dominado pelos bombeiros que invocam sua proteção é mesmo um espectro do calor que vem do útero em furor, da mãe-terra a cuspir labaredas que alimentam fé e glória. Mais que isso, até, chamas que garantem não só a expressão do sincretismo religioso, mas, sobretudo, o teor feminino que só emerge do fogo das paixões.
A menina mestiça que dança nos folguedos da comunidade intui sua condição de seguidora de alma chamuscada, suporte da condição capaz de derreter com olhares, gestos, abraços, beijos, cumprimentos, reverências, volteios, gritos de ordem, cânticos ou lamentos, ladainhas ou “pontos”, rezas ou louvores.
Há que se pedir piedade a Iansã, por cada mãe adolescente, cada mulher vítima da violência doméstica, cada mãe que perde seu filho na loucura do crime, cada esposa cuja ilusão do casamento feliz se esvai no ralo do destrato ou do abandono, cada fêmea em crise existencial, cada executiva imersa no comércio infindo do trabalho em lugar do carinho, cada artista solitária no ofício de emocionar seu público, cada professora empenhada em clarear mentes aprisionadas pela escuridão, cada médica comprometida pela saudável busca do equilíbrio físico e mental, e muitas mais.
Senhora dos relâmpagos, por sobre os mares revoltos, lá vem ela, a Bárbara Iansã, mais uma vez, na ardência do seu estigma, incendiar cada alma feminina, de menina que se faz mulher, a buscar queimar-se na imensidão à sua espera.
Aparecida Torneros
É fogo! Diria a menina desavisada, diante do seu impasse inusitado quando o mundo parece se dividir em milhões de pedaços incandescentes e são tantos os caminhos a escolher para trilhar.
A luz entontece, a alma se confunde, o peito explode, o universo se faz borbulha de vulcão interno. Ser mulher e ser guerreira se torna sinônimo nessa vida moderna, onde cada boca pintada com batom luminoso grita o coro das corajosas em fila indianamente formada para abraçar felicidade e futuro.
No vai que vai, a senhora prometida amansa as intempéries, mulher quebra tabus, avança no caminho da decisão, ama seu homem, seus filhos, enfrenta a tempestade da sobrevivência. Como formiguinha carregadeira de tarefas, ela viaja nos coletivos que a destinam ao trabalho diário, e sonha com a identificação da deusa mista, nas figuras de Bárbara e Iansã.
- Sou filha de Iansã! Repete a jovem afogueada e risonha, batendo com a mão espalmada sobre o coração na cadência de cada novo dia.
Isso acontece na Bahia, em termos regionais, mas se espalha pelo Brasil, como um inconsciente disseminado através de arquétipos femininos repetidamente cantados nas canções populares e nas festividades do 4 de dezembro.
Mulher de briga, cada filha dela, nada tem a temer quando se posta diante do desafio optando por ser representante do milagre fecundo da procriação.
O fogo dominado pelos bombeiros que invocam sua proteção é mesmo um espectro do calor que vem do útero em furor, da mãe-terra a cuspir labaredas que alimentam fé e glória. Mais que isso, até, chamas que garantem não só a expressão do sincretismo religioso, mas, sobretudo, o teor feminino que só emerge do fogo das paixões.
A menina mestiça que dança nos folguedos da comunidade intui sua condição de seguidora de alma chamuscada, suporte da condição capaz de derreter com olhares, gestos, abraços, beijos, cumprimentos, reverências, volteios, gritos de ordem, cânticos ou lamentos, ladainhas ou “pontos”, rezas ou louvores.
Há que se pedir piedade a Iansã, por cada mãe adolescente, cada mulher vítima da violência doméstica, cada mãe que perde seu filho na loucura do crime, cada esposa cuja ilusão do casamento feliz se esvai no ralo do destrato ou do abandono, cada fêmea em crise existencial, cada executiva imersa no comércio infindo do trabalho em lugar do carinho, cada artista solitária no ofício de emocionar seu público, cada professora empenhada em clarear mentes aprisionadas pela escuridão, cada médica comprometida pela saudável busca do equilíbrio físico e mental, e muitas mais.
Senhora dos relâmpagos, por sobre os mares revoltos, lá vem ela, a Bárbara Iansã, mais uma vez, na ardência do seu estigma, incendiar cada alma feminina, de menina que se faz mulher, a buscar queimar-se na imensidão à sua espera.
Aparecida Torneros
sexta-feira, 3 de dezembro de 2010
As duas mulheres de John Lennon
As duas mulheres de John Lennon
Mãe e a tia que criou o músico estão no centro de O Garoto de Liverpool
03 de dezembro de 2010
Texto - + Luiz Carlos Merten - O Estado de S.Paulo
Pode ser psicanálise elementar, mas John Lennon, que foi abandonado pela mãe quando criança, talvez tenha passado a vida inteira procurando uma substituta para ela. Encontrou-a em Yoko Ono e foi a união perfeita - até que os disparos de Mark Chapman pusessem fim à harmonia do casal. Dificilmente o espectador que for ver O Garoto de Liverpool, que estreia hoje, deixará de pensar assim. O filme já foi exibido no Festival do Rio e na Mostra de São Paulo. Poderia ter-se beneficiado de uma publicidade extra, se tivesse entrado há duas semanas, coincidindo com os shows de Paul McCartney.
Pois embora o garoto de Liverpool biografado pela diretora Sam Taylor Wood seja Lennon, o filme cobre os anos em que o jovem, atormentado e solitário, ligou-se a Paul (McCartney) e a George Harrison. Foi naquele período entre 15 e 20 anos, quando descobriu o rock e formou a primeira banda. A amizade foi o embrião para o surgimento dos Beatles, o que todo fã de carteirinha sabe.
É uma história conhecida, é verdade que não por todos e a diretora imprime seu toque pessoal ao retirá-la do âmbito dos amigos para encontrar outro foco. Porque a Sam Taylor Wood o que interessa de verdade é a relação de Lennon com as duas mulheres que marcaram sua infância e adolescência - a mãe que o abandonou e a tia que o criou. Essa mãe foi sempre um fantasma a assolar a criatividade do artista, em famosas criações como Mother e Woman, ambas da sua carreira solo.
"Mother, you had me, but I never had you/I wanted you, you didn"t want me" (Mãe, você me teve, mas eu nunca tive você / Eu queria você, mas você não me quis), canta/chora o eterno garoto marcado pela rejeição. Uma forma de compensação ele encontra na tia, que lhe dá a primeira guitarra e termina por abrir, pela via da arte, uma possibilidade de superação. Só que isso pode induzir o espectador a uma expectativa errada sobre o que vai encontrar no filme. Sam Taylor Wood, até por ser mulher, talvez queira iluminar um pouco essa mãe, resgatá-la da sua aura de crueldade.
Pois o jovem Lennon, ao descobrir o paradeiro da mãe, vai bater à sua porta, tentando ouvir dela o porquê do abandono, Cria-se uma espécie de vínculo tardio e ele coincide com a depressão que a morte do marido causa na tia. Produz-se quase que uma inversão - a mãe fica mais palatável e a tia revela seus aspectos mais sombrios. O pobre garoto de Liverpool, realmente, depende cada vez mais da arte para solucionar os impasses de sua vida.
Mas a verdade é que, por mais interessante que seja como tentativa de entender o gênio. O Garoto de Liverpool sofre do problema básico envolvendo muitas cinebiografias de grandes artistas.
O filme é bem feito, razoavelmente interpretado, mas dá a impressão de ficar na superfície dos fatos e personagens. Seria necessária uma abordagem narrativa muito mais forte e ousada para que O Garoto de Liverpool fizesse justiça à criatividade que caracterizava vida e obra de John Lennon. Isso não deixa de ser surpreendente porque a diretora, como membro do movimento Jovens Artistas Britânicos, expôs seus trabalhos com sucesso em várias mostras (coletivas ou individuais), chegando a vencer o prêmio de talento mais promissor na Bienal de Veneza de 1997.
O Garoto é seu primeiro longa e antes dele Sam Taylor Wood fez o curta Love You More, produzido por Anthony Minghella, que participou da competição da categoria no Festival de Cannes de 2008. O ator Aaron Johnson, que faz o papel - ele ficou famoso por Kick-Ass -, é capaz de imitar o jeito e até o sotaque do biografado, mas não vai fundo em sua viagem em busca da alma do personagem. É interessante assinalar que, durante a filmagem, a diretora e o ator iniciaram um affair que continua. Pena que a paixão da vida não tenha sido incorporada à ficção.
Mãe e a tia que criou o músico estão no centro de O Garoto de Liverpool
03 de dezembro de 2010
Texto - + Luiz Carlos Merten - O Estado de S.Paulo
Pode ser psicanálise elementar, mas John Lennon, que foi abandonado pela mãe quando criança, talvez tenha passado a vida inteira procurando uma substituta para ela. Encontrou-a em Yoko Ono e foi a união perfeita - até que os disparos de Mark Chapman pusessem fim à harmonia do casal. Dificilmente o espectador que for ver O Garoto de Liverpool, que estreia hoje, deixará de pensar assim. O filme já foi exibido no Festival do Rio e na Mostra de São Paulo. Poderia ter-se beneficiado de uma publicidade extra, se tivesse entrado há duas semanas, coincidindo com os shows de Paul McCartney.
Pois embora o garoto de Liverpool biografado pela diretora Sam Taylor Wood seja Lennon, o filme cobre os anos em que o jovem, atormentado e solitário, ligou-se a Paul (McCartney) e a George Harrison. Foi naquele período entre 15 e 20 anos, quando descobriu o rock e formou a primeira banda. A amizade foi o embrião para o surgimento dos Beatles, o que todo fã de carteirinha sabe.
É uma história conhecida, é verdade que não por todos e a diretora imprime seu toque pessoal ao retirá-la do âmbito dos amigos para encontrar outro foco. Porque a Sam Taylor Wood o que interessa de verdade é a relação de Lennon com as duas mulheres que marcaram sua infância e adolescência - a mãe que o abandonou e a tia que o criou. Essa mãe foi sempre um fantasma a assolar a criatividade do artista, em famosas criações como Mother e Woman, ambas da sua carreira solo.
"Mother, you had me, but I never had you/I wanted you, you didn"t want me" (Mãe, você me teve, mas eu nunca tive você / Eu queria você, mas você não me quis), canta/chora o eterno garoto marcado pela rejeição. Uma forma de compensação ele encontra na tia, que lhe dá a primeira guitarra e termina por abrir, pela via da arte, uma possibilidade de superação. Só que isso pode induzir o espectador a uma expectativa errada sobre o que vai encontrar no filme. Sam Taylor Wood, até por ser mulher, talvez queira iluminar um pouco essa mãe, resgatá-la da sua aura de crueldade.
Pois o jovem Lennon, ao descobrir o paradeiro da mãe, vai bater à sua porta, tentando ouvir dela o porquê do abandono, Cria-se uma espécie de vínculo tardio e ele coincide com a depressão que a morte do marido causa na tia. Produz-se quase que uma inversão - a mãe fica mais palatável e a tia revela seus aspectos mais sombrios. O pobre garoto de Liverpool, realmente, depende cada vez mais da arte para solucionar os impasses de sua vida.
Mas a verdade é que, por mais interessante que seja como tentativa de entender o gênio. O Garoto de Liverpool sofre do problema básico envolvendo muitas cinebiografias de grandes artistas.
O filme é bem feito, razoavelmente interpretado, mas dá a impressão de ficar na superfície dos fatos e personagens. Seria necessária uma abordagem narrativa muito mais forte e ousada para que O Garoto de Liverpool fizesse justiça à criatividade que caracterizava vida e obra de John Lennon. Isso não deixa de ser surpreendente porque a diretora, como membro do movimento Jovens Artistas Britânicos, expôs seus trabalhos com sucesso em várias mostras (coletivas ou individuais), chegando a vencer o prêmio de talento mais promissor na Bienal de Veneza de 1997.
O Garoto é seu primeiro longa e antes dele Sam Taylor Wood fez o curta Love You More, produzido por Anthony Minghella, que participou da competição da categoria no Festival de Cannes de 2008. O ator Aaron Johnson, que faz o papel - ele ficou famoso por Kick-Ass -, é capaz de imitar o jeito e até o sotaque do biografado, mas não vai fundo em sua viagem em busca da alma do personagem. É interessante assinalar que, durante a filmagem, a diretora e o ator iniciaram um affair que continua. Pena que a paixão da vida não tenha sido incorporada à ficção.
quarta-feira, 1 de dezembro de 2010
A vida comeca aos 60?( publicada no site mais de 50)
A vida começa aos 60?
Uma crônica sobre as rotinas que podem ser reinventadas
20/04/2010
Por Cida Torneros*
A quarta-feira parecia pequena para o tanto de coisas que ela tinha a resolver. Uma passada no intituto de depilação, coisa importante para garantir a textura macia da ausência de pelos no corpo exposto ao sol da praia que ela planejava ir no fim de semana. O cuidado com a manicure, mãos e pés tratados e devidamente esmaltados numa cor café, que em sua pele clara realçava tão bem. Não podia esquecer de apanhar as duas calças compridas novas naquela loja onde fizera umas comprinhas básicas e que tinham ficado de fazer novas bainhas. O salão de cabeleireiro, tintura, corte e escova, coisas fundamentais, pois na quinta, bem cedo, lá estaria ela, mais uma vez, apresentando o seminário anual da federação de médicos, onde teria o prazer de conviver por dois dias, com os temas relativos à saúde e a preocupação com a mídia que divulga ou distorce assuntos tão delicados, de grande responsabilidade na informação ao público em geral.
No cair da noite, ainda bem, a esperava o profissional da grife francesa de cosméticos e maquiagem, para um tratamento especial, e algumas novas recomendações para a pintura de um rosto sempre cuidado, expressivo e luminoso, segundo as bulas explicativas dos produtos que ela compraria sem lamentar custos, refletindo que ecominazaria, pois devia ser muito mais cara uma cirurgia plástica. Ela decidira, por foro íntimo, nunca vir a fazer uma dessas, por motivos estéticos. Preferia cuidar da pele, da alimentação, dos exercícios físicos, da emoção ( fazia psicanálise há 12 anos) para manter-se ativa, bonita e feliz consigo mesma.
O dia corria, a quarta parecia pequena, todavia, ao chegar em casa, ainda assistiu um pouco de televisão, repassou o texto do que ia falar ao microfone do dia seguinte, enrolou os cabelos para que brilhassem soltos na manhã do dia seguinte, passou o creme de limpeza, o hidradante, não esqueceu do anti-rugas em volta dos olhos, releu mais um capítulo do seu atual livro de cabeceira ( Mulheres que correm com os lobos), orou algo em agradecimento pela alegria de viver, deu uma ligadinha para dizer boa noite à mãe de 83 anos, deixou recado na secretária eletrônica do filho de 32, pensou no seu namorado distante ( de 42) , mas que esperava reencontrar no fim de semana, se conseguissem conjugar agendas, pois o moço avisara das ondas fortes e do seu intento de surfar aproveitando o clima propício, o que, a ela, dava uma pontinha de orgulho, por sabê-lo tão cheio de vida e tão amante da natureza.
Então, ajeitou-se na cama, plena de deveres cumpridos, satisfeita pelas promessas de um amanhã comprometido de afazeres, adormeceu e sonhou que era mesmo uma menina saltitante descobrindo os segredos da vida. Ao acordar, cedinho, disse para si própria..." agora eu sei, a vida começa aos 60!" E correu para o seminário, calçando uns sapatos salto 10, elegante, feliz, observando o sol que a iluminava e o céu azul que lhe premiava com a certeza da desimportância de contar os anos, já que sua alma era tão jovem quanto o brilho dos seus olhos.
*Cida Torneros é jornalista
Uma crônica sobre as rotinas que podem ser reinventadas
20/04/2010
Por Cida Torneros*
A quarta-feira parecia pequena para o tanto de coisas que ela tinha a resolver. Uma passada no intituto de depilação, coisa importante para garantir a textura macia da ausência de pelos no corpo exposto ao sol da praia que ela planejava ir no fim de semana. O cuidado com a manicure, mãos e pés tratados e devidamente esmaltados numa cor café, que em sua pele clara realçava tão bem. Não podia esquecer de apanhar as duas calças compridas novas naquela loja onde fizera umas comprinhas básicas e que tinham ficado de fazer novas bainhas. O salão de cabeleireiro, tintura, corte e escova, coisas fundamentais, pois na quinta, bem cedo, lá estaria ela, mais uma vez, apresentando o seminário anual da federação de médicos, onde teria o prazer de conviver por dois dias, com os temas relativos à saúde e a preocupação com a mídia que divulga ou distorce assuntos tão delicados, de grande responsabilidade na informação ao público em geral.
No cair da noite, ainda bem, a esperava o profissional da grife francesa de cosméticos e maquiagem, para um tratamento especial, e algumas novas recomendações para a pintura de um rosto sempre cuidado, expressivo e luminoso, segundo as bulas explicativas dos produtos que ela compraria sem lamentar custos, refletindo que ecominazaria, pois devia ser muito mais cara uma cirurgia plástica. Ela decidira, por foro íntimo, nunca vir a fazer uma dessas, por motivos estéticos. Preferia cuidar da pele, da alimentação, dos exercícios físicos, da emoção ( fazia psicanálise há 12 anos) para manter-se ativa, bonita e feliz consigo mesma.
O dia corria, a quarta parecia pequena, todavia, ao chegar em casa, ainda assistiu um pouco de televisão, repassou o texto do que ia falar ao microfone do dia seguinte, enrolou os cabelos para que brilhassem soltos na manhã do dia seguinte, passou o creme de limpeza, o hidradante, não esqueceu do anti-rugas em volta dos olhos, releu mais um capítulo do seu atual livro de cabeceira ( Mulheres que correm com os lobos), orou algo em agradecimento pela alegria de viver, deu uma ligadinha para dizer boa noite à mãe de 83 anos, deixou recado na secretária eletrônica do filho de 32, pensou no seu namorado distante ( de 42) , mas que esperava reencontrar no fim de semana, se conseguissem conjugar agendas, pois o moço avisara das ondas fortes e do seu intento de surfar aproveitando o clima propício, o que, a ela, dava uma pontinha de orgulho, por sabê-lo tão cheio de vida e tão amante da natureza.
Então, ajeitou-se na cama, plena de deveres cumpridos, satisfeita pelas promessas de um amanhã comprometido de afazeres, adormeceu e sonhou que era mesmo uma menina saltitante descobrindo os segredos da vida. Ao acordar, cedinho, disse para si própria..." agora eu sei, a vida começa aos 60!" E correu para o seminário, calçando uns sapatos salto 10, elegante, feliz, observando o sol que a iluminava e o céu azul que lhe premiava com a certeza da desimportância de contar os anos, já que sua alma era tão jovem quanto o brilho dos seus olhos.
*Cida Torneros é jornalista
terça-feira, 30 de novembro de 2010
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