
O Sol e nós...depois dele...
Maria Aparecida Torneros da Silva
O Sol e nós...depois dele... Um dia, eu sonhei, acho, nem sei bem ao certo, era um fim de tarde, disso eu me lembro, mas confesso que não muito bem...éramos nós, eu e o Sol, ali, na espreita. Aquecendo a tarde finda, denominando o lusco-fusco alaranjado, chamando pra dentro da alma da gente, o tal crepúsculo. Sorri, porque rimava com músculo, e pensei no ósculo, o beijo que desejei e nunca dei, talvez o beijo do amor maior que imaginei encontrar e que nunca veio... Aí, foi me dando um nó. Sim, um nó... daqueles que às vezes dá na garganta, fechando a passagem do ar, coisa de glote, garrote, enforcamento de oxigênio, caroço crescendo impedindo o raciocínio, medo de morrer sem respirar mais uma vez sentindo o cheiro da manhã do outro dia. Sem ter outro dia, depois do Sol... isso é angústia? ou é depressão? ou será que é saudade do dia que tá se esvaindo, naquele céu enorme, escurecendo, pintando as primeiras visões das luzes estelares, espetaculares nuances de cores, róseas nuvens que se tornam tangerinas, desenhos e arabescos imponentes, o entardecer, e a ida dele... O Sol se foi, me recordo agora, perfeitamente. Fiquei com os olhos fixos naquele ponto do horizonte, ele se despedia de mim, escondendo-se atrás da linha da montanha, a bola de fogo se metia como num passe de mágica, sob a noite que surgia. Então, com duas lágrimas teimosas, indecentemente infantis, dei adeus ao Sol daquele dia. Nunca mais ia vê-lo...É bem verdade que haveriam outros novos e ensolarados dias se eu acordasse amanhã e depois...mas... não há dois sóis e dois dias iguais na vida de ninguém... Depois daquele Sol, daquele crepúsculo, rimado com músculo, meu coração, treinado em bater na cadência do afeto, me deu algumas chances ( sou grata eternamente por isso) de me surpreender com tantos sóis em verões e invernos, em lugares distantes do mundo vasto, mas nunca esqueci aquele, especialmente. Eu estava, na casa da adolescência, e da varanda, iluminando o contorno da igrejinha lá longe, ele me contava uma história de vida, me fazia suspirar a magia do seu brilho, me encantava e magnetizava, me prendia , repentinamente, numa paixão absurda pelo dia que eu não queria que acabasse. Agora, passado tanto tempo desde aquele Sol, daquele fim de tarde, rendo homenagens à imagem que trago na lembrança, uma fotografia itinerante impressa na memória, apesar da minha tentativa de recontar tanta criancice, sou-lhe eternamente grata pelo sentido que me deu à vida, a partir de sua fuga dos meus olhos, naquele momento inesquecível... Cida Torneros
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