
Saturday, February 09, 2008
A equação da vida número 2
O tempo parece correr mais do que devia, Pepita pensou... ao mesmo tempo em que suas pernas bamboleantes a traíram, na subida da escada para o segundo andar da casa velha. No quarto de dormir, a foto emoldurada reproduzia dois sorrisos felizes. Quem era aquele casal? Ah, lembrou, com dificuldade, de um abraço saudoso, um calor momentâneo e o som de dois sorrisos simultâneos, na tarde de uma primavera que a vida lhes oferecera. Sonhos? ora, muitos, sim, incontáveis sonhos, vivenciados ou não, apenas sonhos, como devem ser os pensamentos que povoam os corações inebriados de paixão. Registro em papel fotográfico, lembranças guardadas na memória enfraquecida, mas, agora, onde estavam aqueles dois jovens? Ali, sim, ali na imagem fixada num quadro que se eternizava sobre a cômoda de gavetas repletas de vestígios de ambos.
Pepita procurou conter o choro, não valia a pena chorar pela felicidade. Era melhor sorrir de novo, sentou-se na cama, ossos doídos, costas curvadas que amparou em almofadas de algodão doce, cabeça que recostou para sonhar mais um pouco.
Voltou no tempo...precisava recordar mais. Frases, presentes, a chegada de inúmeros buquês de flores, as festinhas de aniversário, os doces, bolos, comidas provadas em garfadas sensualizadas por olhares comilões. As noites em torno de gemidos silenciados pela passagem inexorável do relógio, ela arrepiou-se por saber-se amada num período em que acreditou que o amor deles era verdadeiro e eterno.
Pepita alizou o próprio braço...de olhos fechados, sentiu a mão dele como de um fantasma que a acariciava e confortava.
Sua melhor confidência, o amor confessado e mentido, o amor proclamado e abandonado, o amor que se foi voando no universo sem fim. Ela compreendeu que o amor ainda permanecia nos céus e voava. Nada o deteria. O amor precisava voar para continuar a existir nas almas humanas.
Pepita voou. Adormeceu e sonhou. Estava também voando. Tudo se tornou claro, solucionado. Viemos ao mundo somente para voar depois. Ela não precisa despertar mais... Compreendera tudo. Podia pressentir que ele a esperava nalgum canto da eternidade, para sorrir junto dela, mais algumas vezes.
Aparecida Torneros
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