aqui tem música, poesia, reflexões, homenagens, lembranças, imagens, saudades, paixões, palavras,muitas palavras, e entre elas, tem cada um de vocês, junto comigo... Cida Torneros
Maracanã
terça-feira, 26 de julho de 2011
segunda-feira, 25 de julho de 2011
terça-feira, 19 de julho de 2011
quarta-feira, 13 de julho de 2011
segunda-feira, 11 de julho de 2011
sábado, 9 de julho de 2011
quinta-feira, 7 de julho de 2011
Amigos e amigas, um "viva" a Portugal!
Amigos e amigas, um "viva" a Portugal!
Na vida, de todos nós, tão misteriosa, curta e cheia de mudanças de rumo, há lugares que nos surpreendem por serem tão familiares, mesmo que ali nunca se tenha vivido, verdadeiramente, mas que, através da história, da ancestralidade e da mídia, literatura, cinema, esses tais pedacinhos de terra, nos puxassem com suas manhas, traços culturais, canções, paixões e até seus próprios medos.
Em mim, acredito que isto se passe a quase todos, determinadas cidades ou países , por onde tenho passado, marcam até por seus cheiros, luzes da manhã ou da noite e incluo nestes sentidos peculiares e delicados até mesmo euforias populares e nostalgias que percebo em olhares de gente que nem conheço, cujo nome nunca vou saber, mas que me passam suas sensibilidades, ainda que por segundos, quando nos cruzamos nas ruas indefinidas de um mundo tão multifacetado e tão globalizado, como querem os economistas do poder.
E poder implica em manipular, manobrar, interferir na história dos povos e nas trajetórias individuais.
Estive em Portugal, em carne e osso, duas vezes, por enquanto. Estive e tenho estado em Portugal, em alma e coração, milhões de vezes.
Trago no sangue a herança do meu avô português, Antonio Pinto da Silva, pai do meu pai, com quem convivi até meus nove anos, quando o perdi para um ataque de coração, ele tinha 65 anos, era um poeta nato, um bon vivant, um viajante, um ser de fé, homem de brio, me passou alegria e força, gostava de me ouvir contar sobre a vida dos índios brasileiros, tudo que eu, na fala atropelada da minha infância, lhe repetia, misturando termos que lhe faziam rir, que a professora me ensinava. Entre "tacapes", "ocas", "curumins", "pajés", além de muitos outros, tais palavrinhas eram um intercâmbio cultural nas tardes dos anos 60, entre um velho avô luzitano e a primeira neta, espevitada, falante, sedenta de contar e descrever algo que fosse novo para aquele homem que veio de Portugal e no Brasil plantou uma bela família.
Claro que havia troca intensa, eu aprendia com ele muitas coisas sobre Portugal e nem me dava conta disso. O seu falar carregado, os discursos na Igreja, sua atividade diária de trabalho constante, as idas aos bailes de carnaval, as festas que organizava na rua em que morávamos, os almoços que oferecia aos padres, e estes, como gostavam de tomar vinho, eu me espantava.
Menina e observadora, via com memória fotográfica se sucederem os Natais onde ele se sentava na cabeceira da grande mesa e sorria ao ver os 8 filhos reunidos, os netos, noras e genros, o movimento dos talheres, os brindes das taças, as falas simultâneas, e pelas janelas da grande sala da casa que ele construiu no subúrbio carioca, via-se o jardim que minha avó espanhola, Carmen, cuidava, as rosas, jasmins, o lago com peixinhos e até uma figueira e uma videira, mesclando-se ao sabor da saudosa terra além do Atlântico, onde, certamente, frutos e flores lhe traziam o gosto dividido da imigração e da aventura.
Pois só fui conhecer Portugal, quer dizer, pisar em seu solo bendito, já beirando os meus 60 anos. Entretanto, eu me revia ali, já o conhecia na verdade, e apenas me sentia voltando à terrinha com ganas de passear por cidades e me fartar dos seus quitudes. Isto foi em 2009, lá fiquei por duas semanas, seguindo depois para Espanha e França.
No mês passado, dois anos depois, voltei a Portugal, por apenas 5 dias, com minha amiga Katia, depois de passarmos quase tres semanas conhecendo Italia e revivendo Paris, desembarcamos em Lisboa, que ela também já conhecia, mas no fundo, antes de voltarmos ao Brasil, era mesmo naquele lugarzinho especial que precisávamos fechar com chave mestra a nossa ida à Europa.
No coração, a tal sensação misteriosa. Senti-me outravez em casa. Agora, vô Antonio tem um bisneto, o João Luis, que fez o inverso dele e mora, há quase um ano, com esposa e filha, em Massamã, próximo de Lisboa. Fomos visitar meus primos, que estão amando viver em Portugal. No curto período em que lá fiquei, desta vez, acompanhei a eleição do novo primeiro ministro e me envolvi com as faces preocupadas da população portuguesa frente à tal crise econômica que assola a Europa.
Nos últimos dias, as notícias sobre a situação financeira de Portugal, deixam-me triste, preocupada, mas sobretudo, enfastiada, porque o país está sendo injustiçado pelas agências de risco...todos sabemos que a crise paira e tem um quê de fabricação intencional nela...como sempre... nosso amado Portugal não merece ser classificado como "lixo" uma vez que há muitos "coelhos" nesse mato econômico... interesses diversos e transversos, muita intriga e manobra que não leva em consideração a sobrevivência humana dos povos, mas o lucro que o Deus chamado "Capital" globalizado obtem ou quer obter à custa do sacrifício das pessoas que são formiguinhas diante de gigantes insensatos e gananciosos, eu diria até desumanos, inconsequentes e virulentos.
Sabemos que há crise em muitos lugares do mundo, na própria Europa, Irlanda e Grécia, não saem do noticiário, o desemprego leva a juventude assustada às ruas, ao protesto, a desestabilização é péssima para muitos e deve ser ótima para alguns poucos, neste tal universo capitalista, selvagem, ao qual nos acostumamos em doses de contaminação eufórica, via shoppings anestesiantes, taxas e impostos escorchantes, injustas colocações em listas e listas de países que oscilam em suas economias, ao bel prazer de irresponsabilidade dos que só vêem cifras à sua frente.
Os que não conseguem sentir a alma dos povos, os que não percebem as dores das guerras, os que não se inquietam com a fome das gentes, os que não respeitam a história das nações, os que não têm a chance de se emocionar com a essência humana, a estes lhes cabe ( ou resta) trabalhar em agências de risco, em mercados flutuantes, em jogos de impacto, em manipulação da vida alheia, pensando talvez, racionalmente, que seriam os novos Santos do Deus Capital. Pena que suas emoções estejam tão adormecidas. E vamos dar um Viva a Portugal, para que a santa Terrinha supere a história, e se reorganize, porque é seu direito, a partir de uma reciclada geral, para o bem do seu povo, da gente que lhe quer bem e para que dê exemplo ao mundo, como precursor que é, da globalização, quando seus navegantes sairam pelo mundo e conquistaram a Terra, a mesma que hoje quer dar as costas, sem lembrar que há na alma portuguesa, uma sede que ultrapassa mares, uma fome de vencer que vai muito "além da Trapobana", por mares nunca dantes navegados", como cantou Camões.
Aparecida Torneros
Na vida, de todos nós, tão misteriosa, curta e cheia de mudanças de rumo, há lugares que nos surpreendem por serem tão familiares, mesmo que ali nunca se tenha vivido, verdadeiramente, mas que, através da história, da ancestralidade e da mídia, literatura, cinema, esses tais pedacinhos de terra, nos puxassem com suas manhas, traços culturais, canções, paixões e até seus próprios medos.
Em mim, acredito que isto se passe a quase todos, determinadas cidades ou países , por onde tenho passado, marcam até por seus cheiros, luzes da manhã ou da noite e incluo nestes sentidos peculiares e delicados até mesmo euforias populares e nostalgias que percebo em olhares de gente que nem conheço, cujo nome nunca vou saber, mas que me passam suas sensibilidades, ainda que por segundos, quando nos cruzamos nas ruas indefinidas de um mundo tão multifacetado e tão globalizado, como querem os economistas do poder.
E poder implica em manipular, manobrar, interferir na história dos povos e nas trajetórias individuais.
Estive em Portugal, em carne e osso, duas vezes, por enquanto. Estive e tenho estado em Portugal, em alma e coração, milhões de vezes.
Trago no sangue a herança do meu avô português, Antonio Pinto da Silva, pai do meu pai, com quem convivi até meus nove anos, quando o perdi para um ataque de coração, ele tinha 65 anos, era um poeta nato, um bon vivant, um viajante, um ser de fé, homem de brio, me passou alegria e força, gostava de me ouvir contar sobre a vida dos índios brasileiros, tudo que eu, na fala atropelada da minha infância, lhe repetia, misturando termos que lhe faziam rir, que a professora me ensinava. Entre "tacapes", "ocas", "curumins", "pajés", além de muitos outros, tais palavrinhas eram um intercâmbio cultural nas tardes dos anos 60, entre um velho avô luzitano e a primeira neta, espevitada, falante, sedenta de contar e descrever algo que fosse novo para aquele homem que veio de Portugal e no Brasil plantou uma bela família.
Claro que havia troca intensa, eu aprendia com ele muitas coisas sobre Portugal e nem me dava conta disso. O seu falar carregado, os discursos na Igreja, sua atividade diária de trabalho constante, as idas aos bailes de carnaval, as festas que organizava na rua em que morávamos, os almoços que oferecia aos padres, e estes, como gostavam de tomar vinho, eu me espantava.
Menina e observadora, via com memória fotográfica se sucederem os Natais onde ele se sentava na cabeceira da grande mesa e sorria ao ver os 8 filhos reunidos, os netos, noras e genros, o movimento dos talheres, os brindes das taças, as falas simultâneas, e pelas janelas da grande sala da casa que ele construiu no subúrbio carioca, via-se o jardim que minha avó espanhola, Carmen, cuidava, as rosas, jasmins, o lago com peixinhos e até uma figueira e uma videira, mesclando-se ao sabor da saudosa terra além do Atlântico, onde, certamente, frutos e flores lhe traziam o gosto dividido da imigração e da aventura.
Pois só fui conhecer Portugal, quer dizer, pisar em seu solo bendito, já beirando os meus 60 anos. Entretanto, eu me revia ali, já o conhecia na verdade, e apenas me sentia voltando à terrinha com ganas de passear por cidades e me fartar dos seus quitudes. Isto foi em 2009, lá fiquei por duas semanas, seguindo depois para Espanha e França.
No mês passado, dois anos depois, voltei a Portugal, por apenas 5 dias, com minha amiga Katia, depois de passarmos quase tres semanas conhecendo Italia e revivendo Paris, desembarcamos em Lisboa, que ela também já conhecia, mas no fundo, antes de voltarmos ao Brasil, era mesmo naquele lugarzinho especial que precisávamos fechar com chave mestra a nossa ida à Europa.
No coração, a tal sensação misteriosa. Senti-me outravez em casa. Agora, vô Antonio tem um bisneto, o João Luis, que fez o inverso dele e mora, há quase um ano, com esposa e filha, em Massamã, próximo de Lisboa. Fomos visitar meus primos, que estão amando viver em Portugal. No curto período em que lá fiquei, desta vez, acompanhei a eleição do novo primeiro ministro e me envolvi com as faces preocupadas da população portuguesa frente à tal crise econômica que assola a Europa.
Nos últimos dias, as notícias sobre a situação financeira de Portugal, deixam-me triste, preocupada, mas sobretudo, enfastiada, porque o país está sendo injustiçado pelas agências de risco...todos sabemos que a crise paira e tem um quê de fabricação intencional nela...como sempre... nosso amado Portugal não merece ser classificado como "lixo" uma vez que há muitos "coelhos" nesse mato econômico... interesses diversos e transversos, muita intriga e manobra que não leva em consideração a sobrevivência humana dos povos, mas o lucro que o Deus chamado "Capital" globalizado obtem ou quer obter à custa do sacrifício das pessoas que são formiguinhas diante de gigantes insensatos e gananciosos, eu diria até desumanos, inconsequentes e virulentos.
Sabemos que há crise em muitos lugares do mundo, na própria Europa, Irlanda e Grécia, não saem do noticiário, o desemprego leva a juventude assustada às ruas, ao protesto, a desestabilização é péssima para muitos e deve ser ótima para alguns poucos, neste tal universo capitalista, selvagem, ao qual nos acostumamos em doses de contaminação eufórica, via shoppings anestesiantes, taxas e impostos escorchantes, injustas colocações em listas e listas de países que oscilam em suas economias, ao bel prazer de irresponsabilidade dos que só vêem cifras à sua frente.
Os que não conseguem sentir a alma dos povos, os que não percebem as dores das guerras, os que não se inquietam com a fome das gentes, os que não respeitam a história das nações, os que não têm a chance de se emocionar com a essência humana, a estes lhes cabe ( ou resta) trabalhar em agências de risco, em mercados flutuantes, em jogos de impacto, em manipulação da vida alheia, pensando talvez, racionalmente, que seriam os novos Santos do Deus Capital. Pena que suas emoções estejam tão adormecidas. E vamos dar um Viva a Portugal, para que a santa Terrinha supere a história, e se reorganize, porque é seu direito, a partir de uma reciclada geral, para o bem do seu povo, da gente que lhe quer bem e para que dê exemplo ao mundo, como precursor que é, da globalização, quando seus navegantes sairam pelo mundo e conquistaram a Terra, a mesma que hoje quer dar as costas, sem lembrar que há na alma portuguesa, uma sede que ultrapassa mares, uma fome de vencer que vai muito "além da Trapobana", por mares nunca dantes navegados", como cantou Camões.
Aparecida Torneros
quarta-feira, 6 de julho de 2011
contra-ataque do amor: Cida Torneros: A escritora carioca se apaixona pel...
contra-ataque do amor: Cida Torneros: A escritora carioca se apaixona pel...: "Posted on 04-06-2011 Cida Torneros: A escritora carioca se apaixona pela Cidade Eterna, canta “Arrivederci Roma” na partida, e promete v..."
terça-feira, 5 de julho de 2011
sexta-feira, 1 de julho de 2011
quinta-feira, 30 de junho de 2011
Rodízio de amigas (crônica escrita em 2006, publicada no livro A mulher necessária)
Rodízio de amigas
Fui saindo em disparada, atrasada para o cineminha de começo de noite de domingo, e ao despedir do marido da amiga em cuja casa passei o fim de semana, no Leblon, ele me saiu com essa... rodízio de amigas.....eu sorri, assimilei, e corri para encontrar com a outra companheira que já tinha as entradas compradas, para assistirmos juntas ao "Memórias de uma gueixa".
No caminho, enquanto pedia ao taxista para acelerar no trânsito, eu pensei na tarde quase toda, onde nosso grupo, de cinco amigas, estivemos sentadas no quiosque da praia, bebericando água de coco, passando protetor solar, entre conversas que giraram desde política partidária até cirurgias rejuvenescedoras.
O papo reconfortante, com a leveza própria das mulheres de estágio de vida conquistada, combinando a fuga do carnaval carioca, do grupo, umas irão para Buenos Aires, outras para o Chile, e outra ficará para brincar mais uma vez a folia na cidade. Aliás, que cidade linda, no domingo, ontem, com aquele sol de rachar o cérebro, e aquele mar azul, verde, entremeado de brilho, fulgurando nossos biquinis floridos entre risadas e constatações.
Esticamos no Bracarense, com direito a chope claro e escuro, e a delícia de camarão, que saltitava ao paladar como um prenúncio do almoço, logo em seguida, na casa da amiga Tê, aquela capaz de oferecer aconchego com sorriso próprio da vida vivida transbordante.
Fui chegando ao cine para ver a Gueixa, rever internamente uma reportagem que escrevi nos anos 70, quando , em Tóquio, entrevistei uma gueixa de 54 anos, que me revelou sua vida e segredos ( alguns) desde que se tornara gueixa aos 13 anos, estudando na tal escola delas, exatamente como assisti em seguida, na história que o cinema me proporcionou.
No trecho que antecedeu o início da sessão, pude pensar mais uns minutos sobre a nomeação do marido da amiga a respeito do meu ir-e-vir com tantas amigas que me circundam, cobram presença, me telefonam, me buscam, me enternecem, me preocupam, me solicitam, me acodem, me ouvem os lamentos, me dão alegria , me complementam, me esperam nos cinemas, nas equinas, nos restaurantes, nos telefones, nas casas, para almoços, jantares, festas, dançam comigo nos salões dos clubes, riem comigo nas areias das praias, caminham comigo nos calçadões cariocas, me pegam de carro nos teatros paulistas, me acompanham na noite dos bares boêmios, cantam pra mim, nas casas noturnas da Lapa, declamam pra mim nos dias sombrios, me injetam vida nas veias, a cada alvorecer, me dão a saudade necessária pra valorizar suas presenças, e ainda, me fazem sentir a companhia sensata e lógica em dias de domingo.
São muitas, eu é que agradeço, são variadas, de gênio, perfil, gostos e comportamentos, mas são tão necessárias, são tão presentes, tão importantes, que somam os longos esclarecimentos telefônicos que revelam mistérios pertinentes ao mundo feminino e particular. Há ocasiões em que é preciso estar mais atenta aos seus apelos, críticas, lamentos e cobranças, na tentativa pertinente de não se deixar perder seu encanto nos caminhos. Quando isso acontece, é preciso permitir que se vão ao encontro de novas impressões de viagem. E não há o que lamentar, só há o que agradecer, como num diário de bordo. Registrando tudo, a paz do caminho com elas ao lado, essa sede de viver, compartilhando felicidade, falando do mundo que é de cada uma e é de nós todas, num segundo só.
O marido da amiga tem toda razão, é com num rodízio, mas não se pode abrir mão de nenhuma delas. E se vou degustando a alegria da companhia, vou também crescendo interiormente, por ser assim, capaz de absorver querências variadas, desfrutar carinho tanto, agradecer atenção ofertada em doses múltiplas e ainda, de bandeja, assistir ao Aznavour cantando SHE... que, se eu pudesse, dedicava a cada "ELA", que me acompanha e preza.
Vi o filme da Gueixa como se fosse um sonho de amor. She (Ela), personagem-título, contando sua vida, me fez reviver o conselho daquela que entrevistei, há tanto tempo:
- Seja como nós, ofereça dons, entretenha, cante, encante, anime, proporcione ilusões, fantasias...
Cada amiga, do rodízio, tem qualquer coisa de gueixa, cada uma delas me faz sentir assim, com vontade de dedicar-lhes uma crônica com fundo musical e agradecer por sua presença em minha vida.
Aparecida Torneros
Jornalista - Rio de Janeiro
Fui saindo em disparada, atrasada para o cineminha de começo de noite de domingo, e ao despedir do marido da amiga em cuja casa passei o fim de semana, no Leblon, ele me saiu com essa... rodízio de amigas.....eu sorri, assimilei, e corri para encontrar com a outra companheira que já tinha as entradas compradas, para assistirmos juntas ao "Memórias de uma gueixa".
No caminho, enquanto pedia ao taxista para acelerar no trânsito, eu pensei na tarde quase toda, onde nosso grupo, de cinco amigas, estivemos sentadas no quiosque da praia, bebericando água de coco, passando protetor solar, entre conversas que giraram desde política partidária até cirurgias rejuvenescedoras.
O papo reconfortante, com a leveza própria das mulheres de estágio de vida conquistada, combinando a fuga do carnaval carioca, do grupo, umas irão para Buenos Aires, outras para o Chile, e outra ficará para brincar mais uma vez a folia na cidade. Aliás, que cidade linda, no domingo, ontem, com aquele sol de rachar o cérebro, e aquele mar azul, verde, entremeado de brilho, fulgurando nossos biquinis floridos entre risadas e constatações.
Esticamos no Bracarense, com direito a chope claro e escuro, e a delícia de camarão, que saltitava ao paladar como um prenúncio do almoço, logo em seguida, na casa da amiga Tê, aquela capaz de oferecer aconchego com sorriso próprio da vida vivida transbordante.
Fui chegando ao cine para ver a Gueixa, rever internamente uma reportagem que escrevi nos anos 70, quando , em Tóquio, entrevistei uma gueixa de 54 anos, que me revelou sua vida e segredos ( alguns) desde que se tornara gueixa aos 13 anos, estudando na tal escola delas, exatamente como assisti em seguida, na história que o cinema me proporcionou.
No trecho que antecedeu o início da sessão, pude pensar mais uns minutos sobre a nomeação do marido da amiga a respeito do meu ir-e-vir com tantas amigas que me circundam, cobram presença, me telefonam, me buscam, me enternecem, me preocupam, me solicitam, me acodem, me ouvem os lamentos, me dão alegria , me complementam, me esperam nos cinemas, nas equinas, nos restaurantes, nos telefones, nas casas, para almoços, jantares, festas, dançam comigo nos salões dos clubes, riem comigo nas areias das praias, caminham comigo nos calçadões cariocas, me pegam de carro nos teatros paulistas, me acompanham na noite dos bares boêmios, cantam pra mim, nas casas noturnas da Lapa, declamam pra mim nos dias sombrios, me injetam vida nas veias, a cada alvorecer, me dão a saudade necessária pra valorizar suas presenças, e ainda, me fazem sentir a companhia sensata e lógica em dias de domingo.
São muitas, eu é que agradeço, são variadas, de gênio, perfil, gostos e comportamentos, mas são tão necessárias, são tão presentes, tão importantes, que somam os longos esclarecimentos telefônicos que revelam mistérios pertinentes ao mundo feminino e particular. Há ocasiões em que é preciso estar mais atenta aos seus apelos, críticas, lamentos e cobranças, na tentativa pertinente de não se deixar perder seu encanto nos caminhos. Quando isso acontece, é preciso permitir que se vão ao encontro de novas impressões de viagem. E não há o que lamentar, só há o que agradecer, como num diário de bordo. Registrando tudo, a paz do caminho com elas ao lado, essa sede de viver, compartilhando felicidade, falando do mundo que é de cada uma e é de nós todas, num segundo só.
O marido da amiga tem toda razão, é com num rodízio, mas não se pode abrir mão de nenhuma delas. E se vou degustando a alegria da companhia, vou também crescendo interiormente, por ser assim, capaz de absorver querências variadas, desfrutar carinho tanto, agradecer atenção ofertada em doses múltiplas e ainda, de bandeja, assistir ao Aznavour cantando SHE... que, se eu pudesse, dedicava a cada "ELA", que me acompanha e preza.
Vi o filme da Gueixa como se fosse um sonho de amor. She (Ela), personagem-título, contando sua vida, me fez reviver o conselho daquela que entrevistei, há tanto tempo:
- Seja como nós, ofereça dons, entretenha, cante, encante, anime, proporcione ilusões, fantasias...
Cada amiga, do rodízio, tem qualquer coisa de gueixa, cada uma delas me faz sentir assim, com vontade de dedicar-lhes uma crônica com fundo musical e agradecer por sua presença em minha vida.
Aparecida Torneros
Jornalista - Rio de Janeiro
domingo, 26 de junho de 2011
Amor: guerra ou jogo? Seriam as mulheres grandes perdedoras ou ardilosas vencedoras?
Amor: guerra ou jogo? Seriam as mulheres grandes perdedoras ou ardilosas vencedoras?
sábado, 29 de maio de 2010
Amor: guerra ou jogo? Seriam as mulheres grandes perdedoras ou ardilosas vencedoras?
Estávamos sentados no Caravelas. Almoçando.
A senhora escritora ( eu), os editores Tomaz e Bárbara, e o jovem poeta, Bruno Graciano, que acabava de lançar na semana anterior, na Bienal de Minas Gerais, seu primeiro livro. Na sua camiseta uma palavra cintilante: sucesso! pensei... o mesmo sucesso que um jogador busca no jogo da vida, o sonho do vencedor, ou seria a vitória do guerreiro?
Durante a conversa, entremeada de brincadeiras, falou-se sobre o meu novo livro, de contos, cujo título "O contra-ataque do amor", remete à idéia do quanto o tal sentimento humano, animal, Tao selvagem e tão natural pode se transformar, em nossa cultura, num intrincado jogo ou numa guerra incessante que vai oferecendo combates ou esfacelando vítimas abatidas, o papo foi se diluindo em reticências... cada um tem suas próprias histórias de amor ou suas experiências que buscam redefinir sentimentos muitas vezes indecifráveis.
Falamos do papel da literatura, a tal vida que imita a arte e do quanto a vida pode ser muito mais surreal do que a imaginação dos escritores.
Lembrou-se dos contos bizarros, das desculpas de assassinos para fugirem da condenação, das mentiras de amantes traidores, das ilusões de quem acredita ou deseja ser amado como se fosse um ícone obsessivamente adorado, das doenças emocionais, das atitudes passionais, e no inconsciente coletivo, a tal premissa, do "matar ou morrer", salvar-se , em atitude de legítima defesa.
Os indefesos da paixão, quem seriam? os jogadores que já entram em campo para perder o jogo? aqueles que se sentem inferiores ao tentar alcançar objetivos ou os que desistem de tanto buscar parceiros pelo caminho e preferem viver de passado ou de saudades?
Era preciso pensar na capa do livro. Falei do meu amigo português, o Telmo Gabriel, que sugeriu uma cama onde houvesse um tabuleiro de xadrez e peças com cabeças femininas e masculinas a disputarem o xeque-mate.
A idéia é boa. Vamos desenvolver, em poucos dias, talvez dez, porque a Bienal em Sampa, acontece em agosto, e o lançamento do livro, acertamos ontem, será no dia 14, um sábado, no stand da Editora Usina das Letras.
Despedi-me do grupo, rumo a caminhos interiores que me envolvem em verdadeiros labirintos. Pus-me a pensar nas batalhas que já travei e ainda travo em nome do amor. Confesso que muitas vezes me sinto cansada. Mas luto, porque, segundo meus companheiros de juventude, aliás inesquecíveis idealistas de esquerda, "a luta continua".
E, por uma questão de literatura, de escrita, de viver a vida, cá estou, nesta manhã de um sábado outonal, sentindo na pele e na alma, um imenso desejo de amar com maturidade, se isso ainda for possível.
Ontem, antes do tal almoço, na minha visita semanal ao Arruda, meu terapeuta, refletimos sobre o papel dos homens imaturos na passagem pela vida de mulheres que, como eu, vão amadurecendo, vão se desiludindo, vão asssentando mais os pés no chão, vão, para desencanto dos poetas, endurecendo, emburrecendo, esquecendo os sonhos, vão desviando do coração e do corpo, sentidos antes tão fortes. Mas como diria Che : "hay que endurecer, pero sin perder la ternura, jamás".
Lembrei das tais "tias" solteironas, pensei nas "viúvas" eternas, questionei as "solitárias" convictas, duvidei das "abandonadas" melancólicas , estranhei as "ditadoras" sádicas, interroguei as "poderosas" comandantes, penalizei-me das " enganadas" sabedoras, arrepiei-me pelas "assassinadas" indefesas, estremeci com as "injustiçadas" apedrejadas..."sofri" pelas mulheres "perdedoras" na guerra ou no jogo do amor...
Mas, num momento de lucidez necessária, vibrei com e pelas mulheres que contra-atacam. As que dão a volta, aquelas que amadurecem e vencem as partidas. As que não se deixam partir interiormente, que vão rejuntando cacos. Que sabem colar pedacinhos com a goma da esperança. São as que movem o mundo, criam filhos, sobrevivem, ainda se enfeitam, dançam, fazem comidas gostosas, deixam brilhar os olhinhos olhando a lua no céu, sentem as batidas fortes dos seus corações fatigados, mas permanecem na fé.
A fé é tudo, no jogo, na guerra, na vida, é tão feminina, a tal fé. Faz crer em dias melhores, em noites mágicas, em paixões possíveis, em amores premiados, em pessoas que virão aos nossos braços, que nos darão um ombro pra acalmar nossos medos e um colo para apaziguar nossos anseios.
Aí, recordei mulheres tão ardilosas que sabem vencer no jogo da vida, porque aprenderam a crer em si mesmas, aceitaram seu papel no mundo, fingem ser manipuladas, praparam inteligentes estratégias, levantam, sacodem a poeira e dão a volta por cima. Na próxima esquina, quem sabe lhes aguarda um troféu ou um pódium?
Talvez nem vençam a corrida, ou nem consigam o título maior, mas terão, sem dúvida, para sempre, o gosto honrado de terem sido bravas jogadoras e corajosas guerreiras. O segredo deve estar no seu talento em contra-atacar, mas eu não tenho certeza disso, e quem garante que venha a ter?
Cida Torneros.
sábado, 29 de maio de 2010
Amor: guerra ou jogo? Seriam as mulheres grandes perdedoras ou ardilosas vencedoras?
Estávamos sentados no Caravelas. Almoçando.
A senhora escritora ( eu), os editores Tomaz e Bárbara, e o jovem poeta, Bruno Graciano, que acabava de lançar na semana anterior, na Bienal de Minas Gerais, seu primeiro livro. Na sua camiseta uma palavra cintilante: sucesso! pensei... o mesmo sucesso que um jogador busca no jogo da vida, o sonho do vencedor, ou seria a vitória do guerreiro?
Durante a conversa, entremeada de brincadeiras, falou-se sobre o meu novo livro, de contos, cujo título "O contra-ataque do amor", remete à idéia do quanto o tal sentimento humano, animal, Tao selvagem e tão natural pode se transformar, em nossa cultura, num intrincado jogo ou numa guerra incessante que vai oferecendo combates ou esfacelando vítimas abatidas, o papo foi se diluindo em reticências... cada um tem suas próprias histórias de amor ou suas experiências que buscam redefinir sentimentos muitas vezes indecifráveis.
Falamos do papel da literatura, a tal vida que imita a arte e do quanto a vida pode ser muito mais surreal do que a imaginação dos escritores.
Lembrou-se dos contos bizarros, das desculpas de assassinos para fugirem da condenação, das mentiras de amantes traidores, das ilusões de quem acredita ou deseja ser amado como se fosse um ícone obsessivamente adorado, das doenças emocionais, das atitudes passionais, e no inconsciente coletivo, a tal premissa, do "matar ou morrer", salvar-se , em atitude de legítima defesa.
Os indefesos da paixão, quem seriam? os jogadores que já entram em campo para perder o jogo? aqueles que se sentem inferiores ao tentar alcançar objetivos ou os que desistem de tanto buscar parceiros pelo caminho e preferem viver de passado ou de saudades?
Era preciso pensar na capa do livro. Falei do meu amigo português, o Telmo Gabriel, que sugeriu uma cama onde houvesse um tabuleiro de xadrez e peças com cabeças femininas e masculinas a disputarem o xeque-mate.
A idéia é boa. Vamos desenvolver, em poucos dias, talvez dez, porque a Bienal em Sampa, acontece em agosto, e o lançamento do livro, acertamos ontem, será no dia 14, um sábado, no stand da Editora Usina das Letras.
Despedi-me do grupo, rumo a caminhos interiores que me envolvem em verdadeiros labirintos. Pus-me a pensar nas batalhas que já travei e ainda travo em nome do amor. Confesso que muitas vezes me sinto cansada. Mas luto, porque, segundo meus companheiros de juventude, aliás inesquecíveis idealistas de esquerda, "a luta continua".
E, por uma questão de literatura, de escrita, de viver a vida, cá estou, nesta manhã de um sábado outonal, sentindo na pele e na alma, um imenso desejo de amar com maturidade, se isso ainda for possível.
Ontem, antes do tal almoço, na minha visita semanal ao Arruda, meu terapeuta, refletimos sobre o papel dos homens imaturos na passagem pela vida de mulheres que, como eu, vão amadurecendo, vão se desiludindo, vão asssentando mais os pés no chão, vão, para desencanto dos poetas, endurecendo, emburrecendo, esquecendo os sonhos, vão desviando do coração e do corpo, sentidos antes tão fortes. Mas como diria Che : "hay que endurecer, pero sin perder la ternura, jamás".
Lembrei das tais "tias" solteironas, pensei nas "viúvas" eternas, questionei as "solitárias" convictas, duvidei das "abandonadas" melancólicas , estranhei as "ditadoras" sádicas, interroguei as "poderosas" comandantes, penalizei-me das " enganadas" sabedoras, arrepiei-me pelas "assassinadas" indefesas, estremeci com as "injustiçadas" apedrejadas..."sofri" pelas mulheres "perdedoras" na guerra ou no jogo do amor...
Mas, num momento de lucidez necessária, vibrei com e pelas mulheres que contra-atacam. As que dão a volta, aquelas que amadurecem e vencem as partidas. As que não se deixam partir interiormente, que vão rejuntando cacos. Que sabem colar pedacinhos com a goma da esperança. São as que movem o mundo, criam filhos, sobrevivem, ainda se enfeitam, dançam, fazem comidas gostosas, deixam brilhar os olhinhos olhando a lua no céu, sentem as batidas fortes dos seus corações fatigados, mas permanecem na fé.
A fé é tudo, no jogo, na guerra, na vida, é tão feminina, a tal fé. Faz crer em dias melhores, em noites mágicas, em paixões possíveis, em amores premiados, em pessoas que virão aos nossos braços, que nos darão um ombro pra acalmar nossos medos e um colo para apaziguar nossos anseios.
Aí, recordei mulheres tão ardilosas que sabem vencer no jogo da vida, porque aprenderam a crer em si mesmas, aceitaram seu papel no mundo, fingem ser manipuladas, praparam inteligentes estratégias, levantam, sacodem a poeira e dão a volta por cima. Na próxima esquina, quem sabe lhes aguarda um troféu ou um pódium?
Talvez nem vençam a corrida, ou nem consigam o título maior, mas terão, sem dúvida, para sempre, o gosto honrado de terem sido bravas jogadoras e corajosas guerreiras. O segredo deve estar no seu talento em contra-atacar, mas eu não tenho certeza disso, e quem garante que venha a ter?
Cida Torneros.
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