Maracanã

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terça-feira, 13 de janeiro de 2009

A América está fervendo...


A América está fervendo?

Olho de novo o mapa das Américas. Comprido, imponente, ligando o sul da Terra, na Patagônia, até o norte do Planeta, acima do Alaska, rompendo a marcação no gelo do Círculo Polar Ártico.

Milhões e milhões de criaturas ali se movem num ir e vir constante, há séculos. Histórias, povos, costumes, culturas variadas e adaptadas. Os povos das regiões frias, aprendizes de um viver que pressupõe guardar alimentos, estocar sobrevivência, fazer caixa, pensar nos dias gélidos, criar verdadeiras cidades subterrâneas como faz o pessoal do Canadá, por exemplo. Muitas fronteiras.

Observo a forma dos países, cujo traçado foi conquistado através de guerras, acordos, assinaturas ou dominações de fortes sobre fracos. Há os territorialmente privilegiados, grandes em extensão, famosos por suas lutas e vitórias ou por suas indústrias e valorização de moeda, como os Estados Unidos da América. Há os pequeninos, espremidos entre outros tantos, como os da América Central terrestre, por exemplo. Mas, tem a nação insular que desponta nos mares caribenhos, como protótipo de um lema: "tamanho não é documento". E Cuba segue sendo um país sui-gêneris na grande América. Capaz de desafios internos e externos, refletindo lendas e revolução idealista.

De pequeninos obstinados a "gigantes adormecidos", uma geografia montanhosa cercada de imensos vales verdes, um mar que não tem tamanho oferecendo seu azul parceiro do turismo, continua banhando costas quilométricas, lugares de hotelaria, pescaria, muita reflexão, alguns furacões, intensa navegação.

Seres humanos por ali se deixam levar nas águas de paixões como o comércio, a exportação, os cruzeiros em férias e os patrulhamentos atentos aos piratas invasores de oceanos, em busca de especiarias, de lagostas, de petróleo, que o fundo desses mares é rico, é pródigo, é alvo de disputa e até de guerra, lembrando as Malvinas/Falklands, quando a Inglaterra atravessou o Atlântico e veio brigar pela posse do pequenino arquipélago, nas costas da Argentina.

Preciso observar melhor não só o mapa das Américas, seu desenho, mas sua penca de lutas, tantas libertações e tantas prisões, histórias de povos indígenas, o amor ao solo e suas riquezas. A eterna batalha pela preservação do seu sustento. Vejo a Bolívia. Seu momento de efervescência. Terá ela gás suficiente para abastecer o equilíbrio de forças e a briga pelo poder de sua exploração? Os índios nas Américas vivem se espremendo. Põem-nos nas chamadas reservas, viraram personagens de filmes, foram dizimados de norte a sul, mas seus descendentes aí estão. Ainda fazem barulho, se pintam, guerreiam, numa força que vem dos seus espíritos ancestrais, provavelmente.

E como não falar do sangue negro que chegou às Américas em porões fétidos de navios traficantes de pessoas, trazidas da África? Esse sangue circula em maior ou menor escala misturado em quase todos os rincões americanos, seja do norte, do centro ou do sul. Um candidato a presidente no país mais potente, a América do Norte, tem grande chance de ser o primeiro negro a governar a América.

Também, as mulheres demoraram mas chegaram ao topo da organização política, e aí estão, a comandar nações como o Chile, a Argentina e parece que vão crescer em número e voz num futuro próximo, inundando de batons as mesas de negociação de uma América que está fervendo.

O ponto de ebulição do continente americano atinge níveis de grande explosão. Talvez o botão da imensa fogueira das vaidades por que passa este lado do Planeta tenha sido acionado no episódio do 11 de setembro de 2001. Naquele dia, em duas torres, queimaram-se vivas pessoas de mais de 60 nacionalidades diferentes. Um sacrifício ao Deus do Capitalismo, com a oferta de vidas inocentes num ritual ao mesmo tempo macabro e avassalador.

Serviu para que? Para chamar a atenção do mundo inteiro de que há um ódio latente absurdamente louco na humanidade que guerreia pelo poder, ou que é preciso reconquistar a paz através da busca de equilíbrio na vida de tantas criaturas que só desejam um prato de comida decente e uma cama limpa para dormir?

Talvez seja o momento em que o caldeirão ferva para que se evaporem razões e se reencontrem verdadeiras emoções.

Ainda somos índios, na essência. Ou somos os colonizadores sonhadores da conquista do oeste. Ou sejamos os sofridos negros escravizados nos adaptando à má sorte do transplante cultural alicersado pela ganância.

Ou seremos um bando imenso de soldados das Américas, como sonhou o Che Guevara, na sua inocência jovial, quando partiu de Buenos Aires, e de motocicleta, empreendeu a viagem pelos interiores da América Latina, construindo uma ideologia ou pressentindo um legado de lutas para essa gente mesclada que habita as três Américas. Somos ainda o trabalho braçal e incessante dos povos imigrantes que vieram fazer a América, oriundos dos quatro cantos do mundo, enriquecendo de costumes enquanto queriam ganhar dinheiro na terra dos sonhos, na corrida do ouro.

Há uma América fervendo, há três Américas tentando unir-se, no traçado mapeado ou na vida interligada. Acordos, blocos, negociações, tropas, expulsões de embaixadores, o poderio dos petrodólares, uma Venezuela auto suficiente, um Brasil em vias de grande produção do ouro negro, uma Bolívia espremida pela sede internacional, um Estados Unidos, ainda tão desunido, um Canadá sobressalente, um México sobrevivente, um Chile organizado socialmente, uma Cuba surpreendente, tantos exemplos de países a destacar e enumerar.

Entretanto, nada como sentir o calor que vem das chamas que fazem ferver a América, e torcer para que depois de tanto fogo, tanta queimada em florestas virgens, nos chegue, de algum lugar insólito, um possível pensamento lógico, de trocas culturais e comerciais, entre raças e idéias, permitindo vida feliz, ou , pelo menos, vida respeitosa e digna para nossos milhões de habitantes.

Deus salve a América, hino a ser recantado, lembro agora que o cantava quando adolescente, nas três línguas dominantes. Em inglês, espanhol e português. Aprendi no curso secundário. E me sentia tão bem soletrando, com esperança juvenil: Dios salve América, God bless America, Deus salve América!

Aparecida Torneros
Jornalista, Rio de Janeiro

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