
Sempre me veio ao coração um Portugal que me contaram, através da literatura, do noticiário, dos livros de história, dos relatos de amigos, dos ensinamentos do meu avôzinho Antonio,seus discursos e poemas, e, ainda, de um certo e inquieto sentimento recôndito, que , no fundo de mim, teimava confundir-me em brasilidade portuguesa ou em sentido luzitano de atravessar o tempo e o oceano.
Adiei, por inúmeros motivos e circunstâncias, minha primeira ida à Europa, e nela, incluí uma excursão, por terra,com duração de 8 dias, para conhecer muitas cidades portuguesas. Com a maestria da guia Raquel que nos acompanhou nesta etapa portuguesa, começamos em Porto,onde tive meu primeiro contato positivo com o país. Recebeu-me a Dina Ferreira, na sua livraria Poetria, e conheci também a centenária livraria Lello.
Dali, saímos em direção a Braga, Guimarães, Lamego, alcançamos Lisboa, passeamos por Fátima, Coimbra, Óbidos, e ainda visitamos Marvão, Nazaré, Batalha,vimos as terras do Minho e do Douro, apreciamos o Tejo e o mar, bem onde eles se encontram, tal qual amantes misturando sucos.
De lá, tenho inúmeras recordações, a cada lugarejo, um mixto de identificação e ancestralidade, a volta ao berço da lingua, a emoção de pisar solo abençoado pelos escritores famosos que me formaram o culto à verve em suas expressões comunicadoras.
Na capital, Lisboa, contei com o privilégio de ser ciceroneada pelo amigo João Videira, durante uma tarde que transcorreu inesquecível, quando ele me conduziu a um mini roteiro cultural, dando-me oportunidade de conhecer bares e restaurantes onde andaram Eça de Queirós, Fernando Pessoa, Bocage, entre outros.
Fiquei mais feliz do que "pinto no lixo", usando gíria popular brasileira, senti-me encantada, até, por compartilhar dos sonhos idos, que ainda pairam naqueles ares da cidade lisboeta, respirando a intelectualidade portuguesa, a mesma do legado que admiro e busco para me enternecer ou na poesia, ou na prosa, através dos anos. Estive ao pé da estátua de Luiz Vaz de Camões e ainda, no Convento dos Jerônimos, orei no seu túmulo, ofertando-lhe respeito, humildemente.
Privei da caminhada pelas ruas da antiga Lisboa, transfundindo em meu sangue um pouco da sua manha, do seu fado, da sua misteriosa competência para amar e ser amada, cidade feminina, cidade encantadora, atraente e namoradeira.
Ao tomar a ginja, licor precioso, brindei, sim, com satisfação àquele instante único da minha vida, quando percebi que já sentia saudades antecipadas dos momentos que estavam por vir. E fiz, certamente, uma das maiores descobertas da viagem, cuja revelação não tardaria a emergir, e eu a guardaria a sete chaves, até o dia em que me sentisse pronta para alardear.
Depois que voltei ao Brasil, há cerca de 20 dias, não me canso de repetir : Portugal é maravilhoso! E busquei fazer um balanço de tantos sítios que conheci, em mais dois países, Espanha e França, cada um deles, em diversas cidades também pude me envolver com culturas diferenciadas, artes e arquiteturas peculiares, comidas e tradições.
Fui guardando em mim uma resposta a uma pergunta interior e urgente. Se tivesse que optar por viver um tempo na Europa, qual daqueles pedaços de chão eu escolheria?
Minha origem espanhola por parte de avó paterna é bem forte, senti-me em casa, na Galicia, em Madri e em Barcelona, é bem verdade. Mas, um movimento acolhedor me tomou em lembranças e descobertas.
Portugal seria o escolhido,como meu ponto de apoio, próxima eu ficaria da amada Espanha e da França sedutora, onde mora o meu amor. Ali eu viveria bem, com júbilo de corpo e alma, e me identificaria com o dia-a-dia, com certeza, num toma-lá-dá-cá suficiente para escrever e produzir sob o seu céu, alguns poemas e livros, fazer ali uns bons e novos amigos, relacionar-me com vizinhos e companheiros de trabalho, talvez até misturar-me nas festas pelas aldeotas, banhar-me em praias de seus mares, dançar em folguedos das suas comemorações, participar de passeatas de protestos dos seus ideais, amargar a identidade das dores dos seus lamentos, enfeitar-me nas cores das suas alegrias, e até transcender-me nos rastros incólumes dos seus narradores.
Cida Torneros
RJ- 22 de junho de 2009
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