Maracanã

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sexta-feira, 27 de março de 2009

Perhaps Love - Tradução

Patrimônio afetivo...passagem para viver o amor...

O amor se aprende a amar, amando e sendo amado. Sua passagem nos é dada por pessoas que nos amam antes mesmo de nascermos, quando ainda somos projeto inconsciente nos seus pensamentos. Um dia, somos concebidos e o amor se concretiza em forma humana, através de um ser dependente de alimento e carinho, que vai crescer e aprender a viver. Mas é pelo amor que nos oferecem os pais, familiares, amigos, e tantas pessoas que cruzam nossos caminhos, que vamos incorporando o sentido mais profundo da humanidade que se doa e se oferece para buscar sermos felizes e fazermos felizes a alguém.
O amor se enriquece com suas dádivas e provas constantes do que é necessário sentir em termos de emoção e de razão, pela alegria de estarmos junto dos entes amados, e, mesmo distantes deles fisicamente, sua presença permanece em nossos corações, lembranças, nos faz honrar suas memórias, homenagear seus exemplos, suportar suas saudades, seguir em frente em seu louvor.
O amor se intensifica quando se torna livre e menos possessivo, nos deixando ir pelo próprio tempo e trilhando novas veredas que acabam por ser individuais e intransferíveis.
Quem ama sabe o quanto é sólido e intenso observar os passos de um ser amado, cuja estrada deva ser distanciada em determinado momento da vida, para que amadureça e cresça na auto-estima e na busca pessoal.
Assim é o amor dos pais por seus filhos, tão imenso que lhes lega um patrimônio afetivo, mas não se furta a lhes dar passagem para viverem suas próprias vidas, oferecendo-lhes a prontidão do ombro amigo, do colo renovado, do olhar benevolente, do conselho oportuno e da torcida feliz pelo seu futuro.
O mesmo amor que nos dão é o que vamos oferecer, renovado e crescente, num processo que interage eternamente em ecos de reverberação contínua.
Viver o amor é viver do amor e para o amor. Amar semelhantes, família, o planeta, a vida, os animais, as plantas, o sol, a lua, há muitos modos de amar instintivamente, e, se o amor se reimplanta pelo sêmen, perpetua as espécies, prolonga a vida, reitera seu poder de reinvenção de sentimentos e motivos para ser reaprendido, por cada ser que abre os olhos diante de um espetáculo misterioso, detentor de um segredo e uma só saída: o amor. Ele é a resposta, a única resposta, para qualquer dúvida ou guerra. Só amor é capaz de ultrapassar os limites da razão e dar sentido a tudo, desde o mundo microscópico até a imensidão infinita do universo...
Cida Torneros

eu e papai, no meu niver, em 2006, setembro

Marilyn Monroe canta...My heart belongs to my Dad!!!

Nancy Sinatra: isto é para meu pai!

Nat King Cole e sua filha Nathalie

Aznavour e sua filha Katia

Hoje homenageio meu pai: Ulysses da Silva ( unforgetable!)



hoje é seu aniversário, completaria 87 anos...

quinta-feira, 26 de março de 2009

Ulysses, meu amado pai!


Revisitando "Seu" Ulysses, afinal, é dia dele!


Bem, não é nada fácil, convenhamos, porque a morte, uma separação em vida, um desaparecimento estranho, um mistério insondável, uma tentativa de explicar o destino de nós todos, é , ao mesmo tempo, o instante de valorizar o patrimônio afetivo que a vida perpetua.
Assim é com cada herói ou heroína, na história do mundo e na memória pessoal de cada um. Um pai-herói, já disseram por aí, faz a diferença, na auto-estima de qualquer criança, que mesmo ao vira adulto, não esquecerá jamais os melhores momentos de aconchego ou ensinamento.
A lição que fica é mesmo a do amor incondicional, da dedicação em forma de energia positiva, que todo Pai emite para quem saiu do seu sêmen, quem se projetou do seu gen, quem se fez criatura e lhe imita incosncientemente gestos, ou lhe herdou cacoetes, gostos, teimosias, aptidões, sensibilidades, e até perplexidades...
Não fujo à regra. Sou a filha que revisita hoje o pai "ausente" que está mais presente do que eu podia esperar, ainda bem...Ele continua a me surpreender, fazer rir e emocionar, alternando com seu jeito carinhoso, não só o meu humor, mas a minha postura diante da vida, minha necessidade de me reprogramar, diariamente, para que eu seja feliz, aliás, foi o que sempre ouvi-o repetir, todo o tempo...
Fazia trocadilhos infames, me levava às gargalhadas, contava e recontava enredos de filmes e de livros que lera ou assistira há mais de 50 anos, e, quando eu estava ensimesmada, com meus problemas corriqueiros, ou de trabalho, ou de correria da loucura estressante que é o dia a dia, ele me rondava, como um beija-flor, me espreitava como um observante atencioso até que eu explodia em riso...
Aí, ele se mostrava realmente satisfeito...me fizera rir...
Apesar de, ultimamente, a saudade dele me levar, constantemente ao choro fácil, eu assumo que é difícil reencontrar aquele sorriso delicioso que ele me provocava, mas, em momentos mais calmos, consigo já, esboçar a alegria que vem dele, que ele me ensinou a ter, diante das pequenas coisas, dos infames trocadilhos, das canções galhofeiras, e das emoções que a música clássica lhe proporcionou.
Noutro dia, arrumando suas fitas cassetes, encontrei uma, que ele, provavelmente gravou pouco antes de partir, e , vi que o título da fita é Cidinha, como me chamava.
Curiosa, pus no aparelho de som, e um misto de sentidos me tomou dos pés à cabeça. E ouvi... tenho ouvido de vez em quando...
Ele selecionou assim:
lado A: Quiera mi quiera, Lili-ato I, Manon Lescau, atos I, II e IV, Tosca, Mme Butterfly, Soror Angelica
lado B: Soror Angelica ( final), Turandot ( Puccini), Bolero ( Ravel).
Certamente que "Seu"Ulysses não teve chance de me entregar, misturou nas suas fitas todas, mas ele sabia que um dia eu ia achar esse presente, um gesto de grande carinho seu, pois ele sabia que eu ia adorar ter uma seleção assim, para escutar durante minhas horas de escrita, como agora estou fazendo, compartilhando com tantos amigos e amigas, e , ainda por cima, revisitando o meu bom amigo, meu velho Pai, porque afinal, hoje é dia dele, e faz um ano, eu escrevi o texto aí embaixo, com a alegria de tê-lo tão próximo, como agora, nada mudou...
Cidinha

Sunday, August 13, 2006
“Seu” Ulysses, meu amado Pai! (artigo do livro A Mulher Necessária)

Ontem, fomos juntos à sapataria. Dei-lhe o braço, ele sentia-se trôpego, mas, no auge dos seus 84, ainda se gaba de ir ao centro da cidade sozinho, andar pelas ruas à procura dos melhores cds de música clássica que ele coleciona. Os lojistas já o conhecem pelas bandas da Av. Passos, onde ele compra o Mozart eterno, que costuma escutar, absorto, com os fones de ouvido que lhe ajudam muito depois da perda gradativa da audição. Se a gente chega no seu quarto de trabalho (chamemos assim) lá está ele. Pode ser hora do lazer, e aí vê-se o velho Ulysses, viajando no encantamento da música, ou assistindo a alguma partida de futebol na TV, ou quem sabe, rindo-se muito das palhaçadas de algum filme do Gordo e o Magro, seus preferidos.

Entretanto, como bem procurei definir, ali é lugar mesmo é de trabalho, e lá estão suas “trocentas” pastas históricas, os fichários bem cuidados, os escritos sobre contabilidades várias, as caixas de documentos arrumados impecavelmente e re-arrumados, temporariamente. Apega-se aos detalhes, muda a cor da caneta, “azul” para assuntos corriqueiros,“vermelho”, para os importantes, e lápis preto, com a borracha sempre à mão, quando o tema é provisório, o popular rascunho.

De repente, no meio das suas tarefas, me telefona: -Cidinha, onde está o comprovante do pagamento da conta de abril de 2004, da luz, da casa da rua Maxwell, a que está em obras?

- Pai, mas isso faz mais de 2 anos! E ele me responde que tem tudo arquivado, mas que está faltando exatamente essa, e não se intimida, me mandando procurar para que ele complete suas pastas de documentos.

Pode ser que esteja no quintal da casa de vila onde mora com minha mãe, com quem é casado há mais de 58 anos. Aí, ouve-se o barulho de martelos, serrotes, lixas deslizando na madeira, e, ao se chegar perto, o que se vê é um senhor magro, curvado sobre o trabalho de carpintaria, trajando, geralmente, avental e luvas, atento ao que faz, dedicado a criar uma nova mesinha, ou um banco esmerado, que só estará pronto depois de envernizado e testado seu nível, com a precisão de um artesão exigente.

Ontem, na sapataria, comprei seus presentes. Uma sandália moderna, rasteira, fácil de fechar, com velcron que possibilita o ajuste, uma vez que seus pés, agora tem inchado um pouco. Mas, também, ele gostou e ganhou de um lindo par de sapatos pretos, de amarrar, social, em estilo tradicional, que o lembra, seguramente, dos tempos em que se vestia de terno e gravata e ia para o escritório labutar, com elegância.

Levei-o de volta à casa, tentei segurar o pacote com as duas caixas de sapatos, e ele brincou: - É meu o presente, não é? Se você me deu mesmo, deixa que eu levo.

E levou, sim, todo feliz, pelas ruas do bairro, mão apoiando meu braço, falante sobre a vida, traçando planos para o resto do dia, perguntando-me se estou cuidando da minha saúde, cobrando-me ser feliz, como sempre.

Hoje, mais tarde, vou abraçá-lo, junto com meu irmão, filho e sobrinhos.

A família vai se reunir em torno do “Seu” Ulysses, que, com certeza, aproveitará para reclamar conosco sobre as taxas absurdas cobradas pelos bancos. Tema recorrente que o faz figura conhecida na mesa do gerente da sua conta bancária, quando confere cada centavo do seu extrato e descobre que a taxa de 3 ou 5 reais, foi cobrada indevidamente por duas vezes e reclama estorno imediato do que ele classifica de “roubalheira”.

Mas, no fim do ano, lá vai ele, cheio de caixinhas, geralmente de perfumes, presentear as meninas do banco, que o atendem com presteza e reverência por todo o ano.

Quanto a nós, seus filhos e netos, como não reverenciar uma criatura assim, tão especial, que até reclamando da vida, é capaz de mostrar um horizonte de felicidade, no sorriso que nos cobra.

É comum, que ele me ligue para o celular, eu , em plena atividade da loucura diária, e me diga assim: Minha boneca, liguei só para ouvir você rir, agora, já posso desligar!

Aparecida Torneros
Jornalista- RJ

( correspondência entre eu e minha prima Carminha)
Minha amada prima Carminha
aqui estou como uma menina chorona...ao ler o que vc me escreveu agora...

obrigada, de coração... sabe o quanto todos nos amamos tanto, em família, e teu pai, irmão do meu, é também uma pessoa alegre, de espírito forte, outro exemplo a ser seguido.

a saudade é imensa, mas o amor é maior... almocei com a minha mãe, depois me recolhi em casa, busquei conforto nas boas lembranças, nas músicas e nas orações.

não tive coragem de ir ao cemitério, e ao relembrar a história dos pastéis, elevei meu pensamento em gratidão por momentos tao maravilhosos que todos passamos e ainda vamos passar.

o casamento da sua filha Lu, em Salvador, foi um desses momentos felizes em que nos reunimos para celebrar a vida.

recebi as fotos hj que ela mandou e vibrei, mais uma vez com a felicidade dela que é como se fosse uma filha pra mim, né?

da mesma forma que o João Luis, o Fabinho, o Alexandre,a Simone e a doçura da Cristiane, e agora, adotei a Fabiane e o Saulo, mas já estou mesmo é sonhando com a carinha da Luiza que tá chegando, para nossa alegria, como prolongamento da família.

dê um beijo na tia Fernanda e na tia Celeste, e pra vc, meu carinho imenso, tá?

sua prima Cidinha



Um exemplo a ser seguido.
Date: Sun, 12 Aug 2007 21:33:19 -0300


Oi Minha prima! Acabei de ler sua mensagem. Impossível não me emocionar!! Imagino a sua saudade!!! Imagino a falta que você sente do seu pai, meu tio.Doces lembranças... lembranças da infancia tão presente! Parece que foi ontem! Meu Deus!! Passou muito rápido!! Tenho em minhas lembranças um tio alegre, brincalhão.E os pastéis?Ah, os pastéis... lembra? Sempre gostou de pastél , não é mesmo? Lembro-me bem que enquanto os pastéis eram fritos ele sempre dava um jeitinho de tirar um ou outro e saia rindo.Guardo sempre o semblante do tio Ulysses risonho, amigo, amável... doces lembranças da infancia .Doces lembranças que ficarão eternamente guardadas e lembradas todas as vezes que quizer citar como exemplo uma pessoa de caráter, honesta, de bem com a vida, um exemplo a ser seguido.Sim prima eu imagino a imensa saudade que você sente mas também imagino a alegria, o orgulho de ter tido como pai e amigo um ser humano tão especial , abençoado por Deus como o nosso querido e inesquecível ULYSSES. Deus a abençoe prima. Beijos da prima que te ama. Carminha

manhã de espetáculo e paz...


Manhã ... de espetáculo e paz...

Prepara-se o dia...
nalgum lugar a luz se posiciona
a partir do ângulo que se contorciona
sobre a Terra, de rotação em rotação,
a natureza festeja uma manhã a mais...
Os olhos animais se abrem...
em cada olhar de esperança, a vida se renova...
nos campos, nas plantações, nas estradas
há um reavivar apressado da produção,
ligam-se as máquinas agrícolas, todos sabem
que não é possível parar quando o dia recomeça...
O homem deixa o lar, nas cidades, vai em busca do pão,
a luta que se repete, em tempos de paz ou de guerra,
faz de cada manhã o tempo de reconstruir a vida...
Plantar o trigo, colher a fruta, tirar o leite do seio bendito,
acalmar a tensão pela descoberta da morte, a lida,
sim, ao trabalhar repetidamente, gira como o girassol,
nos prados amarelos, brilhantes, buscando a luminosidade...
A mulher faz do lar o seu reinado, tudo lhe condiciona,
há em cada filho que nasce uma certa religiosidade...
Nada é mais grave do que a manhã no céu da alma
quando o bem vem dizer no ouvido atento que o amor acalma...

...porque , a cada novo nascer do dia, alguém canta um verso ao sol,
algum louco grita bom-dia, sobre a ponte do rio que corre, a voz ao vento,
alguma dançarina ensaia os últimos passos da madrugada apaixonada,
que deixou saudades, enquanto alguma criança põe-se a correr,
para que todos se lembrem que o destino abençoa a mágica manhã,
esta que aproxima os povos, ainda que na fantasia, abraça o momento,
eterniza a emoção de ver o fogo do vulcão, a força do tufão, a tempestade,
que se amansou, o astro-rei, aí vem ele, nascendo por trás do monte...

... é possível vislumbrar seus raios alaranjados,
desde a janela de casa ou do avião,
é incrível observar sua densidade mutante e sua abrangência tão volúvel...

... é quando a manhã vem trazer a passageiro sentimento,
de um sol que ama por amar, sem fixar-se num ponto,
passando adiante, com sua luz caminhante...

... é por isso que o amor, como o sol, dorme e acorda, triunfante,
para que, nas madrugadas, se compreenda a brevidade do dia e da vida,
se desperte o espírito do tempo, na manhã que traz um espetáculo a mais...

... é então, nesse instante sol nascente, que cada ser vivente, amante,
se perdoa por ser tão inquieto, e se redime, por ter tanto desejo de paz...

C.Torneros
19 de agosto de 2006

Segurança ambiental, todos somos responsáveis


Segurança ambiental, já se pode chamar assim...
“todos somos responsáveis, ou por ignorância, ou omissão”
Aparecida Torneros

Nos últimos anos, envolvi-me, por caminhos profissionais, com a realidade que é a consciência ambiental, ou melhor, a falta dela, que campeia, ainda, infelizmente, por informações desencontradas, ou pela cultura viciada em termos de limitação geográfica, que separa estados e municípios, oficialmente, ainda longe de incorporar a verdade das regiões hidrográficas.

Sim, a lei federal número 9.433, que estabelece a Política Nacional de Recursos Hídricos, de 1997, é um dos melhores instrumentos, se for cumprido, para coibir erros que comprometam a segurança ambiental dos cidadãos, e ainda, é a base legal idealizada para prevenir acidentes do tipo que ocorreu, por duas vezes, no Rio Pomba, afetando os Estados de Minas Gerais e Rio de Janeiro.

A lei da Natureza, que é soberana, faz com que os corpos dágua corram em direção aos oceanos, por caminhos serpenteados, atravessando espaços ou os criando em curso avassalador, que há que ser respeitado, uma vez que o homem habita suas margens, constrói ali suas cidades.

Todo cidadão precisa ser alertado dos perigos de não respeitar as faixas marginais de proteção que são previstas no Código Florestal justamente para que no período de chuvas e cheias dos rios, não se repita o quadro triste das inundações e populações desabrigadas.

Entretanto, um componente de ordem superior, com a implantação das indústrias de mineração, hidrelétricas de grande porte, fábricas desativadas que legam resíduos ameaçadores, usinas nucleares, e tantos outros exemplos que a modernidade propicia, constantemente, ameaça a vida do homem comum, com seu passivo ambiental, imenso e irreversível, provocando a impotência aparente da sociedade civil que se depara com a pequenez humana diante da natureza aviltada.

Cabe aos gestores e legisladores tomarem para si a responsabilidade de alertar as populações sobre os riscos quando os loteamentos crescem irregularmente nas cidades e periferias. É questão de sensibilidade ou seria de cumprimento do seu papel de defensores da vida humana com qualidade? Não basta que estas populações sejam vistas como potenciais eleitores mas, sim, como seres crédulos nos homens que se posicionam no comando de ações e desenvolvimento de leis.

Só uma consciência ambiental sólida fará com que todos respeitem seus limites de atuação , sejam empresas, poder público e sociedade civil, para que as comunidades dos estados que ocupam as mesmas bacias hidrográficas revejam suas relações e, através dos comitês de bacia e planos de bacia, previstos na lei, possam agir, em caráter permanente de prevenção e cuidado.

Para que deixem de ser repetidos e corriqueiros fatos lastimáveis como os do rio Pomba, como o do rio dos Sinos , no Rio Grande do Sul, como a herança maldita da Ingá Mercantil , em Itaguaí, no Estado do Rio, como tantos outros casos semelhantes, permitindo que esses fantasmas possam ser gerenciados com o critério técnico- científico devido, muito menos do que com os interesses político- econômicos muitas vezes insensatos.

Muito se tem avançado nesta proposta, mas ainda há muito a fazer no
Brasil. É necessário difundir mais a lei e seus desdobramentos, sensibilizando todos na busca de um consenso para a segurança ambiental, já se pode chamar assim, uma vez que um desastre ambiental ou ecológico pode ser evitado, e todos somos responsáveis ou por ignorância, ou omissão, ou por opção de prioridades mal definidas.

Não podemos continuar insensíveis ao escolhemos cuidar ou dos nossos próprios municípios, ou estados, ou "umbigos" , sem pensar na participação imprescindível de todos na luta pelo precioso bem comum, este sim, um tesouro inalienável, da vida em sociedade.

Aparecida Torneros é jornalista, atualmente trabalha na EMOP ( Empresa de Obras Públicas do Estado do Rio de Janeiro), é ex-assessora de imprensa da SERLA, Superintendência de Rios e Lagoas do RJ

quarta-feira, 25 de março de 2009

Lisboa menina e moça...

Tim Maia - Primavera

Mariza - Primavera - Lisbon -live

Primavera em Portugal

Abril chegou com ares florais e pelas ruas era comum sentirmos o perfume misturado dos cravos e rosas ao passarmos sob os balcões a nos convidarem para alguma serenata em louvor aquelas raparigas sonhadoras debruçadas a observar os moços solteiros.

Meus pés me levavam ao encontro das pessoas amigas, nos cafés e nos teatros, tudo parecia ressurgir em energias de luz como se um encanto da primavera inundasse cada mulher ou homem em busca do seu motivo maior, talvez o grande amor ou o melhor dos sentimentos que deviam experimentar.

Lufadas de vento de pouco frio, sacudiram meus cabelos. Ajeitei-os com os dedos, pude escorrer por entre os fios, meu tato acostumado à seda e ao algodão, gostei de perceber a leveza das finas e embranquecidas madeixas, prova cabal da maturidade que me inundava o semblante. Revi meu tempo. Revi o tempo dos amigos e amigas. Foi-me dada a chance de reviver o sentido de um lugar antigo, apesar de novos olhares e novas expectativas.

O homem do meu carinho já me esperava numa das mesas na calçada da rua principal. Tinha no rosto o sorriso mais extasiante para me ofertar a alegria do encontro. Abracei-o com ternura. Sussurrei um elogio ao seu porte galante, senti-me presa ao seu mundo mágico. Nem cogitei em defender-me. Estava ali, de novo, para viver a primavera. Meu coração floriu. Ele me abraçou com firmeza. A emoção nos tomou conta, sabíamos que estava escrito.

A primavera seguiu seu curso. Brindamos naquela e nas muitas noites seguintes ao sentido da existência que nos é dado viver. Em maio, cantarolamos muitos fados nas madrugadas primaveris, estivemos unidos, trocamos afetos.

Nem quisemos pensar que a futura estação traria o veranico de calor e saudade. Saudades combinam com inverno...Saudades no verão, só as que provocadas pelas primaveras tão floridas como aquela em que nos dissemos tudo o que quisemos, sem floreios.

Tivemos uma primavera delicada, porém densa. Provamos da seiva da paixão ao passo que o amor, com famas de traidor, nos prendeu em rede de boa trama.

Depois, foi questão de nos adaptarmos ao adeus, transformá-lo em até breve, providenciar a volta, e , antes da próxima primavera, lá estava eu, novamente, enredada, nos braços dele, em Portugal.

Aparecida Torneros

Violão clássico solo PRELÚDIO Nº 5 DE VILLA LOBOS

Nos meus tempos de violonista...


Fui uma aprendiz de violão clássico. Estudei durante uns dois anos, entre os 16 e 17 anos, treinando diariamente a escala e indo às aulas no Conservatório Brasileiro de Música, duas vezes por semana. Ir pelas ruas, carregando o violão, me deixava com a sensação de ser uma futura violonist. Mas, fui traída pela minha baixa aptidão para o mister, e desisti um dia, provavelmente na certeza de que seguiria sendo grande apreciadora dos virtuoses, entre eles, um brasileiro chamado Darci Villaverde, que conheci numa travessia Rio-Niterói, na barca da cantareira.
Tivemos uma conversa de tocadores de violão, mostramos os calos nos dedos, ele devia ter uns quarenta anos, admirou-se do meu interesse pelo instrumento em versão erudita, numa época em que as bandas de rock e a bossa nova eram moda para a garotada. Nem soube explicar. Mas pude fazê-lo sentir que era só um pequeno sonho, pois por mais que treinasse nunca chegaria a tocar como ele. No fim da viagem, pediu meu endereço, e uns meses depois, revebi dele um cartão postal, de Berlim , tinha se apresentado na Alemanha Oriental, e se lembrou da garota magricela que aprendia a música de violão sofisticado. Nunca mais ouvi falar dele. Mas consegui um disco, muito anterior ao advento do cd-player, com interpretações dele, magníficas e até hoje recordo seu rosto simpático naquela tarde em que o acaso nos fez sentar um ao lado do outro e conversarmos, descobrindo a afinidade momentânea dos dedos calosos pelas cordas de metal, desfiadoras a produzir sustenidos e bemóis que me deixavam doida ao ler as partituras. Mistérios da vida, coisas que vamos juntando no armário das lembranças, pequeninas alegrias proporcionadas pelos deuses conspiradores.
Agora, remexendo gavetas atulhadas de velhos retratos, encontrei um, já comido pelos fungos, que me atrevo a escanear para observar meus sentimentos tão antigos. Ali, na saleta da casa da minha adolescência, está um móvel que continha a televisão, a vitrola, o rádio e o lugar dos long-players. Eu, vestida de azul, sapatos de verniz preto, me posiciono para uma pequena apresentação familiar, na festinha dos meus 17 anos. Há no meu entorno uma aura de promessa e futuro, uma alegria dividida entre inúmeros projetos para os próximos anos. Passada muitas décadas, ainda guardo o velho violão, comigo, presente do meu pai querido. Mas, as canções que um dia cheguei a tocar, em sua maioria, me escaparam da memória, e meus dedos, deixaram os calos para trás, embora a emoção ainda me pegue ouvindo, internamente, o som da minha juventude esperançosa e sonhadora. Bom rever essa foto e me reconhecer feliz, apesar dos tempos difíceis que enfrentávamos, já que a mocidade me brindava com sua inquietação e desafiante corrida ao novo. Hoje, o novo virou passado, e, a menina-moça que a fotografia deixa entrever, já não é tão moça, mas conserva o coração menino que se encanta com a música para sempre...
Aparecida Torneros

Carlos do Carmo - Por morrer uma andorinha

Laura Pausini - Strani Amori

terça-feira, 24 de março de 2009