aqui tem música, poesia, reflexões, homenagens, lembranças, imagens, saudades, paixões, palavras,muitas palavras, e entre elas, tem cada um de vocês, junto comigo... Cida Torneros
Maracanã
sexta-feira, 22 de janeiro de 2010
quinta-feira, 21 de janeiro de 2010
A lógica do acaso ( conto)
"busco simplesmente viver aceitando o acaso como o grande formador de toda historia"
A lógica do acaso
Deve ter sido mesmo por acaso que Manoelita percebeu certo sentido de enveredar pelo corpo dele, como um bólido de amor, um fogo fátuo, um cometa gasoso, buscando o beijo e o cheiro.
Casualmente, ele chegou voando na vida dela. Vinha de um tempo longínquo, um extra-terrestre, talvez, ela refletiu, seria um espírito brincalhão tomando formas de parceiro disponível?
Fato é que se encontraram. Se perderam...Tornaram a se ver. Aí, um carinho especial aconteceu entre eles. Havia certa cumplicidade a dizer:- não me prenda, mas também não me solte... coisa esquisita, passível de confundir qualquer cabeça pensante...mas, ela e ele souberam logo que tudo era um acaso, e não deviam complicar nada...
De repente, um olhar para o alto, lá estava Manoelita, na sacada antiga, como uma donzela de filme romântico, a acenar para ele, que seguia ... adentrando num carro, dando até logo...
Voltaria? Ela não soube responder... Afinal, deixariam com o acaso..teriam ou não um caso? Por via das dúvidas, ela buscou qualquer coisa pra fazer, pegou a agulha de crochê, teceu pontos de trancinha... danou a fazer laços desenhando arabescos, desenhando flores onde antes só havia linha.
Mãos ágeis, pensamento solto, ela foi se acalmando. Por acaso, nas ruas, milhares de pessoas caminhavam se cruzando sem nunca se terem visto de verdade. Achá-lo, já tinha sido um grande acaso... Perdê-lo, entretanto, concluiu, dando um nó na renda que crescia em suas mãos, seria, agora, um grande azar...
Voltou-se para si mesma, não ia complicar as coisas, afinal, não eram nada um do outro...parecia que fugiam mesmo do que se podia chamar de laços fortes... Pegou de novo o artesanato.....Puxou a linha verde como a esperança das florestas...Desmanchou ...Precisava tecer com menos aperto... Pontos largos, respirantes, soltos...
Duas teimosas lágrimas insistiram em brotar no canto dos olhos maduros... Queria mesmo que ele, qualquer hora dessas, voltasse aos seus beijos e abraços... Aí, chorou copiosamente, mas não de tristeza...era emoção pura...
Ele estava tão dentro dela ainda...a voz dele era tão evidente nos seus ouvidos... ecoava, reverberando a ternura com que a presenteara horas antes... Já não importava muito se voltasse... agora...o que contava, no fundo, era o mistério do acaso no mundo...
Ela se deixou adormecer no sofá onde ele a beijara tanto.
Dormiu profundamente. Entregou os pontos...Aceitou a lógica do acaso...Por acaso, sonhou com ele...
Aparecida Torneros
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A lógica do acaso
Deve ter sido mesmo por acaso que Manoelita percebeu certo sentido de enveredar pelo corpo dele, como um bólido de amor, um fogo fátuo, um cometa gasoso, buscando o beijo e o cheiro.
Casualmente, ele chegou voando na vida dela. Vinha de um tempo longínquo, um extra-terrestre, talvez, ela refletiu, seria um espírito brincalhão tomando formas de parceiro disponível?
Fato é que se encontraram. Se perderam...Tornaram a se ver. Aí, um carinho especial aconteceu entre eles. Havia certa cumplicidade a dizer:- não me prenda, mas também não me solte... coisa esquisita, passível de confundir qualquer cabeça pensante...mas, ela e ele souberam logo que tudo era um acaso, e não deviam complicar nada...
De repente, um olhar para o alto, lá estava Manoelita, na sacada antiga, como uma donzela de filme romântico, a acenar para ele, que seguia ... adentrando num carro, dando até logo...
Voltaria? Ela não soube responder... Afinal, deixariam com o acaso..teriam ou não um caso? Por via das dúvidas, ela buscou qualquer coisa pra fazer, pegou a agulha de crochê, teceu pontos de trancinha... danou a fazer laços desenhando arabescos, desenhando flores onde antes só havia linha.
Mãos ágeis, pensamento solto, ela foi se acalmando. Por acaso, nas ruas, milhares de pessoas caminhavam se cruzando sem nunca se terem visto de verdade. Achá-lo, já tinha sido um grande acaso... Perdê-lo, entretanto, concluiu, dando um nó na renda que crescia em suas mãos, seria, agora, um grande azar...
Voltou-se para si mesma, não ia complicar as coisas, afinal, não eram nada um do outro...parecia que fugiam mesmo do que se podia chamar de laços fortes... Pegou de novo o artesanato.....Puxou a linha verde como a esperança das florestas...Desmanchou ...Precisava tecer com menos aperto... Pontos largos, respirantes, soltos...
Duas teimosas lágrimas insistiram em brotar no canto dos olhos maduros... Queria mesmo que ele, qualquer hora dessas, voltasse aos seus beijos e abraços... Aí, chorou copiosamente, mas não de tristeza...era emoção pura...
Ele estava tão dentro dela ainda...a voz dele era tão evidente nos seus ouvidos... ecoava, reverberando a ternura com que a presenteara horas antes... Já não importava muito se voltasse... agora...o que contava, no fundo, era o mistério do acaso no mundo...
Ela se deixou adormecer no sofá onde ele a beijara tanto.
Dormiu profundamente. Entregou os pontos...Aceitou a lógica do acaso...Por acaso, sonhou com ele...
Aparecida Torneros
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quarta-feira, 20 de janeiro de 2010
Tia Geni, visita de aniversário!
O feriado de 20 de janeiro amanheceu propício, com o sol de rachar iluminando a vida. Tia Geni completava 82 anos, eu não a vida há muito tempo, a saudade era grande e a sensação de que lhe devia uma visita também. Combinei com a Tia Maria, as primas Magda e Carmen Lúcia, que é pessoa que vive mais próxima da casa de repouso onde nossa querida Geni está, e lá fomos nós, visitá-la, de surpresa.
Emocionada, ela nos recebeu e reconheceu logo, na tarde em que descansava, junto das outras velhinhas suas companheiras, imaginando que este seria mais uma aniversário em que pensaria nos sobrinhos distantes, aqueles a quem ela tanto ofereceu em carinhos e mimos, na nossa infância e juventude, ela que sempre foi uma tia dedicada, quituteira, alegre, que nos dava presentinhos tão bem embalados, que me ensinou a valorizar os lenços de pescoço, que me mostrava as delícias de uma cozinha com pratos absurdamente bem servidos e bonitos.
Pois Tia Geni nos recebeu com alegria, matamos a saudade, dividimos histórias antigas, e por uma hora e meia o tempo parou e voltou muitas décadas atrás, ela nos olhava de pertinho,abraçando, beijando, se queixando da vidinha repetida que leva ali, sob a atenção das freirinhas atenciosas. Nosso primo Wilson e esposa costumam visitá-la com frequencia e a levaram para casa deles onde ela passou o Natal, e pôde comer rabanadas dietéticas, já que sua diabetes não permite abusar do açúcar e das gorduras.
Lúcida, perguntando por todos da família, Tia Geni tinha os olhinhos brilhantes e o semblante agradecido, mas, no fundo, nosso coração ficou pequeno por constatar as voltas que a vida deu, e ela, que nunca teve filhos, conta agora com a atenção de sobrinhos e do pessoal cuidador especializado da casa Paz e Bem em Berford Roxo, no Estado do Rio. Um lugar bem organizado, muito limpo, com lindos jardins e onde se respira a paz que os nossos anciãos merecem gozar. Muitas velhinhas e alguns velhinhos vieram nos cumprimentar, sorriam, eram afáveis, ficaram contentes por ela, que era homenageada pela família com presentinhos e abraços apertados.
Nas minhas lembranças, ai, meu Deus, o gosto das suas comidas gostosas, seus doces, suas especialidades naqueles almoços ou jantares de toda a família reunida nos anos 60, 70 e 80, ao redor de mesas enormes armadas no quintal da casa da avó Carmen, o tumulto da mulherada falante, a algazarra da criançada inquieta, o sorriso de satisfação dos homens que saboreavam seus pratos, os elogios ao seus temperos, a constatação do cansaço de suas pernas depois de horas a fio em pé na cozinha preparando tantas iguarias, e aquela alegria irmanada de um bando de criaturas que se amavam tanto, sem mesmo dimensionar o quanto aqueles tempos eram tão felizes para nós todos.
Hoje, com a saudade de muitos que já partiram, ainda podemos nos juntar em memórias e termos a chance de comemorar sem quitudes mas com sorrisos fartos, mais um aniversário da nossa querida e carinhosa Tia Geni, a quem agradecemos tudo e por quem rezamos todos os dias para que tenha saúde e paz no seu coração onde todos sabemos que temos um lugarzinho especial.
Cida Torneros
terça-feira, 19 de janeiro de 2010
UM TUAREG
um tuareg bateu na minha porta no deserto da noite negra
falando língua estranha para mim, um berbere, abandonado pelos deuses,
livre como os ventos, trouxe do sul da Libia, o gosto agri-doce das tâmaras secas...
sua linhagem materna prvalece sob o véu azul índigo que o caracteríza,
explicou-me que o Tagelmust é usado mesmo entre os familiares.
revelou-me que o protege dos maus espíritos,
mas tem a função prática de proteger contra a inclemência do sol do deserto
das rajadas de areia durante suas viagens em caravana.
seu turbante cobre também, muitas vezes, todo o rosto, exceto os olhos.
tirou da sacola a ervas para me oferecer chá de menta.
ensinou-me a saudar sua casta
descende da tradicional rainha guerreira Tin-Hinan e seu companheiro Takama.
a casta nobre, Imajeren, é de guerreiros, como ele.
mostrou-me a espada Takoba, com seu formato semelhante às espadas medievais das cruzadas.
nômade, ele me olhou com atenção e certa calma.
um tuareg veio em busca do repouso para o guerreiro envolto em constantes conflitos.
vi suas vidas passadas, algumas tão incrivelmente fascinantes, pude reconhecer seu sangue cigano,
misturado ao encantamento da vida, que ele me fez rever e sentir outravez...
repeti o lema do povo cigano: " O Céu é meu teto; a Terra é minha pátria e a Liberdade é minha religião",
sussurrei no seu ouvido, levei-o diante de Santa Sara
ali, sem que ele percebesse, fiz a prece de que precisava...
um tuareg, que ao mesmo tempo é cigano, bateu na minha porta, alimentou-se da minha energia,
aconchegou-se no meu teto, provou do meu sabor feminino, conquistou minha confiança...
um tuareg viajou em busca do recomeço e o encontrou, na paz da manhã de sol, junto do meu peito...
mas ele voltará a guerrear porque é seu destino, sei disso, vou encorajá-lo, é um vencedor...
um tuareg surpreendeu minha alma com o olhar mais profundo que alguém já terá me oferecido,
e, na melhor parte dessa história, eu o vi transformar-se em principe das marés e quando venceu as ondas,
pude observar sua linda dança em torno dos oceanos, e pude sentir a profundidade da sua oração da noite.
um cigano me acordou na madrugada do tempo, fez-me ver que há muitas vidas em cada conjunto de luzes,
apontou-me como alento, o amor, e me fez adormecer protegida por seu abraço generoso,
pude então sonhar com o tuareg que me surgira na soleira da porta de entrada da casa da minha infância...
saudei o tuareg, reverenciei o cigano, abracei o homem, perdi-me em seus carinhos, aquietei no seu domínio,
saudei silenciosamente suas viagens e a cada uma delas, rezo pela alegria da sua volta ao meu convívio...
Cida Torneros
Dois pra lá dois pra cá, falso brilhante...28 anos sem a fascinação de Elis Regina
Os anos 70 me revisitaram, repentinamente, quando li, no Blog Bahia em Pauta, sobre os 28 anos sem a voz ao vivo, de Elis Regina, aquela pimentinha pequenina de arte possante, interpretações magistrais, aquela figurinha risonha e ao mesmo tempo intempestiva, braba e desafiadora, a mesma Elis que nos deixou atrás de uma porta que se fechou pra sempre, sob a viagem de uma droga traiçoeira, que nos roubou de cena criatura tão talentosa, mulher brasileira sintonizada com seu tempo, a Elis que nos ensinou a cantarolar sobre o falso brilhante.
Fomos meninas de "falsos brilhantes" nos dedos, sim, imitação da vida, sonhos hollywoodianos de amores felizes para sempre, atropelando-se na crueza de uma ditadura militar plena de injustiças e freios, escapando-se pelo viés dos festivais da canção, a ponte do respiradouro que as composições musicais representaram diante da repressão, e aquela voz de veludo que se transformava em grito de protesto, o grito dos acorrentados, a nossa Elis nos apontando os neguinhos da estrada, os passos da dança em ritmo de dois pra lá e dois pra cá, o canto dos desesperados por amor verdadeiro, a mesma voz que nos falou como nenhuma outra das águas de março, e nos pôs à prova, com o bêbado e o equilibrista.
Porta-voz de um período de constentação e proclamação dos direitos de ser livre e viver essa liberdade à frente do seu próprio tempo, lá se foi Elis para o trono dos deuses, em dia em que nos doemos nas entranhas, nos sentimos perdidos, e a tarde que caiu sobre nós, se fez noite, nos tornamos bêbados trajando luto, sofrendo não só a sua perda, mas sobretudo, o quanto dali por diante seria a vida sem ela presente.
Dela, ainda bem, ficaram as canções, as gravações, os filmes agora em dvd, e os filhos, por obra e graça, todos ligados à música, e bem talentosos, honrando seu dna e sua memória.
Elis é magestade, ela me deixou mesmo louca e ainda me deixa, quando me ponho a re-ouvir, na sua versão inconfundível, o clássico Fascinação, e é esta interpretação, de 1978, que me traz de volta a menina que fui , como ela, com aqueles cabelos cortados ao estilo Jane Fonda, protestando contra a guerra do Vietnam, sonhando os sonhos mais lindos, na transversal do tempo, emocionada e gravemente atenta a cada nota que sua garganta emite, no milagre da tecnologia que me permite sentir novamente o quanto Elis me fascina ainda, e certamente, o faz com todos os que tem a chance de se deixarem seduzir pelo seu brilho verdadeiro.
De falso, só o brilhante do dedo da menina que dançou nos bailes de formatura, quando era bom imaginar que um dia, quem sabe, ela nos mandaria um recado do tipo :"alô alô, terráqueo, aqui quem fala é Elis Regina, estou morando em Marte, pra varia vocês estão em guerra?"
Pois é, Elizinha, o ser humano tá cada vez mais down no high society, e você tá cada vez mais fascinante no céu das estrelas cujo brilho não se apagará nunca, sabia?
Cida Torneros
segunda-feira, 18 de janeiro de 2010
Leonardo Favio
Leonardo Favio.
Onze entre dez diretores argentinos confirmam que ele é uma das grandes personalidades do cinema do país vizinho. Favio foi descoberto por Torre-Nilsson, outro nome fundamental do cinema do Prata, com quem fez El Secuestrador, Fin de Fiesta e La Mano en la Trampa. Em 1964, ele fez seu primeiro longa, Crónica de Un Niño Solo, a que tive o privilégio de assistir em Buenos Aires. Depois vieram Este es el Romance del Aniceto y la Francisca e Juan Moreira.
Todos esses filmes fazem parte da minha memória, mas gostaria muito de revê-los. Mais para o fim dos anos 60, Favio iniciou outra carreira, de cantor e compositor. Foi sempre paradigma de um cinema argentino combativo e politizado. Líder peronista, teve um hiato de quase 20 anos na carreira como diretor.
Fez seu monumental documentário sobre Perón, Sinfonia del Sentimiento, que tem, umas seis horas, mas só o título me deixa nos cascos. Leonardo Favio será tudo aquilo que está escrito na nossa memória e na de tantos artistas argentinos que fomos conhecendo depois? Será? Vale tentar rever alguns de seus filmes, pelo menos. Leonardo Favio representa, sempre representou, a resistência do cinema latino ao colonialismo cultural.
( extraído de um texto de Luiz Carlos Merten)
Ela me esqueceu...
Ela me esqueceu...
ele sussurrou, no meio da noite, no meio da neve, no meio do frio...
a alma gelada, a lembrança dela lhe entrando a pele, a saudade dela...
Ela me esqueceu...
ele sentiu, no meio da cama, no meio da solidão, no meio do peito...
o vazio da falta dela, na vida, na voz tão distante, no cheiro perdido, na foto na tela...
Ela me esqueceu...
ele chorou, no meio da vida, no meio do tempo, no meio da dor perdida...
a sensação indefinida da necessidade dela, de tê-la mais uma vez ao seu lado, a bela...
Ela me esqueceu...
ele cantou baixinho, no meio da madrugada, no meio da solidão, no meio da recordação...
o mundo girando na sua cabeça, suas mãos sem poderem tocar as dela, separar-se dela...
domingo, 17 de janeiro de 2010
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