Maracanã

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domingo, 27 de setembro de 2009

Marie e a carta do front ( alusão à musica de Jonhy Holiday)




Aquela carta em forma de canção que Marie recebeu do soldado amado era um libelo.
Seu coração pulou ao mesmo tempo em que sua alma chorou. Nem eram os olhos que demonstravam as dores, nem as lágrimas que vertessem seriam suficientes para mostrar o quanto a apreensão e a saudade a torturavam. Mas a ele, também, era dado o sacrifício, envolto no terror, de estar ali, no front de uma sucessão de batalhas, como um soldado cumpridor de ordens.


Seus sentimentos, de Marie e do seu guerreiro distante, eram tão profundos e bem mais confusos do que se poderia imaginar. A instabilidade de emoções os inundava. Amor , esperança, lamento e até ódio se alternavam em dias e noites de sonhos com um amanhã que viria, mas que era uma incógnita constante.


Marie apertou a carta contra o peito. Sentiu seu cheiro de sangue derramado pelos compatriotas, pelos companheiros do seu amor, e sentiu, sobretudo, a dor do seu amado imerso em questionamentos infelizes.


Na mesma noite em que ela se confortava com as palavras que lhe alcançavam os olhos, vindas de alguém que precisava da lembrança dela para manter-se vivo, ela também percebeu que a guerra estava dentro de si própria, era seu único reduto e morada.


Marie morava na guerra. Porque o amor é a própria luta pela esperança de cada reencontro, seja ontem, hoje ou amanhã, cada amante enfrenta em si mesmo o combate entre a razão e a emoção, buscando o aconchego de uma paz prazerosa, ainda que isso lhe custe quase a vida inteira.
Cida Torneros

Os três prefaciadores do livro A mulher necessária, de Aparecida Torneros: Zé Dirceu, Vitor Hugo e Theo Drummond


O livro " Mulher necessária" ,da jornalista Aparecida Torneros, conta com três prefácios, um para cada parte em que se divide sua sequência de textos.


Na primeira parte, crônicas espalhadas por sites, blogs, e publicadas por amigos, a introdução é feita pelo publicitário e poeta, Theo de Castro Drummond, que apesar dos seus oitenta e poucos anos, produz como nunca, nos encantando com seus livros de poesias e contos. A autora e ele se conheceram nos anos 80, trabalhando juntos, tornaram-se grandes amigos e costumam trocar versos precedidos de um código:
"acabo de cometer mais esse poema"...


O segundo segmento do livro é composto só de artigos publicados no jornal A Tarde, da Bahia, e conta um belíssimo prefácio do jornalista Vitor Hugo Soares, que à época da colaboração da jornalista-autora, era o editor de opinião daquele jornal. Vitor descreve a troca de correspondência entre Aparecida e ele e se reporta ao tema do livro e do filme "Nunca te vi, sempre te amei", sensação que o invadiu quando leu pela primeira vez um texto dela, e que durante alguns anos, os manteve interligados, semanalmente, enquanto ela enviava artigos para a página três do periódico baiano. Houve um dia em que se encontraram, em Salvador, em 2007, para selar a amizade que se consolidou com a colaboração-homenagem nas páginas da Mulhera necessária.


Na terceira parte do livro, quem enviou o prefácio que antecede artigos publicados no site do Observatório da Imprensa, é o advogado e político José Dirceu, que se tornou amigo da escritora, nos últimos anos, e sobre quem ela produz uma biografia não autorizada, que ele chama de biografia "pirata", a partir de um intenso intercâmbio de informações que Cida ( como ele a chama) e Zé Dirceu vem mantendo diariamente, há mais de 4 anos.


Aí estão os três prefácios!

São, no fundo, a expressão de amizade, companheirismo e sintonia literária que a autora diz se orgulhar de partilhar com os três prefaciadores do seu livro:

Lucidez de jornalista com romantismo de poeta
Théo Drummond




O mestre de todos nós, Gilberto Freyre, que não era implacável e, muito menos, condescendente, foi o maior prefaciador brasileiro. Antes de morrer, além de nos deixar sua obra magnífica, ele ainda publicou dois volumes apenas com prefácios de uma vida inteira.


Isso explica porque fui tomado. de repente, de uma angústia inesperada, ao ler os originais do livro "A Mulher Necessária", textos da jornalista Aparecida Torneros e, ao mesmo tempo, receber o honroso convite pra redigir um prefácio da obra. Como tenho, há anos, um amor de amizade pela autora, não poderia eu me esquivar de dizer a
verdade neste texto.


Acredito que nós, ela e eu, pensamos como Santo Agostinho, quando, em situação semelhante, nos disse que devemos preferir os que nos criticam, porque nos corrigem, aos que nos adulam, porque nos corrompem.


Suas crônicas e artigos mostram como Aparecida Torneros encara a avalia os fatos com absoluta lucidez dos que sabem acompanhar, sob todos os ângulos e aspectos, os acontecimentos muitas vezes contraditórios da vida que hoje vivemos. Sua condição de jornalista, entre tantas outras atividades que exerce, com eficiência e dedicação,
certamente lhe dá suporte para que possa, em suas crônicas e artigos, ser objetiva nas análises e muitas vezes romântica como mulher e poeta.


Mais ainda: ela consegue ver o que está além daquilo que os acontecimentos deixam perceber, o que faz das suas crônicas e artigos uma constante descoberta da própria vida, que ela tão bem retrata neste seu "A Mulher Necessária".


Sempre acreditei que escrever bem ou é facil ou impossível. Para quem tem o talento de Aparecida Torneros foi facíllimo escrever este livro.


Théo Drummond
Jornalista, escritor, publicitário e poeta, 81 anos
Diretor-presidente da Agência 3

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Descobrimentos de Cida
Vitor Hugo Soares


Uma mensagem em minha caixa de correspondência eletrônica, aberta no computador da redação do jornal A TARDE, em Salvador, permitiu o primeiro contato com Aparecida Torneros. Já possuía referências da autora, através das minhas leituras da revista O Cruzeiro e arraigada paixão pela Espanha, que também alimenta textos candentes da jornalista carioca. Cida comentava um artigo meu publicado no Blog do Noblat, lá por volta de 2006, cujo assunto não lembro agora. Mas, não esqueço a sensação do profissional compulsivo diante daquela correspondência - uma das mais interessantes, generosas e bem escritas que já havia recebido em larga trajetória.


Então eu editava a página de Opinião do jornal de maior circulação do Nordeste, em fase de reformulação. Não hesitei: digitei um e-mail em resposta, no qual convidava a autora da mensagem a mandar do Rio de Janeiro uma colaboração semanal para o diário baiano, com temática aberta, opinativa e sempre vinculada a fatos do cotidiano brasileiro e internacional.


Leitor compulsivo e doente incurável pelo cinema, acrescentei uma confissão ao convite. Disse a Aparecida que, em sua mensagem, ela se assemelhava a personagem da minha devoção literária e cinematográfica: Helene Hanff, a jovem escritora desconhecida que um dia, em outubro de 1949, envia desde Nova Iorque uma carta a "Marks & Co.", a livraria situada no nº 84 da Charing Croos Road, em Londres. Apaixonada pelo conhecimento, maníaca por livros, extravagante, e às vezes sem um tostão, a senhorita Hamff reclama do livreiro londrino Frank Doel que descubra na Inglaterra volumes raros de edições praticamente impossíveis de encontrar, para apaziguar a sua sede de descobrimentos.


A história fascinante de 20 anos de correspondência entre Helene e Frank, com final pungente, está no livro "84, Charing Cross Road", que décadas depois se transformaria no fascinante cult cinematográfico com Anne Bancroft, de sugestivo título nos cinemas brasileiros: "Nunca te vi, sempre te amei". Obra sedutora, que nos põe em sintonia com a humanidade... "nos proporciona um bálsamo para o espírito, e uma proteção contra as crispações da vida contemporânea", como sintetizou o "The New York Times", ao comentar a obra.


Arroubos à parte, o fato é que os anos seguintes revelariam a extrema felicidade e acerto do convite. Os artigos com a assinatura de Aparecida Torneros, publicados semanalmente com zelo e merecido destaque em página nobre do jornal baiano, ganhou legião de leitores prazerosos, atentos, participativos. Textos como "As pontes de Brasília", "Marina, guerreira premiada", "Banquetes e migalhas", "Os sem namorado", entre dezenas de outros, enchiam a caixa eletrônica da editoria de Opinião de vibrantes comentários e elogios. Alguns, no entanto, renderiam à autora, raivosas e ameaçadoras mensagens de vigias do preconceito e da intolerância de plantão.
Jamais a indiferença, pois isso é praticamente impossível diante de um texto de Aparecida Torneros, como se comprovará mais uma vez, cabalmente, com a leitura de "A mulher necessária".


Vitor Hugo Soares
jornalista, articulista do Blog do Noblat e jornal Tribuna da Bahia, foi chefe de redação e das sucursais do Jornal do Brasil e da Veja em Salvador e editor no jornal A TARDE.


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Cida conta e canta nossa gente, nossa vida !
José Dirceu


Conheci a Cida, a Maria Aparecida Torneros, na vida,na luta,enfrentando o processo de cassação e depois a campanha para desconstituir minha historia e minha vida.


Recebi dela, de graça,como se diz, afeto,apoio e solidariedade, coisas raras nos dias de hoje,no mundo em que vivemos,mas foi assim que entrei na vida da Cida e ela na minha.


Conheci a mulher, a profissional, a guerreira, a jornalista, a escritora, a sonhadora, a sofredora, uma mistura de muitas Marias que vivem e lutam em nosso Brasil.Por ela conheci e aprendi mais sobre a vida e nosso povo,sim de nossa cultura e historia,já que Cida é uma contadora de historias e retratista do nosso dia a dia,vive com paixão tudo o que nos acontece e chora,ri,sofre,festeja, nossas vitorias e derrotas,nossas ilusões e desilusões.


Jornalista e escritora, tem peleado para que eu autorize que escreva uma biografia sobre minha vida e caminha para fazê-lo não autorizada,numa cumplicidade que foi se consolidando via internet,via blogs,via vida,fatos e atos que vão nos unindo e nos aproximando.


O livro que publica, “A Mulher necessária”,retrata um pouco dessa historia,sem importância,entre dois brasileiros que se encontraram, Cida e Ze Dirceu,mas retrata mais, conta e canta nossa gente e nossa vida,da vida da Cida. Como ela diz,dos 38 anos de profissão e encontros,desencontros, de suas raízes espanholas, de seu Rio de Janeiro, de sua profissão, de ser mulher,mãe e companheira,dos amores perdidos e não achados,dos nossos heróis e vilões, da imensa vontade de viver de Cida e de sua inesgotável paixão pelo nosso povo e pelo Brasil,de seu amor pela vida, tudo que nos une e nos anima a lutar todos os dias, a ser felizes.


Ler seu livro é fazer parte dessa historia, e refazê-la para continuar a lutar, que seja o primeiro de muitos,descontando a biografia “pirata” que não vale a pena escrever,já que ainda estamos bem vivos e juntos na mesma caminhada.


José Dirceu


advogado, articulista, líder estudantil da geração 68, ex-ministro chefe da Casa Civil da Presidência da República.


Sugestão de filminho light!

Orchestra seats ( um lugar na platéia)


Digamos que Paris é um sonho e a jovem Jéssica, o próprio raio de sol que move a história que se passa na cidade-luz, em torno de personagens emocionalmente enredados pelos tempos atuais...quando somos bombardeados por questionamentos interiores...o pianista quer parar com a febre de concertos em busca de fama e dinheiro...o homem colecionador de artes promove um grande leilão para finalizar sua vida já que está muito doente e quer aproveitar cada minuto do tempo que lhe resta... o filho dele busca a realização amorosa, padece de dores emocionais, encontra na jovem Jessica o clarão de alegria para construir nova vida... a atriz insegura e famosa consegue finalmente o papel de Simone de Bouvair num filme com diretor importante... Paris se movimenta com seus encantos enquanto suas histórias são cotidianas e esperançosas.

O amor é a imagem da cidade e das pessoas que fazem parte do seu ir e vir em busca de felicidade.
Um filme que vale a pena, que é leve, que é sensato, que tem magia que aquieta e beleza de fotografia que permite a contemplação recompensada..
Digamos que é um filme do bem, como poucos... e ajuda a reacreditar em valores positivos... Esta é a sua melhor contribuição... O charme do "Vai dar tudo certo". Era desse filme mesmo que estava precisando ...hoje.....e o meu lugar na platéia foi uma dádiva para que me sentisse plena de bons augúrios...Afinal, em Paris, o amor e seus bons fluidos são o alento que justifica viver... mais e mais...
Cida Torneros

poeminhas antigos...


Um dia, ela amou daquele jeito infinito,
o mundo parecia caber no seu sorriso,
os olhares eram como ímãs, dela e dele,
as mãos se buscavam dia e noite,
havia beijos de bom-dia e boa tarde,
trocavam beijos de "dorme comigo",
por muito tempo, entre os dois, era preciso,
que um se juntasse ao abraço do outro,
para que a vida tivesse sentido, cantasse,
havia música no caminho das manhãs,
ela se sentia tão amada, era uma princesa...

Um dia, ela descobriu o fim do infinito amor,
nem compreendeu logo tamanha armadilha
a vida lhe traíra, pensou, a magia evaporou-se,
e o que ficaria além..muito além, como sentira?

Um dia, ela se permitiu ouvir de novo a canção
e se entregou à saudade de um tempo precioso,
soluçou sentindo o além do amor, emocionou-se...

Além, muito além daquele tempo tão distante,
ficara lá atrás aquela menina sonhadora, sozinha,
já não sentia o abraço que julgara seria eterno,
já não corria para encontrar o parceiro e amante,
agora, tão além, só restava saber-se com memória,
só podia relembrar tudo o que viveu e cada instante,
para que se aquietasse na penumbra da saudade,
o conteúdo do além, o fim do além, na sua história...
Aparecida Torneros

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como um segredo
a emoção lhe toma conta
ela não quer transparecer
prende o sentimento no peito
como um degredo
a decepção do amor desfeito
lhe provoca um nó na garganta
suas pernas tremem
sua ânsia de viver se esvai...

como um torpedo
o adeus do amado a faz morrer
apesar de seguir respirando,
mesmo quando se obrigar a comer,
após as noites que passar alerta,
bem depois dos anos que virão,
ali, na face marcada, repousará,
para sempre, o sulco de uma dor,
sob o olhar perdido e triste,
talvez décadas à frente, desse amor,
herdará algum impulso que a manterá viva,
mas, queimará até o fim, em seu rosto,
o fogo torturante do que não pôde impedir,
quando correu na sua pele, uma lágrima furtiva...

Aparecida Torneros

Mart'nália e Djavan - Molambo

MOLAMBO... AINDA BEM QUE VOCÊ VOLTOU...






Eu pensei assim...
estou ficando louca a falar sozinha,
com meus botões e com um fantasma...
o fantasma dele, que me ronda, nas madrugadas...
é quando eu acordo e sinto sua respiração no meu pescoço...
Eu senti assim...
e perguntei ao psiquiatra se aquilo era demência...
mas ele me respondeu que transformasse sentimentos em poesia...
era o que me cabia naqueles momentos, quando tudo parecia perdido...
eu, no centro de um vazio cujo entorno se resumia a uma paixão...
Eu imaginei assim...
um dia, a gente se reencontra numa esquina da vida...
e, como um milagre, magia do universo, nossos olhos vão se aprofundar...
nos veremos nas meninas que habitam no meio dos olhares infinitos..
ali, em espelhos de miradas sutis, estamos vivendo, há muitos séculos,
permanecemos impressos, dali não mudaremos jamais... era minha alucinação?
Eu esperei assim...
a qualquer momento desses, ele voltará para meus braços, nos entenderemos...
e... quando isso acontecer... já não me sentirei tão loucamente sem rumo...
encontrarei, junto dos olhos dele, a visão perfeita do caminho a percorrer...
Eu decidi assim...
não vou me importar como o que digam aqueles que se julgarem capazes de julgar...
porque, "só nós dois é que sabemos o quanto nos queremos bem", diz o fado...
E... a Maysa, quando canta "Por causa de você", renova-nos a certeza
do quanto é preciso esperar alguém, dentro de nós mesmos, a vida inteira...
Cida Torneros



Mireille Mathieu - Une Femme amoureuse

Gilbert Bécaud : Et maintenant (« Champs-Elysée » 1987)

sábado, 26 de setembro de 2009

Café de Flore

Cida e Antonio no de FloreSimone e Sartre no de Flore



Paris, 1887. No bairro boêmio de St. Germain de Près, nascia o Café de Flore. Seu nome, inspirado pela estátua da deusa Flora que então ornava o outro lado da rua: 172, Boulevard St. Germain. Por lá passariam e fariam história um sem-número de artistas e intelectuais.

Em 1913, o poeta Guillaume Apollinaire fez do 
Flore seu escritório. Ali, seus admiradores André Breton, Philipe Soupault e Louis Aragon se conheceram e formaram o núcleo francês do Dadaismo, que, após dissidência, em 1918, criaria o Surrealismo. Na década de 1930, o café foi frequentado por importantes escritores, pintores, cineastas e atores da época, como George Bataille, Michel Leiris, Albert Camus, Pablo Picasso, Alberto Giacometti, Jean Vilar, Marcel Carné e Jacques Prévert.

Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir aportaram no 
Café de Flore em 1939. Nas palavras do filósofo-escritor: "Nós nos instalamos completamente: das nove da manhã ao meio-dia, trabalhávamos; saíamos para almoçar e voltávamos às duas, conversávamos com os amigos que tínhamos encontrado até às oito horas. Depois do jantar, recebíamos as pessoas que haviam marcado encontro. Pode parecer bizarro, mas no Flore estávamos em casa."

Durante a ocupação alemã (1940-1944), o velho café se converteu num importante foco da Resistência. Lá se reuniam "o bando" de Jacques Prévert, o grupo comunista de Marguerite Duras e a "família" de Sartre: "Os caminhos do Flore foram para mim, por quatro anos, os Caminhos da liberdade". A atriz Simone Signoret, em suas memórias, diz: "Nasci, numa noite de 1941, num banquinho do 
Café de Flore."

Após a Segunda Guerra, e durante toda a década de 1950, as idéias de Sartre alcançaram uma ressonância sem precedentes, conquistando uma multidão de seguidores. Foram os anos de apogeu do Existencialismo, quando a musa Juliette Gréco e Boris Vian percorriam as "caves" de Paris com alguns dos mais importantes artistas do Jazz americano. O 
Café de Flore tornou-se local de peregrinação para jovens irriquetos, sequiosos de transformação, do mundo inteiro.
Jean-Paul SartreSimone de Beauvoir


Sartre e Simone de Beauvoir




ENTREVISTA COM HAZEL ROWLEY | autora de Tête-à-Tête
Ela contou a história de Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir
Paulo Lima | julho 2006
extraído de Caros Amigos 
Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir viveram um relacionamento pouco convencional que durou 50 anos. É um dos casais mais célebres da História. É impossível falar de um e não mencionar o outro. A paixão pela filosofia e pela literatura os uniu. Eles desafiaram a moral do seu tempo, vivendo muitos amores, assumindo compromissos públicos na contramão da mentalidade dominante em sua época. Foram reverenciados, mas também criticados e odiados. E escreveram livros que se transformaram em obras-primas. Na recém-lançada biografia Tête-à-Tête, da editora Objetiva, a escritora inglesa Hazel Rowley narra a agitada vida privada do casal existencialista, desde os seus primeiros encontros, em 1929, até a morte de ambos — ele em 1980, ela em 1986.

Foi na Austrália, entre o fim dos anos 1960 e início dos anos 1970, que Hazel teve contato com as idéias de Simone de Beauvoir. Ela chegou a entrevistar a escritora em 1976, em Paris, quando preparava sua tese de doutorado sobre Beauvoir e o existencialismo. O encontro foi intimidante, segundo Hazel. Afinal, ela estava diante de uma mulher que admirava por causa de sua relação de liberdade e estímulo intelectual com Sartre. E que muito havia contribuído para o desnudamento da condição feminina com ensaios como 
O Segundo Sexo, um de seus mais famosos.

Mas, apesar de brilhantes, Sartre e Beauvoir eram “estranhamente inseguros”, explica Hazel Rowley, e sempre se sentiam agradecidos às pessoas que os amavam. A despeito da feiúra notória, Sartre era um grande sedutor. E não foram poucas as mulheres que ele amou e abandonou, embora algumas ele continuasse sustentando financeiramente, numa atitude tipicamente machista. Um machismo, porém, que ele jamais manifestou com Simone de Beauvoir, afirma Hazel Rowley.

A notável cumplicidade do casal permitia que dividissem não somente interesses e preocupações, mas também amantes. E essa liberdade era exercida mediante um pacto incomum: eles contavam tudo um para o outro. Bonita, ícone do feminismo, Beauvoir era igualmente uma sedutora e teve muitos amantes homens, mas também se envolveu com mulheres, fato que ela sempre negou e que só se tornou público após a sua morte, com a divulgação de suas cartas.

Hazel Rowley lecionou na Universidade de Iowa, Estados Unidos, e na Deakin University, Austrália, e é autora dos livros 
Richard Wright: The Life and Times e Christina Stead: A Biography. Para escrever o duplo retrato de Sartre e Beauvoir, ela realizou entrevistas originais e pesquisou centenas de cartas inéditas. “Jamais gostei tanto de ter escrito um livro“, disse nesta entrevista concedida por e-mail de Nova York, onde mora.


Por que a senhora decidiu contar a história de Sartre e Beauvoir e focá-la no relacionamento do casal?
Estudei francês no Sul da Austrália no final dos anos 1960 e início dos anos 1970. Era o momento em que o movimento feminista estava no auge. Eu havia lido as memórias de Simone de Beauvoir e algumas de suas entrevistas, e fiquei muito inspirada. Ela parecia uma mulher realmente independente, e eu também queria viver daquela maneira. Eu gostava da idéia da relação livre, intelectualmente estimulante e mutuamente encorajadora que ela mantinha com Jean-Paul Sartre. Admirava o interesse deles pelas pessoas e pelo mundo, sua capacidade para trabalhar bastante, seu papel como intelectuais públicos e seu engajamento político. Tempos depois, já na meia idade, quis de repente examinar de novo aquela relação, e com mais objetividade. Era uma relação realmente admirável ou não? Beauvoir havia idealizado e representado em suas memórias? Eu queria conversar com os amantes e amigos do casal, para ver o que eles teriam a dizer.

Eles foram o casal mais famoso do Século 20?
Acho que sim. Eles ficaram famosos depois da Segunda Guerra Mundial, em outubro de 1945. Todos, no mundo inteiro, falavam dessa nova loucura, o “existencialismo” (mesmo que raramente entendessem o que isso significava). Sartre ficou famoso, e por algum tempo Beauvoir tornou-se famosa por causa dele. Mas depois ela adquiriu fama por seus próprios méritos, com a publicação do seu livro 
O Segundo Sexo, em 1949. Eles eram figuras muito controvertidas, de esquerda, e com sua literatura desafiaram as convenções sociais. Por isso muitos os odiavam. O Segundo Sexo foi considerado por muitos um livro chocante, o que levou Beauvoir a receber muitas cartas de ódio. Ela e Sartre se manifestaram contra a Guerra da Argélia (e contra o colonialismo em geral). Na França, durante os anos 1950 e início dos anos 1960, eles foram amplamente desprezados por essa posição.

Como ocorreu o seu encontro com Simone de Beauvoir? Como se sentiu ao estar diante da mulher que a inspirou?
Muito intimidada! Ela falava com muita rapidez — todos dizem isso a seu respeito —, e estávamos conversando em francês. Mas para mim foi também um momento muito importante. Naquela época, ela estava com 68 anos, e eu a achei ainda muito bonita. Naquele dia, ela não estava usando um turbante. Os cabelos estavam presos, o que dava a ela um visual melhor. E ela estava usando calça, enquanto que toda a vida havia usado vestidos, até aquele momento. Minhas perguntas foram respondidas automaticamente, e percebi que havia certas coisas sobre as quais ela não queria falar. Por exemplo, quando perguntei se ela e Sartre tinham alguma vez sentido ciúmes um do outro, ela respondeu: “Não, nunca!” Não acreditei totalmente nela, nem naquela ocasião (quando escrevi meu livro, anos depois, aquilo pareceu uma bobagem. Beauvoir algumas vezes sentia muito ciúme das outras namoradas de Sartre).

Não parece contraditório que Beauvoir, que lutou por sua independência e tentou construir uma relação de igualdade com Sartre, fosse tão dependente dele?
Não estou bem certa se ela era tão dependente dele. Sob alguns aspectos, acredito que ele precisou mais dela do que ela dele. Ele precisava dela como uma âncora, para lhe dar estabilidade. Algumas vezes Sartre esteve à beira da loucura. Nos anos 1950, ele estava muito deprimido, principalmente por causa da política. Ele bebia muito e tomava fartas doses de anfetaminas. Acabou se tornando completamente dependente de drogas. Acho que ele precisava de Beauvoir, que era uma espécie de figura materna, uma mulher que o conhecia muito bem e podia perdoá-lo infinitamente. Em termos de sua literatura, era maravilhoso que pudessem discutir suas idéias entre si. E que editassem o trabalho um do outro.

Relações abertas não eram incomuns. O que fez com que a de Sartre e Beauvoir fosse tão diferente e famosa?
É verdade, relações abertas não eram particularmente incomuns naquele tempo. Muitos amigos do casal levavam o mesmo tipo de vida. Hoje é algo incomum. O mundo se tornou mais conservador, em parte por causa da Aids. Porém, a maioria das pessoas que vivem relacionamentos abertos não conta tudo um para o outro, e com detalhes em 
technicolor! Mas Sartre e Beauvoir contavam tudo um para o outro. Isso lhes dava um sentimento de cumplicidade. Para escritores, isso era maravilhoso. Era quase como se cada um deles vivesse duas vidas. O que os tornou também famosos foram as memórias de Beauvoir. Ela despertou ainda mais o interesse sobre a vida dos dois escrevendo memórias sem fim sobre a vida do casal.

Qual é o principal legado de Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir para os casais atuais?
Acho que eles eram um modelo de generosidade. Um nunca impedia o outro. Eles se encorajavam no verdadeiro sentido da palavra: dando coragem e liberdade um ao outro. E, como sabemos, não é fácil amar uma outra pessoa com a liberdade deles. Simone de Beauvoir trabalhou com afinco para controlar seu ciúme. Isso era algo admirável. Eles acreditavam que o ciúme é uma emoção natural, mas isso não quer dizer que o ciúme seja bom para uma relação. Como existencialistas, eles acreditavam que temos força de vontade para lutar contra certas emoções ou tendências negativas. As pessoas dizem: “Sou preguiçoso por natureza ”. Como existencialistas, Sartre e Beauvoir diriam: “ Ser preguiçoso é uma escolha sua!”.

Certa vez Beauvoir comentou que Sartre adorava as mulheres complicadas, e acabava levando-as à loucura. Beauvoir tinha razão?
Beauvoir e Sylvie Le Bon [filha adotiva de Simone] estavam brincando com Sartre quando disseram isso. É verdade que Sartre gostava de mulheres jovens, vulneráveis e neuróticas. Acredito que ele sofria do complexo de salvador. Ele se imaginava no comando de um grande cavalo branco, um cavaleiro numa armadura brilhante salvando pequenas mulheres indefesas. Esta fantasia o fazia se sentir poderoso, necessário. Mas no fundo disso tudo havia a insegurança de Sartre. Ele se sentia tão feio que sequer gostava de abordar as pessoas na rua para lhes pedir informações. Ele não queria impor seu corpo às pessoas. Suas namoradas eram com freqüência bem loucas. Elas já seriam loucas de início ou ele as tornava assim? Eis uma boa pergunta. Acho que ele gostava de fazer com que mulheres jovens ficassem dependentes dele, e a dependência não é boa para ninguém. Ele também gostava de provocar ciúmes em suas amantes.
Acho que é neste ponto que Simone de Beauvoir é tão admirável. Em suas memórias ela escreveu que, por algum tempo, ela também se tornou dependente. Ela escreve com grande inteligência sobre a “mulher apaixonada” cuja vida gira em torno do seu homem. Mas, depois de alguns anos nessa condição, Beauvoir tomou as rédeas da situação. A longo prazo, ela não permitiu que Sartre a enfraquecesse. Ela preparou as coisas de modo que Sartre a tornasse forte. Muito habilidoso da parte dela, acho.

Agora sabemos que Beauvoir mantinha relações com mulheres, as quais ela sempre negou. Não é uma postura surpreendente, dadas suas idéias filosóficas?
É verdade, e eu não sei porque ela negou seus relacionamentos com mulheres. Isso é um pouco decepcionante. Acho que, em parte, porque ela via a si mesma fundamentalmente como heterossexual, e era assim que também se viam as mulheres com quem ela teve relações. Próximo do fim de sua vida, Beauvoir disse que gostaria de ter sido mais honesta sobre sua sexualidade, mas não poderia porque outras pessoas estavam envolvidas, e ela não se sentia livre para contar tudo. Tinha que ser discreta.

A senhora teve acesso a cartas inéditas que lhe forneceram muito material para o seu livro. Muitas, porém, ainda não estão disponíveis. A senhora já imaginou que tipo de Sartre poderia estar oculto nessas cartas? É possível mudar o ponto de vista sobre ele com a leitura desse material inacessível?
Examinei cartas de Sartre para quase todas as suas namoradas, e tenho certeza de que não restou nenhum Sartre oculto para ser descoberto. Vi centenas e centenas de cartas não publicadas, e acredito que agora conheço bastante bem o íntimo de Sartre.

Imagine que Beauvoir e Sartre ainda estivessem vivos. Como eles enfrentariam alguns desafios atuais como o terrorismo, a Aids ou mesmo a revolução da vida virtual?
Boa pergunta. Também me pergunto sobre essas coisas. Eles nunca usaram nem máquinas de escrever, imagine computadores! Sempre escreveram tudo à mão, e a vantagem é que podiam escrever em qualquer lugar : sob uma árvore, num café barulhento, qualquer lugar. Eles escreveram muitas cartas. Será que teriam freqüentado cibercafés em suas férias? Imagino que sim. Mas eles também apreciavam a sensualidade das canetas, da tinta, do papel. Cibercafés não são lugares sensuais. Isso teria sido uma perda para eles. Sobre a Aids: eles usariam preservativos. Uma amiga minha negra sul-africana, de 30 anos de idade, leu meu livro e ficou enormemente chocada com a vida sexual deles. Ela me disse: “Fico me perguntando se eles usavam preservativos!” A resposta é não, não usavam. Sobre o terrorismo: havia bastante terrorismo durante a Guerra da Argélia. Sartre não gostava do terrorismo, mas afirmava que entendia porque pessoas que têm uma causa justa, e não têm grandes exércitos ou equipamento militar, têm que recorrer a esta estratégia contra pessoas que têm essas coisas e que estão colonizando-as ou atacando-as injustamente.

Não parece incrível que eles fossem tão vulneráveis em suas relações, apesar da força de suas idéias filosóficas?
Sim. Tanto Beauvoir quanto Sartre eram estranhamente inseguros à maneira deles. Beauvoir muitas vezes afirmou que achava difícil combinar amor com independência. Estar apaixonada a tornava vulnerável, dependente do outro, atemorizada pela perda do amor daquela pessoa. Tanto ela quanto Sartre se sentiam agradecidos às pessoas que os amavam.

A senhora estudou o existencialismo durante muito tempo. Como o livro a ajudou a compreendê-lo mais? Qual foi a importância de tê-lo escrito?
Escrevi minha tese de doutorado sobre o existencialismo e Simone de Beauvoir nos anos 1970. De fato, sou interessada por esse assunto há muito tempo. É muito bom ter retornado a um tema que foi uma paixão anos atrás. Senti-me como se estivesse voltando para casa. Jamais gostei tanto de ter escrito um livro. Mesmo estando perfeitamente consciente de suas falhas, eu ainda admiro Sartre e Beauvoir. Ainda consigo aprender com eles. Simone de Beauvoir, em particular, me faz querer viver com mais coragem, engajamento e paixão. Ela me faz querer ler mais livros, viajar pelo mundo, me apaixonar de novo, assumir posições políticas mais firmes, escrever mais, trabalhar mais, atuar com mais intensidade e olhar com mais carinho para a beleza do mundo natural. Ela amava a natureza, era uma mulher muito sensível.

A senhora esteve recentemente no Brasil para pesquisar sobre Cristina Tavares, a amante brasileira de Sartre. O que descobriu sobre ela?
Eles não foram amantes. Cristina nunca dormiu com Sartre. Ele a cortejou vigorosamente. Tenho certeza que ele teria gostado de dormir com ela. Mas ela tinha 25 anos, era uma boa moça católica. Ele tinha 55 anos, e estava longe de ser bonito. Ela admirava Sartre e Beauvoir, não há dúvidas quanto a isso. Logo depois que deixou o Brasil, Sartre escreveu uma carta de onze páginas para ela, com uma longa lista de livros para ser lidos, a maioria sobre política. Cristina os encontrou de novo, diversas vezes, em Portugal e na França, permanecendo em contato com eles. Acho que Sartre podia perceber que ela era uma jovem especial, mesmo com apenas 25 anos. E ela provou ser muito especial, tornou-se uma importante congressista, uma pioneira da questão feminina no Brasil. Ela nunca se casou, era muito independente, atlética, tinha muitos amigos, e era fortemente engajada na política progressista brasileira. Tragicamente, morreu de câncer com apenas 50 anos.

Sartre costumava terminar um relacionamento quando deixava de amar suas namoradas, embora continuasse ajudando-as financeiramente durante muito tempo. Esse comportamento não era uma espécie de machismo?
Sim, acho que Sartre estava cheio de machismo. Mas, por mais estranho que pareça, não com Simone de Beauvoir! Eis mais uma razão porque sua relação é única e tão interessante.

Se a senhora tivesse que escolher um livro de Simone de Beauvoir, qual seria? Por quê?
Prefiro as memórias, mas, como são quatro volumes, não posso escolhê-las, mesmo achando o segundo volume especialmente interessante. Imagino que escolheria seu livro mais curto, 
Uma Morte Muito Suave, no qual ela fala da morte da sua mãe. O livro mostra a suavidade e sensibilidade de Beauvoir, algo que ela geralmente escondia.

A dualidade “amores contingentes” e “amores necessários”, idealizada por Sartre, explica a relação dele com Beauvoir e deles com os outros?
Não, não explica. Às vezes fico pensando que essa foi a forma que ele “vendeu” seu estilo de vida a Beauvoir, para torná-lo mais saboroso. Outras mulheres eram necessárias para Sartre, mas, conforme se revelou com o tempo, ninguém durou tanto ou foi tão íntimo quanto a relação de cinqüenta anos de Sartre com Beauvoir. E ninguém mais foi um par intelectual para eles, da forma que um foi para o outro.

Sartre trouxe glamour para a filosofia, conduzindo-a a um nível importante no século 20. A filosofia ainda é necessária nos dias de hoje?
Muito menos. Naquele tempo, os melhores e mais inteligentes alunos da França estudavam filosofia. Nos dias atuais a filosofia não tem o mesmo status. Naquela época, os filósofos acreditavam sinceramente que podiam mudar o mundo. Não acredito que os intelectuais tenham mais essa ilusão. Sartre tornou a filosofia “sexy” porque o existencialismo não era uma filosofia de torre de marfim. Era uma filosofia para ser aplicada à vida diária, uma filosofia que falava de liberdade, escolhas e auto-ilusão. Na época, era uma filosofia muito estimulante para as pessoas. São coisas ainda muito interessantes para nos fazer pensar.

Sartre viveu muitas vidas, e se tornou mais engajado nos problemas do seu tempo à medida que envelhecia. Ele apoiou o movimento da independência da Argélia, e rompeu com o Partido Comunista Francês depois de 1956, quando a União Soviética invadiu a Hungria. Ele e Beauvoir se sentiram muito isolados naquela época, mas permaneceram lutando. Intelectuais como Sartre não são mais possíveis hoje?
O mundo hoje está numa desordem desastrosa, e mais do que nunca precisamos de intelectuais públicos corajosos.

Sartre viveu seus últimos dias dependendo das pessoas, aparentemente dominado pelas idéias do então jovem intelectual Benny Lévy. E de acordo com Beauvoir, em suas memórias, ela se sentiu enganada por Sartre. Eles fracassaram?
Sartre estava dependente no final de sua vida porque estava cego. De 1973 até sua morte, em 1980, ele não podia ver. Isso significava que não podia ler, nem escrever. Ele precisava de pessoas que lessem para ele, e esse foi amplamente o trabalho de Benny Lévy. Eles tiveram longas conversas, que foram gravadas e publicadas por Lévy. Beauvoir sentiu que Lévy se aproveitou de um homem frágil e cego, e publicou idéias que não eram as de Sartre. Não sei se ela se sentiu enganada por Sartre, porém muito magoada com a hostilidade de Benny Lévy com ela. E com a hostilidade da jovem Arlette Elkaïm, que Sartre tinha adotado legalmente. Receio que o final do livro seja um pouco triste. Muitas pessoas me dizem que choraram quando leram sobre o funeral de Sartre. Beauvoir estava tão devastada, tão perdida, tão frágil. Eu mesma chorei, admito.

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Para saber mais
Descubra outros detalhes sobre o livro — podendo inclusive ler o primeiro capítulo dele —, visitando o site da Objetiva, editora que o publicou no Brasil. www.objetiva.com.br

Anônima... e o gosto de tudo....




Anônima

assim ela passa

sem nome, um rosto a mais

na multidão, lá vai, com seu passo apressado...

tem olhos que buscam o chão e o céu, passeiam...

seus olhos passeiam sobre as pessoas que a circundam...

ela passa e seus olhos passeiam..ela se vai...se perde...

mistura-se ao mundo, suas cores se diluem, seus pés se apagam,

seus braços se borram de tantos outros braços, sem afagos,circundam...

suas pernas se apressam, seu rosto se contrai em ânsias de ser compreendido...

terá ela um coração partido?será ela um ser de sentido bem vivido?

terá ela a dúvida do ato falho e surpreso?

que grito terá ela na garganta deixado preso?

quantas vezes terá sonhado com a luz do infinito?

ou terá se rendido à desilusão de descrer de tanto mito?

lá vai ela, passa, passeia, na passarela da avenida em trânsito

ela me faz emergir em transe, cada vez que sua testa franze,

seu semblante me indica preocupação, tensão, correria, difuso âmbito,

ela está nas ruas como está nos bares, nas noites, como nos dias,

ela é parte integrante da desintegração da espécie, é criatura passante,

é ávida de maratona, é pululante, pulsante, equilibra-se nos saltos, arfante...

assim, ela me perpassa os olhos, me deixa lembrança, ainda que expressa,

como o café com pressa, qualquer segundo cometa que me ultrapassa, lépido,

sou como seu espelho retrovisor, mal ela se vai, sua imagem some, em mim,

quase nada ficou, talvez um rastro de luz, talvez a saudade dela, o épico,

da sua passagem, trago assim, o lamento bobo de não saber seu nome, intrépido,

me disponho a nomeá-la , apelidá-la, chamá-la como se convida com um psiu,

pois ela já está distante agora, além de mim, quem mais será que a viu?

Cida Torneros


Viver a Vida...A mulher que eu amo... música de Roberto Carlos







sexta-feira, 25 de setembro de 2009