aqui tem música, poesia, reflexões, homenagens, lembranças, imagens, saudades, paixões, palavras,muitas palavras, e entre elas, tem cada um de vocês, junto comigo...
Cida Torneros
Não pude ir a Brasília e participar pessoalmente, hoje, da abertura da Exposição "O nu das palavras", do meu amigo João Videira. Estivemos juntos, em Lisboa, onde ele me ciceroneou num inesquecível circuito literário. Desejo-lhe sucesso, parabenizando-o por este novo trabalho. Estarei lá em pensamento e alegria! Beijos a ti , João e à tua partner Renata! Cida Torneros , do Rio de Janeiro
Hoje, 27 de agosto Inauguração da exposição poemofotográfica " o nú das palavras " com fotos de RENATA BIGLIA e poemas de JOÃO VIDEIRA SANTOS a qual terá lugar no Instituto Camões, em Brasilia, dia 27 de Agosto, quinta-feira, às 19.30 horas, com a presença dos autores. ............................................................
A exposição estará patente ao público de 28 de Agosto a 10 de Setembro de 2009 de Segunda a Quinta-feira das 08.30 às 17.00 horas e Sexta-feira das 08.00 às 14.00 horas. Encerra ao Sábado e ao Domingo
Já assisti a Elza "dura na queda", ao vivo, umas 4 ou 5 vezes na vida, em shows. O encanto, a vê-la cantar, é repetido.
Em abril, em São Paulo, no tradicional Bar Bhrama, lá estava ela novamente, fechando uma temporada. Fui com uma amiga paulistana, de origem gaúcha, que nunca tinha tido a chance de ouvir Elzinha in persona.
Sua arte sobrepuja as mazelas da própria vida e ela segue nos fazendo superar expectativas, recomeçando sempre. Inigualável cantora, voz de jazz e de samba, ou vice-versa, mulher de energia, dura na queda, vida de baixos e altos, aquela que dá a volta por cima, veio da comunidade, desceu o morro, subiu os mais altos prédios do mundo, esteve por Nova York, onde viveu algum tempo. Minha amiga deslumbrou-se.
Quem pode passar imune por Elza Soares, essa carioca pequena e forte, e agora, a mais nova baiana, cuja interpretação do Hino Nacional brasileiro, na abertura dos Jogos Panamericanos, cantando à capela num Maracanã repleto de gente do mundo inteiro, era ela a verdadeira síntese do seu povo, arrepiando sua gente e se oferendo inteira para a Pátria Amada Brasil. Um ocasião, eu a assisti no Teatro Rival, no Rio de Janeiro, num show intitulado Do cocxi até o pescoço, também inesquecível.
Dessa vez, na noite paulista, como das outras anteriores, estive flutuando na sua magia, e com ela até cantei Feitiço da Vila, samba do Noel em homenagem à Vila Isabel, bairro em que moro no Rio de Janeiro.
Tanto faz que ela se apresente no Rio, em Sampa, em Salvador, ou qualquer outra cidade do nosso país, ou no exterior, sua graça e talento sobressaem, ela fez escola, história e marca sua presença como ninguém no cenário da música popular brasileira.
Só consegui sussurrar no seu ouvido um "Deus te abençoe", enquanto pude ficar pertinho dela, e no nosso dueto de 5 segundos, seu carinho ao me oferecer o microfone para cantar um samba de Noel, é o mesmo sentimento que ela passa para cada público que tem a oportunidade de vê-la e ouvi-la, ao vivo.
Filha de uma lavadeira e de um operário, foi criada na favela de Água Santa, subúrbio de Engenho de Dentro. Cantava, desde criança, com a voz rouca e a cadência ritimada dos sambistas do morro. Aos 12 anos, já era mãe e aos 18, viúva. Trabalhou como lavadeira e operária numa fábrica de sabão e, com 20 anos, aproximadamente, fez seu primeiro teste como cantora, na academia do professor Joaquim Negli, sendo contratada para cantar na Orquestra de Bailes Garan e a seguir no Teatro João Caetano.
Em 1958, foi à Argentina com Mercedes Batista para uma temporada de oito meses, cantando na peça Jou-jou frou-frou. Quando voltou, fez um teste para a Rádio Mauá, passando a se apresentar depois em muitas outras emissoras, e por intermédio de Moreira da Silva, foi parar na Rádio Tupi e depois começou a trabalhar como crooner da boate carioca Texas, em Copacabana, onde conheceu Silvia Teles e Aluisio de Oliveira que a convidou para gravar. No seu primeiro disco, gravado em 1960, pela Odeon, cantou "Se acaso você chegasse" ( Lupicínio Rodrigues e Felisberto Martins), alcançando logo grande sucesso.
Em seguida foi para São Paulo, participou do primeiro festival de Bossa Nova no teatro Record e na boate Oásis, gravando seu segundo LP , A bossa negra.
Em 1962, apresentou-se ao lado de Louis Armstrong, como artista representante do Brasil na Copa do Mundo, em Santiago , no Chile. Nessa época conheceu Garrincha, com quem se casou.
Elza gravou centenas de músicas, fez inúmeras apresentações pelo Brasil e no exterior, interpretou os compositores mais famosos e expressivos desde Dorival Caymi a Vinicius, Tom, João Donato, e Ataulfo Alves, de quem eternizou Mulata assanhada.
Quem não lembra sua performance em Estatuto da Gafieira, de Bili Blanco, ou do Tributo a Martin Luther King, de Simonal e Ronaldo Bôscoli?
Sua carreira foi marcada por muitos sucessos e sua vida pessoal passou por revezes que a fizeram enfrentar dores e ter que seguir em frente. A partir de 1986, depois da morte de Garrinchinha, seu filho com o jogador de futebol Garrincha ( 1933-1983), ela passou nove anos na Europa e nos EUA.
De volta ao Brasil, gravou em 1997 o CD Trajetória, com músicas de Zeca Pagodinho, Guinga e Aldir Blanc, Chico Buarque, Noca da Portela e Nei Lopes. Ainda em 97 lançou o livro "Cantando para não elouquecer", biografia escrita por José Louzeiro ( Editora Globo).
Elzinha é essa Diva da música brasileira, cheia de gás, tem o canto nas veias e o tom no balanço do corpo, brinca com a voz e com seu público e a minha sorte foi poder revê-la ali, na esquina da Ipiranga com São João, há poucos meses.
A mulher e a artista se confundiam com a garra e o talento, tudo misturado na noite paulista, ao som da voz de uma Elza, uma brasileira, uma lutadora, melhor dizendo, uma vencedora, que é referência de vontade de viver, encantando a nós, que somos seus fãs, e àqueles que ela arrebata e faz se apaixonarem pela energia que dela emana. E ainda pude ter a "canja" de me atrever a cantar com ela. Agora, que ela acaba de "virar' oficialmente baiana, ninguém segura mais a nossa Elza Soares, ela segue, "tirando o sossego da gente", oh Elzinha assanhada!!!
O lugar do tempo é o da brevidade, passa depressa, ela pensou e chorou... O muro da vida é o da fronteira do tempo, marca e limita ele falou em missão e se disse realista...
Por mais que insista, ela sabe do quanto é duro lembrar o que passou principalmente se alguém se sente cansado e não pensa em recomeçar...
Por mais que desista, ele sente o quanto é pesado buscar o que virá especialmente se o outro ser tem "defeitos" saltáveis aos olhos e à razão...
Mas, ambos sabem, isso é notório, há qualidades que os ultrapassam pela emoção, que elevam almas, estabelecem vínculos, aproximam almas, atam os dedos, apertam as mãos, hipnotizam olhares, aconchegam abraços, detonam prazeres, levam pra longe os problemas, ajudam a relaxar e esquecer das dores e dos medos...
Talvez tenham se encontrado tarde demais, ela se conformou talvez seja cedo ainda para tirar conclusões, ele se questionou sobre a divisão dos sentidos, ambos puderam perceber algo mais em cada sorriso compartilhado, na loucura do mundo moderno, se perguntam o que terá sido tão efêmero, a ponto de parecer eterno?
NOS EMBALOS DE SÁBADO À NOITE: DANCIN'DAYS E AS FRENÉTICAS
Uma trama urbana de título em inglês tornaria-se um dos maiores acontecimentos da história da telenovela no Brasil: "Dancin' Days".
Abra suas asas, solte suas feras, viaje no túnel do tempo e reviva um pouco do que foi a era da discoteca, na segunda metade dos anos 70, uma febre para dançar no sábado à noite.
As peruas chegaram para ficar, invadiram as pistas e os sonhos, trouxeram o brilho e o colorido para a vida dos que aprenderam a dançar abrindo os braços, soltando leões antes enclausurados, se deixando envolver pelo psicodélico, o som tão alto que nem dava pra ouvir quem estivesse a meio metro de distância.
Assim foi a época do Dancin'Days, cujo ápice se deu com novela global, estrelada por Sonia Braga e Antonio Fagundes, nos idos de 1978.
Também, o grupo feminino As frenéticas, composto de seis mulheres que eram o próprio alvoroço, marcou presença com suas músicas, algumas composições inesquecíveis da dupla Rita Lee- Roberto,como por exemplo a provocante "Perigosa".
As discotecas viviam lotadas, a juventude se espremia para experimentar as coreografias mais charmosas, o mundo pulava através dos corpos enquanto um universo de conceitos era reordenado nos costumes das grandes cidades. A questão de movimentar músculos e idéias passou a fomentar o surgimento das academias que geraram a malhação, apareceu a febre das corridas, o famoso Cooper, quem não corresse ou dançasse seria "out".
Estar "in" era sinônimo de balançar o corpo sarado num salão freneticamente barulhento, mal iluminado, para onde se levava a disposição de abrir as asas e soltar as feras. Cida Torneros
Pegarei em armas simplificadas para lutar pelo Amor, com pontaria, atingirei o alvo do inimigo maior, a solidão das almas perdidas pelos confins, a dor dos sentimentos perdidos nos seus fins, a desilusão dos abandonos,esquecimentos de mim... Nada me fará desistir das batalhas em busca de vitórias, troféus de beijos, abraços, aconchegos, lindas histórias, por isso, como uma soldada consciente, lá vou eu, treinada, marchando pelos caminhos do coração que clama por vencer a distância entre cada criatura que é digna de ser amada e de amar em paz...
Pegarei em armas sofisticadas, se preciso for, para lutar pelo Amor, com galhardia, cada estilhaço de bomba apenas servirá para marcar a alma guerreira, cada grito de dor, ou cada labareda do fogo que atiça no corpo a chama, tudo será superado pela alegria da conquista de cada momento de entrega, nada me deterá pois ao Amor estou filiada, como a uma força motriz e cega, por ele como ideologia, entrincheirada, dia e noite, na mesa e na cama, lá vou eu, revolucionária que prega o Amor como solução , como revolução, como antídoto para a guerra fria e guerra atômica, para a destruição...
Só o Amor é capaz de neutralizar o desentendimento dos povos, acalmar a revolta do coração dos homens e encher de brilho e paixão, a alma dos seres capazes de guerrear em prol de uma humanidade plena...
Pegarei em armas pessoais e coletivas, racionais e sensitivas, mas lutarei, lutarei para que o Amor triunfe em mim, em cada pessoa, em cada coração solitário, alma isolada, para que o deixem entrar...
Pegarei em armas , pelo Amor, com espírito revolucionário, pregarei a liberdade de amar como a única revolução na qual, afinal, triunfarei...
SE CONTA OS ANOS, SE PÕE NA CONTA O ENCANTO, O PRANTO, ESSE ESQUECE... SE CONTA OS DANOS, SE A VIDA MONTA EM CIMA DE TI, UM QUEBRA-CABEÇAS, NO TEU DIA, QUANDO RENASCES, LEMBRA DAS TARDES ESPESSAS, AQUELAS DAS OUTRAS FACES, QUE PUDESTE VIVER E GOZAR...
OS ANOS PASSAM, REPETIDOS, O QUE CONTA É MESMO O BEM-ESTAR, O BEM-QUERER, O BEM-AMAR, A FESTA É ALEGRIA, APAGA A DOR, SE EMFRENTA OS PROBLEMAS, O AMOR ESSE É QUE CONTA, NO FIM DAS CONTAS...
SE CONTA AS VEZES EM QUE TENTASTE SER FELIZ POR SER, POR ACREDITAR QUE O MUNDO VALE O DESGASTE NOS MELHORES MOMENTOS DE CONTAR...
CONTA DE TRÁS PRA FRENTE, NASCE DE NOVO, NO COLO DA MÃE-NATUREZA, NO CORPO PLENO, AJEITA AS JUNTAS, AQUIETA O CORAÇÃO, ABRAÇA CADA AMIGO, BEIJA CADA FÊMEA, AFAGA CADA EGO, ACARICIA CADA MÃO QUE A TI FOR ESTENDIDA, COMO UM POLVO...
CONTA COM TODOS, TODOS SÃO PARTE DE TI, TODOS TE OFERECEM O QUE PODEM, PERDOA MESMO OS QUE TE MAGOARAM, TE FAZEM CRESCER, SÃO CONTABILIDADE DE PERDAS, DEIXAM SALDOS A PAGAR, A COBRAR, A FUNDO PERDIDO, A VENCER...
CONTA, SE PODES, OS LUCROS, OS PLUS, CADA SOMA, CONTA, SIM, CONTA OS DIAS, AS NOITES, AS LUAS, CONTA CADA CANÇÃO DE NINAR QUE EM TI AINDA SOA A VOZ MELODIOSA DA MÃE AMADA, CONTA A LOUCURA DAS RUAS, CONTA OS BEIJOS AMIGOS DAS IRMÃS, O CARINHO DO PAI, CONTA OS OLHARES PEDINTES DOS FILHOS, O CALOR DA MULHER, CONTA OS DESEJOS DAS AMANTES ESPORÁDICAS, SOMA AS SUAS POSSIBILIDADES DE APROVEITAR CADA INSTANTE, E VAI...
SE PODES IR EM FRENTE, CONTA COM TUA FORÇA INTERIOR, CONTA COMIGO, COM ELA, COM ELES, COM TODOS, FAZ MISTER NO TEU CAMINHO DURO, DE ULTRAPASSAR O DESAMOR, E CONQUISTA O MUNDO... TU SABES QUE NO FUNDO SERÁS SEMPRE UM SER DE LUZ, DO CRIADOR, A CLAREAR COM TEU SORRISO, ESPÍRITOS NECESSITADOS DA TUA COMPREENSÃO, DO TEU PERDÃO, DO TEU AMOR...
SE CONTA OS ANOS, PÕE NA CONTA O TEU MAIOR TESOURO, E O ESCONDAS DA PIRATARIA, O GUARDES EM BAÚ TRANCADO, POIS UM DIA, TRANSBORDANTE, ALCANÇARÁS O CÉU, E DE SOBRA, ENTENDERÁS PORQUE A VIDA É CURTA, O SENTIDO DELA, MISTÉRIO PROFUNDO, E SE ELA DIARIAMENTE NOS COBRA O QUE NOS DEU, UMA DECISÃO DIFÍCIL, É PORQUE EM CADA CONTA, HÁ QUE JUNTAR OS RESTOS, CATAR OS CACOS, REFAZER A TRILHA, BUSCAR NOVOS PARCEIROS, DESFAZER CONTRATOS, CADUCAR RESENTIMENTOS, PROMOVER AUMENTOS, PAGAR OS JUROS, FOMENTOS...
SE CONTA OS ANOS, AMIGO(A), CONTA A FAVOR.. CONTA PENSANDO EM REPOR, EM GANHOS, CADA FLOR QUE OFERECESTE A ALGUÉM QUE NUNCA AS RECEBEU...
Marie trouxe para si o tempo. Desceu a escadaria da casa antiga, correndo, ansiosa para encontrar o carteiro que lhe entregou mais uma carta de amor. Nos últimos dias, de uma forma intensa, ela revivia aquele 1969, quando chegaram muitas, lembrava com emoção, da sua paixão de jovenzinha, o quanto se deliciava com cada palavrinha, até com os pontos de exclamação.
Achava divertido tentar imaginar a expressão do semblante dele, nos instantes em que as criava, as escrevia, dizendo-lhe tantas frases repletas de afeto e entrega.
A distância tinha os dois lados. Tornava-os aflitos pela saudade e ao mesmo tempo, servia para se darem conta do quanto se amavam...
Marie viveu esse amor, através da correspondência, por um período de dois anos, o suficiente para aprofundar-se no espaço onde se eternizam os que valorizam pequenos mimos, o final com um lindo "post scriptum", entrecortado de suspiros, onde se lê "eu te amo", para fechar o ciclo e aconchegar-se o papel ao coração... Só é possível sussurrar " eu te amo também", e seguir aguardando a próxima...
Há que responder, imaginar o que vai contar, reiterar sobre a saudade e perguntar sobre o encontro real, quando já não é possível contentar-se com recados amorosos via correio...
A geração de Marie sempre soube o que era esse tipo de amor. Forte e corajoso, capaz de ultrapassar a distância, pelo menos por algum tempo, e de se alimentar de promessas ou declarações alentadoras.
Passados quarenta anos, eis que Marie corre, não mais pelas escadas velhas, mas, sim, em direção ao personal computer, para ver se na sua caixa postal, há um novo email do amado distante, o que o faz tão presente em sua vida, com lindas confissões de intenso amor.
Há uma vida corrida, ambos se atropelam em afazeres, famílias e trabalhos, mundos diversos, a maturidade que lhes pegou no contrapé, ao se verem assim, reordenando o dia-a-dia, a preparar-se para a aposentadoria, a lidar com a solidão, a sobreviver com pequenos arroubos de amores ocasionais.
Não cabe preencher os textos destes emails com promessas, como fariam naqueles idos anos de mocidade, o que lhes apetece e urge fazer, ela compreende, acata e alimenta, é mostrar-se vivo, amar e dizer que ama, para que a cada novo dia, ele e ela se revigorem na plenitude do tempo.
Então, Marie abre o mais recente email do seu sonhado amor. Está com um título: Urgente!
No corpo do recado eletrônico, somente três palavrinhas, repetidas por três vezes: "te amo, te amo, te amo, A."...
Ao sentir que lágrimas lhe brotam dos olhos, Marie é a mesma menina que abriu a nova carta do namorado de 19 anos, uma daquelas longas páginas escritas manualmente, delicadas, leves em papel seda, com letra desenhada.
Agora, nem precisava (e nem podia) tocar a tela para acariciar o troféu que viajara dias para vir ao seu encontro trazendo a ternura dele, bastava olhar a luminosidade do monitor e identificar o conteúdo.
O siginificado de tudo estava claro, definitivamente claro, ela soube disso. Dizer três vezes "te amo", é como ficar horas escrevendo uma longa carta de amor, postar no correio, enviar de muito longe e saber que alguém em algum lugar do mundo, espera por aquela demonstração de intenso carinho. Ela então, num delírio quase adolescente imaginou que podia viajar e sequestrar o homem amado. Trazê-lo para si, com audácia, prendê-lo ou amarrá-lo com o objetivo de matar as saudades. Mas isso, pensou, seria tão ridículo, quanto são ridículas para algumas pessoas, as tais cartas de amor quase pré-históricas.
Entretanto, no recente filme Sexy and the city", Marie ficou impressionada com uma cena sobre cartas de amor que a protagonista lê num livro que pega na biblioteca da cidade, especialmente para familiarizar-se com os amores declarados por personagens históricos famosos.
Para Marie, restou imprimir o email, pregar no seu quadro de avisos. A todos que perguntarem sobre a assinatura do bilhete via internet, ela responderá, com a segurança que a vida lhe ensinou a preservar, que o recado está assinado por ninguém menos do que o Amor, este sim, o grande missivista que ilumina os corações dos amantes além da imaginação, fora dos limites geográficos e sobretudo, resistindo à modernidade tecnológica, em desafio à razão, com o fogo renovado eternamente pela emoção... Cida Torneros
Chico Buarque Composição: Edu Lobo / Chico Buarque
Procurando bem Todo mundo tem pereba Marca de bexiga ou vacina E tem piriri, tem lombriga, tem ameba Só a bailarina que não tem E não tem coceira Berruga nem frieira Nem falta de maneira Ela não tem Futucando bem Todo mundo tem piolho Ou tem cheiro de creolina Todo mundo tem um irmão meio zarolho Só a bailarina que não tem Nem unha encardida Nem dente com comida Nem casca de ferida Ela não tem Não livra ninguém Todo mundo tem remela Quando acorda às seis da matina Teve escarlatina Ou tem febre amarela Só a bailarina que não tem Medo de subir, gente Medo de cair, gente Medo de vertigem Quem não tem Confessando bem Todo mundo faz pecado Logo assim que a missa termina Todo mundo tem um primeiro namorado Só a bailarina que não tem Sujo atrás da orelha Bigode de groselha Calcinha um pouco velha Ela não tem O padre também Pode até ficar vermelho Se o vento levanta a batina Reparando bem, todo mundo tem pentelho Só a bailarina que não tem Sala sem mobília Goteira na vasilha Problema na família Quem não tem Procurando bem Todo mundo tem...
Vida de Bailarina
Composição: Américo Seixas, Dorival Silva
Quem descerrar a cortina Da vida da bailarina Há de ver cheio de horror Que no fundo do seu peito Abriga um sonho desfeito Ou a desgraça de um amor Os que compram o desejo Pagando amor a varejo Vão falando sem saber Que ela é forçada a enganar Não vivendo pra dançar Mas dançando pra viver
.::A Bailarina::. Toquinho, com Lucinha Lins
Um, dois, três e quatro, Dobro a perna e dou um salto, Viro e me viro ao revés e se eu caio conto até dez.
Depois, essa lenga-lenga Toda recomeça. Puxa vida, ora essa! Vivo na ponta dos pés.
Quando sou criança Viro orgulho da família: Giro em meia ponta Sobre minha sapatilha.
Quando sou brinquedo Me dão corda sem parar. Se a corda não acaba Eu não paro de dançar.
Sem querer esnobar Sei bem fazer um grand écart. E pra um bom salto acontecer Me abaixo num demi plié.
Sinto de repente Uma sensação de orgulho Se ao contrário de um mergulho Pulo no ar num gran jeté.
Quando estou num palco Entre luzes a brilhar, Eu me sinto um pássaro A voar, voar, voar.
Toda bailarina pela vida vai levar Sua doce sina de dançar, dançar, dançar...
Michel Sardou (26 de Janeiro de 1947, Paris) é um autor, compositor e intérprete francês. Também aventurou-se como actor de cinema e de teatro. Ele é filho dos também comediantes Fernand Sardou e Jackie Sardou. É considerado desde dos anos 70 como um dos mais populares e controversos cantores franceses pela abordagem de suas músicas a temas sensíveis como o direito das mulheres nos países muçulmanos, o colonialismo, etc. Em 40 anos de carreira criou 21 álbuns e 300 canções.
O guardador de segredos por Maria Aparecida Torneros da Silva
psiuuuuuuuu....não fala pra ninguém... vou dizer bem baixinho...sussurrando no seu ouvidinho... com "cosquinha" infantil sopro na orelha e digo amém... conto sobre um certo alguém... mas não digo o nome dela...conto só que tem matizes de se fazer manhã de sol,de me ir criando raízes, nas emoções desejosas... psiuuuuuuuu.... preciso falar depressa,sobretudo quando a bela adentra a minha janela e me põe de quatro, um bobo,a sentir o seu perfume, tendo sensações gostosas me sentindo um novo lobo,vou comê-la, o "chapeuzinho"seja vermelho ou amarelo,azul, não me importa tanto,quero seu gosto todinho... psiuuuuuuuuuuuuuuuuuu... não espalhe aos ventos, esses meus pequeninos tormentos por ser dela o meu desejo por ela o meu doce beijo pra ela meus ais e lamentos... o melhor de toda a história é saber que ela nota, anota e sonha com a possível memória do que só acontece na idéia de um guardador de segredos,que ousa contar seus medos a uma poeta distante e risonha...psiuuuuuuuuu.... nada como a vida pra viver em tom glorioso com jeito de fala comprida de caboclo criterioso.....nem me venha contar prosa de moça linda e dengosa que lhe entra pelas vistas, porque sei das suas preces, já li seus suspiros e listas de me fazer homem bomba explodindo a alma dela em prazeres de muitos ais...... mas me perdoe o mal jeito de perseguir a sua sombra farejar seu rastro rarefeito... psiuuuuuuuuuuu me ouça e cale, porque tanto faz, tudo que acabei de contar muito embora não pareça é só desabafo de macho um breve tempo de sonhar... quer saber o que eu acho? é só um segredinho a mais...
Vem na contramão esbarra em mim, me surpreende pede desculpa com jeito manso deixa-me ver teu olho desejoso mas vem com passo decidido nem pestaneja sobre o conflito nem divaga sobre o medo nem desiste do amor nem pensa demais no tempo apenas vem...roça-me a alma para que sintas meu fogo a incendiar tua razão de ser.. mas, não fales nada.. o amor não é feito de palavras ele é um grande encontro... derruba o equilíbrio... nos põe no chão... mas nos eleva o espírito e nos livra da morte...
lua minguante em mim... Aparecida Torneros em 20/06/2006 lua minguanteem mim... a sombra da terra cresce... a lua mingua... a saudade anoitece... enfim... a luz se desvanece... mingua no peito a alegria infante, estoura na alma a pequenez errante, do amor sem destino da amante que sonhava ser feliz, meretriz... em mim... o sopro do luar filete... o satélite se espreme, um lembrete... apesar da amargura de perder-te réstia de claridade, resta ver-telua de fio, resto de cio, noite de frio... em mim... a paixão se encolhe enfim... o coração não escolhe a quem pode amar... e colhe no jardim da vida... a flor tão fina a magra lua de corpo de menina em alma de fêmea escondida, assim é a lua que mingua em mim... é como um aperto forte da vida... lua minguante em mim...
nos lábios dela, inegável o gosto marcado dos beijos dele, aquela saudade infinda...
nas noites dele, lembrança daquela madrugada, com os beijos dela, carinho da mulher amada...
nos braços deles, vazios da presença de ambos, aquela busca inconsciente do reencontro, a dor...
amor dói, eles pensaram, saudade dói, dor de amor, dor malvada, estranha, atormenta e enlouquece...
nos sonhos dela, ele vem visitar e ela não esquece, nos sonhos dele, ela vem para seus braços e adormece...
enquanto não é possível ultrapassar o sentimento, eles se sentem assim, presos no que tiveram de seu, aceitam os caminhos que os levaram ao afastamento, ou melhor, não aceitam nada, quando vem o tal momento, em que dói não estar um com outro, dói não ter a voz, o abraço, o cheiro, dói não se falarem, como lamento, dói de novo, mais forte, repete-se, tudo o que já doeu, para a dor dos seus corações só existe um único alento...
sabem que ainda se amam, sabem disso, e estão sós...
Uma dedicatória plena de sensibilidade: "Para as meninas com mais de 60 que ainda dançam"
A dedicatória eu li, na manhã instigante de domingo, em pleno final de agosto, justo quando permaneço atenta ao meu movimento interno, às vésperas de completar os meus orgulhosos 60, no próximo dois de setembro.
Está no site-blog, Bahia em Pauta (http://bahiaempauta.com.br/), um verdadeiro frescor, que mistura notícias com sensibilidade, editado pelo jornalista Vitor Hugo Soares, desde Salvador, apresentando a sugestão de sua irmã, Regina, que mora em São Francisco, mas segue antenada às coisas do patropi, ao exibir um vídeo com Novos Baianos e Marisa Monte, com a interpretação de "A menina dança".
Pois é, somos mesmo "meninas", que ainda dançam, ou melhor, dançamos!
Ontem mesmo, marquei de ir, no sábado próximo, dançar com um amigo, e ele perguntou se eu topava cair num forró, na feira de São Cristóvão, no meio da cultura nordestina que ali é ponto de referência turística nacional e internacional, onde o Gonzagão paira sobre todos, com seu baião intencionalmente pródigo de nos fazer embalar corpo e alma.
Adorei a idéia, confirmei, já estou me preparando, psicologicamente, para dançar a noite inteira, envolver-me na cadência da música, balançar os braços, tornar leves meus pés e pernas, cantarolar letras que dizem tudo, soltar as ancas em direção ao prazer que os movimentos musculares podem proporcionar, diante de um som que nos envolve desde os póros até a medula, nos fazendo ultrapassar dimensões.
Chegar aos 60 e ir além, "dançando" conforme a música, espantando os males, cantando para o mundo ouvir que temos garra. Sim, a mulherada madura tem demonstrado exatamente isso, sua sede de viver com qualidade. Deixamos de lado e pra trás o que não presta mais, não nos acrescenta, temos muito a fazer e aprender. Ontem , também, na manhã de sábado, lá fui eu para a minha primeira aula de francês. Nem imaginem como fiquei feliz, no meio de outros alunos(jovens e maduros) consegui pronunciar o tal "biquinho" tão característico da língua e trouxe dever de casa para fazer, completarei frases, ouvirei o cd, vou me dedicar em mais esse desafio.
Estar com 60 ou mais, "aprendendo" todos os dias, a viver e amar, do jeito que for, esbanjando decisão, tirando lições de onde nem se pensa que pode sair alguma coisa, às vezes. Noutro dia, aprendi com uma "menina" de 30, que há que se manter algum mistério sobre a declaração de um amor. Ela me disse: "eu nunca digo a um homem que estou amando, mesmo que esteja!". Fiquei pasma, perguntei porque, ela foi enfática: ora, para ele não se sentir seguro demais, e eu "dançar"...
Aí, vejam, eu compreendi outro tipo de dança, a da gíria, muito usada nas bandas cariocas, do tipo malandrinho, "viu, você dançou, amiga!"
Não é que a gente ou dança ou "é dançado"? Há até um projeto social, de ensino de ballet em comunidades pobres, que preconiza a inclusão social de jovens, intitulado "dançando para não dançar", com o duplo sentido, já que a meninada desavisada, de repente, dança mesmo nos embalos traiçoeiros do tráfico. O trabalho a que me refiro é digno de aplausos, pois já colhe frutos e tem levado alunos egressos de suas aulas e sonhos, a virarem bailarinos expoentes em companhias de ballet importantes como o Royal de Londres, por exemplo.
Nada fica mais claro do que deixar-se levar pelo fluxo das ondas sonoras. Cooptar-se pelo clima que a música proporciona. Ter a idade da lua ou o tempo dos deuses, completar o ciclo da marés ou atingir a velociidade-luz das almas livres, o que importa mesmo é viver dançando.
Dançar vivendo també vale. Acabo de me imaginar recebendo um interessante telegrama expresso que diz: " VIDA DANÇA SEMPRE PONTO APROVEITE TUDO PONTO MENINA DENTRO VOCÊ ETERNA PONTO BEIJOS ASSINADO VIDA" Cida Torneros (reproduzindo no meu blog a sugestão linda do Vitor e da Regina)
Voltei hoje, com a pele, digamos, tostadinha... mas com a alma, convenhamos, lavadinha...sim, porque, entre as pertinentes discussões sobre os recursos hídricos, no simpósio da Paraíba, rendendo graças ao universo da tecnologia que especula soluções arrojadas para a escassez do líquido que vai dessedentar o semi-árido brasileiros, apurei minha audição interna e ouvi a canção das ruas.
De João Pessoa, Recife, Olinda, Natal até Salvador, alguma coisa forte "aconteceu no meu coração", parafraseando o Caetano, "quando cruzei o Nordeste Brasileiro, nas suas capitais, refletindo o progresso, a sede dele, os investimentos estrangeiros, também a sede "deles", e muito mais, a perene sede de crescimento que essa região demonstra cultivar , apesar de adversidades climáticas ou de condicionamentos geofísicos.
Comi tapioca , acarajé, cuzcuz , munguzá, peixes diversos misturados a frutas nativas, jambos, cajus, cajás, mangas, tantos sucos, doces de coco verde, festival de matizes e sabores, riqueza de personalidades de sotaques cantados, de degustação sobranceira. Envolvi-me com o dia-a-dia do povo simples e aconchegante dali, me senti parte da paisagem, virei até forrozeira.
O baobá do Pequeno Príncipe, em Natal, resguardado por um poeta cioso da lenda, fez de mim a criatura do Sudeste mais feliz por estar nas terras de disputa dos holandeses, portugueses e espanhóis de outrora, que diviem espaço hoje, com os escandinavos, os alemães, os italianos, tantos outros de muitas origens que induziram a parar diante da porta da Agência Viking, e pensar: meu Nordeste Internacional pede passagem.
Sei que esse tipo de realidade se espraia por onde ainda não passei, como o Ceará, o Maranhão, e muitas outras terras de Sol forte, equatorianas plagas nacionais de variedade inconteste de vida regional.
Mas, o que me emociona, justo agora, é ter ouvido um menino olindense, guia infantil, de 12 anos, chamado Tiago, explicando sua terra, orgulhoso e letrado, me apresentando o túmulo do Companheiro Dom Hélder, a quem entrevistei uma vez em 1970, e, ainda, ter constatado que há um Brasil ensolarado onde as coisas acontecem, sob o Sol.
Voltei ao Rio, nessa manhã de segunda, permitam os conterrâneos cariocas essa licenciosidade, voltei amorenada, reabastecida, de uma certa brasilidade que vem de lá, talvez da Barreira do Inferno, ou das águas do mar tão verde quanto as folhas do coqueiro que me deu abrigo no momento em que não agüentei o tranco e dei aquela choradinha emocionada, por ter nascido num país tão diverso quanto maravilhoso.
Quando ela passa, franzina e cheia de graça, Há sempre um ar de chalaça, no seu olhar feiticeiro. Lá vai catita, cada dia mais bonita, E o seu vestido, de chita, tem sempre um ar domingueiro.
Passa ligeira, alegre e namoradeira, E a sorrir, p'rá rua inteira, vai semeando ilusões. Quando ela passa, vai vender limões à praça, E até lhe chamam, por graça, a Rosinha dos limões.
Quando ela passa, junto da minha janela, Meus olhos vão atrás dela até ver, da rua, o fim. Com ar gaiato, ela caminha apressada, Rindo por tudo e por nada, e às vezes sorri p'ra mimÂ…
Quando ela passa, apregoando os limões, A sós, com os meus botões, no vão da minha janela Fico pensando, que qualquer dia, por graça, Vou comprar limões à praça e depois, caso com ela!
Sou neta de um portugues, Antonio Silva, que veio menino para o Brasil e aqui casou com uma espanhola, minha avó Carmen Torneros. Os dois ensinaram-me a amar a poesia, a literatura, a música, a arte.
Com ele convivi até os 9 anos, quando se foi para o outro plano. Deixou-me tesouros em recordações, exemplos. A avó legou-me a língua espanhola ( que falo e escrevo) e uma paixão pelas coisas da Ibéria, sua comida, suas danças, e seu gênio vigoroso.
Tanto é que comecei minhas andanças européias pela terra dela, em homenagem à sua saudade... primeiro, depois de uma escala em madri, fui a Vigo, Orense ( o povoado dela chama-se Verin) e Santiago de Compostela...de lá é que desci para Porto.
Ali me encaixei numa excursão com outros brasileiros, que incluiu Fátima, Lisboa( onde quero ouvir o fado) , Salamanca e Madri, entre outras, por terra.
Em Madri fiquei o suficiente para ver Velasquez, El Greco, Goya, Picasso e senti a aura da cidade. Dali, fui para Barcelona. Gaudi e las ramblas. Por final, Paris...o grande sonho...6 noites lá...foi pouco, eu sei, mas foi maravilhoso.
Quanto a amar Portugal, imagina que tenho sangue da sua gente a correr em mim, que já amo a terra de Camões, e de tantos outros escritores que dali repercutem um sentimento de conquistadores, pois esse povo sempre foi assim, desbravador, singrando mares, buscando novos universos, e , através da língua, que é para nós brasileiros uma grande herança, nos identificamos em muitos pontos, evidentemente.
Gosto de ouvir o sotaque de patrícios, tenho aqui uma amiga portuguesa, de 80 anos, que nao perdeu até hoje o jeito de falar, e adoro ouvi-la, sempre.
Sou neta de imigrantes e convivi com esse tipo de sentido... a saudade do seu lugar...Acho que ainda vou emigrar, algum dia, Espanha e Portugal me chamam.
Adiei muito minha ida à Europa. Mas penso que tudo aconteceu na hora que tinha mesmo que acontecer. E fiquei muito feliz pela oportunidade. Aproveitei cada segundo, com certeza. Cida Torneros
Manuela era a mãe de Carmen (minha avó, mãe do meu pai) e do seu irmão Obidio Torneros,que pôs seu nome na filha Dolores Manuela, que nasceu em Nova York e hoje vive no Oregon. Em homenagem à minha bisavó, aí está a música belíssima de Julio Iglesias, para uma Manuela que esperou a volta dos filhos que emigraram para o Brasil e os Estados Unidos e jamais puderam retornar para vê-la antes da morte. Entretanto, quando estive em maio no cemitério onde estão os restos mortais dela e do meu bisavô Antonio Do Val Torneros, fiz me representar todos descendentes de Carmen e Obidio que ali não foram pessoalmente, mas em cujo sangue corre a alma galega, a luta hispânica, a saga de uma gente valente. Cida Torneros
A foto do casamento da Vó Carmen com Vô Antonio passava de mão em mão, os bisnetos admirados, aquela imagem de 1920, de um casal de imigrantes, se unindo no Brasil para formar uma nova família. Quantos sonhos deviam ter e o quanto deviam acreditar no futuro, aqui, em terra distante das suas de origem, Espanha e Portugal. A tarde-noite, em 2007, no dia em que se comemorava o aniversário do bisneto mais velho, Leandro, filho da neta mais velha, Maria Aparecida, por sua vez, filha do filho mais velho, Ulysses...
Mas, o melhor da festa era o clima de alegria e de amor curativo. Primos, primas, tios, tias, sobrinhos, sobrinhas, cunhados, cunhadas, noras, genros, um grupo que representava outro universo maior, por aí espalhado, composto por alguns presentes em espírito, outros, sintonizados em pensamento, ou ainda aqueles irmanados em ancestralidade, em energia construtiva.
Muitas outras fotos foram surgindo das caixinhas de surpresas que as tias trouxeram para o encontro. Havia um altar improvisado, em mesa com toalha de renda, com flores amarelas, quadro representativo com uma dançarina espanhola de vestido embabadado, vermelho, o porta-retrato com a foto da avó, que pertencera ao seu irmão Obidio, e ainda, uns livros e jornais , sobre história e artes ibéricas, além de leques rendados destinados às mãos das bailarinas.
A festa de aniversário era ao mesmo tempo a confraternização do sangue que corre nas veias dos descendentes de Carmen. O evento culminou com a apresentação das mulheres, que se tranformaram em dançarinas, reunindo as gerações, com espanholas de saias longas, xales floridos, flores nos cabelos, risos desprendidos, mãos e pés saltitantes, felicidade nos olhares e intenso brilho nas auras espirituais, a roda em cujo centro se exorcisavam as dores e renasciam as esperanças.
Nada é mais pujante que a união pelo amor. Quando se completou o ciclo, ao cantar parabéns para o professor Leandro, a família ali estava, parabenizando a si mesma, por dois motivos: existir e se amar tanto assim. Aparecida Torneros
Epanha, cuida de mim
Espanha, me chama, me canta, me espanta me encanta e me pranteia, na canção e na saudade tua misteriosa magia me entontence e invade, Espanha, me apanha na curva do mar da Galícia, me embarca no porto rumo a Barcelona, me esvazia do pote de euforia e me faz dançar em Andaluzia... Espanha, me puxa e me prende, me fascina e ilumina, me engana e me mostra teu lado mais duro, tuas dores que toureias nas praças dos milhares de amores que se vão, se superam, se matam e renascem, qual sina dos navegantes buscadores de terras, de mundos distantes, Espanha, me põe um sinal de bruxaria na testa, me empresta tua poesia, tua arte, teus pintores, tuas infinitas cores, me traz de volta ao céu, e me deixes provar do inferno que tua força maior, terror dos temores, das bombas, das guerras, os ditadores de mierda, injustiças e abandonos... Espanha, cuida de mim, de ti mesma, dos teus muitos donos. Aparecida Torneros
España en el Corazón A Espanha é uma coisa de tripa. Por que "Espanha no coração"? Por essa víscer é que vieram São Franco e o séquito de Sãos.
A Espanha é uma coisa de tripa. O coração é só uma parte da tripa que faz o espanhol: é a que bate o alerta e o alarme.
A Espanha é uma coisa de tripa, do que mais abaixo do estômago; a Espanha está na cintura que o toureiro oferece ao touro,
é que é de donde o andaluz sabe fazer subir seu cantar tenso, a expressão, explosão, de tudo que sa faz na beira do extremo.
Das tripas fundas, das de abaixo do que se chama o baixo-ventre, que põem os homens de pé, e o espanhol especialmente.
Dessa tripa de mais abaixo, como escrever sem palavrão? A espanha é cosia de colhão, o que o saburrento Neruda não entendeu, pois preferiu coração, sentimental e puta.
A Espanha não teme essa tripa; dela é a linguagem que ela quer, toda Espanha ( não sei é como chamar o colhão da mulher). João Cabral de Melo Neto