Maracanã

Maracanã

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Inventei palavras


Inventei palavras

tão frágeis, que, embora, pensei, fossem ágeis, se perderam no tempo, se diluíram, nas saudades infindas, de tardes tão lindas, de noites bem-vindas, quando a vida nos juntava, em abraços sinceros, eu acreditava, em beijos marcantes, eu achava, em prazeres eternos, eu sei agora, porque já que é pra sempre, se adora a lembrança, a memória, se escreve a história, de nós dois, de um casal de namorados amantes, um canal das palavras, dos sonhos e dos desejos: não viverei jamais sem receber seus beijos, só viverei porque os apanho cada dia, no vento que sopra daí pra cá, pela via do pensamento, da nossa eterna sintonia... Inventei palavras... como se inventa a vida... acho... e me escondi entre elas... me achei deveras... em priscas eras... nos sons e significados... descobri estados... ora líquidos... ora gelados.. sólidos... gasosos... ares... cantares... ciganos sentidos... inventei gemidos... criei sustenidos... compus sinfonias... encontrei noites vadias... como a de agora, da cheia lua... renasci com luz que incendeia.. iluminei minha alma na tua... inventei o amor até... cadeia... e me prendi para sempre nessa teia...

Cida Torneros

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Viviane Mosé, Martha Medeiros, a poesia ao vivo..


Ontem, quarta, 11 de dezembro, fui puxada pelos ventos das palavras sugadoras e assisti no Centro Cultural Banco do Brasil a um encontro maravilhoso.

a filósofa e poeta Viviane Mosé e a articulista e poeta Martha Medeiros

com sinceras e subjetivas exposições de suas artes e sentimentos, ambas nos presentearam com uma tarde-noite das mais reflexivas e gratificantes..

o poeta André as acompanhava ...

elas deram um show de sensibilidade e harmonia

mulheres bravas, guerreiras, necessárias ao nosso sentido de ouvir o amanhã , enquanto o hoje não vem...

Cida Torneros

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Cida Mudanças....


O bêbado e a equilibrista... na voz da Elis...

http://br.youtube.com/watch?v=6kVBqefGcf4

Zé Luís, o militante, uma história a ser recontada...











Zé Luís , o militante, uma história a ser recontada...

Ele gritava, em 67 e 68, pelos corredores do colégio: - Cidaaaaaaaaaaaa.... espalhafatoso e sempre sorridente. Zé Luís, um moreno de cabelos de índio, tão lisos, que insistentemente caíam sobre seus olhos. Aluno do científico e presidente do diretório estudantil da entidade. Eu, aluna do curso clássico noturno, no Pedro II, também muito risonha e cheia de amigas e amigos.

Nosso namoro foi quase infantil, e quase adulto. Durou menos de um ano, entre encontros e desencontros. Mas me rendeu muitas notas máximas na cadeira de prática de ensino, na escola Normal, onde eu cursva, simultaneamente, durante os dia, o Instituto de Educação, para formar-me professora primária. Na verdade, rendeu muito mais, uma história inacabada a ser recontada. Ele queria ser arquiteto e era exímio desenhista. Num tempo em que não existiam nem a computação gráfica e nem as xeroxs coloridas, eu pedia para o Zé desenhar figuras históricas para meus trabalhos de normalista. Lembro de um Santos Dumont que ele fez, junto com a imagem do avião 14 Bis. Foi um sucesso, no álbum seriado que me serviu de apoio para uma das aulas que dei às crianças da escola onde estagiava como professoranda. Tirei 10, evidentemente, não só pelos desenhos lindos, mas também porque a figura carismática do pai da aviação sempre fez parte da minha galeria pessoal de líderes brasileiros, arrojados compatriotas e inteligentes criaturas a honrar meu país.

Eu e duas amigas éramos inseparáveis. Regina e Rosária, que me acompanham até hoje e certamente devem se lembrar nas noites em que as deixei para acompanhar o Zé nas tais reuniões dos militantes. Aconteciam numa universidade. Eu ia e não entendia quase nada. Ansiava pelo término das reuniões porque queria trocar uns beijinhos com o namorado. Mas a discussão acalorada corria solta, na praça da República, com alunos secundaristas a planejar mobilização para as constantes greves daquele período.

Nas noites em que ele me gritava, eu respondia: - Espera, Zé, já to indooooooooooooooo.... olhando-o do alto das grades dos corredores do segundo andar, no prédio centenário na Av. Mal. Floriano. Lá embaixo, o menino risonho, engravatado, com a pastinha debaixo do braço, me aguardando para irmos namorar. Mas só depois da tal reunião político-estudantil. Eu aceitava e vivia a dupla aventura. Iniciava-me nas artes da política e do amor, pisando em ovos, digamos, não compreendia ambos , aliás, tenho dúvidas com os dois temas, que persistem até os dias de agora.
Um casalzinho de jovens caminhava abraçado , uniformizado, pela av Presidente Vargas em direção ao tal encontro, onde eles se chamavam de "camaradas". Via sempre por lá o líder estudantil Vladimir Palmeira, com sua verve envolvente.

Um dia, a boba aqui perguntou porque faziam isso. O Zé, com ares de sabichão , me disse que eu precisava ler mais a respeito da revolução russa, dos Bolcheviques e Mencheviques, que só vim a estudar mesmo nos anos 70, na universidade.

Assembléia terminada, votadas as questões de ordem, combinadas as datas e horas das passeatas e protestos, eu e ele seguíamos para ver o mar, na Praça XV, olhando Niterói lá longe, antes da construção da ponte. No trajeto , ele sempre me lembrava que no dia de cada passeata, eu devia me esconder na casa de velas, na hora do pegapracapá, quando a polícia chegasse, já que estaria muito ocupado e não poderia me proteger. Eu me sentia importante, participante corajosa, como namorada do manda chuva dos estudantes do Pedro II.

Sentávamos num banco qualquer. Sonhávamos e imaginávamos o futuro. Sempre ríamos muito. Ele era um ser brincalhão. Um namoradinho da mocidade que nunca esqueci, melhor que isso, um amigo que me ajudava a estudar, na biblioteca, muitas vezes, quando eu precisava me concentrar para as provas. Depois de algum tempo, levava-me ao ponto do ônibus. Eu ia para um lado e ele para outro. Não podia chegar tarde em casa, no subúrbio, a hora fatal era sair da cidade às 22 horas.

Quando eu já estava terminando a escola normal e já tinha decidido fazer o vestibular para jornalismo, encontrava-me atarefada com estudos e preparativos para a formatura, ele me veio com uma convesa estranha. Estava sério pela primeira vez. Presenteou-me com um livro sobre o comunismo chinês: "a oitava lua". Disse que ia ter que sumir. Que se engajaria numa luta mais forte contra a ditadura. Só depois eu soube que era o MR8. Naquele dezembro de 68, as coisas recrudesceram. Foi assinado o AI5, eu participei da colação de grau, sem a presença dele, mas homenageio-o no meu discurso de oradora. Apenas citei que o dedicava a alguém que tinha concorrido para que eu concluísse o curso ajudando-me muito e que agora não podia estar ali. Não sabia do seu paradeiro. Mas confiava que ele seguia sua caminhada por ideais tão fortes na garotada da época.

O ano seguinte, 69, já na universidade, foi, para mim, de muitas descobertas sociais e políticas. Segui imaginando que o Zé devia estar na luta e que um dia me procuraria. Já não éramos namorados, mas as memórias dos nossos momentos compartilhados nunca saíram da minha cabeça.

A cada vez que sabia de alguma notícia de militantes mortos ou abatidos, presos ou perseguidos, exilados ou mais tarde anistiado, eu observava as listas de nomes na esperança de uma linha sobre o Zé Magro, como era conhecido. Na vida clandestina, eu supunha, ele devia ter assumido codinomes a que nunca tive acesso.

O som da sua risada, seus trejeitos espalhafatosos, seu desenho esmerado, a lápis cera, seu carinho daqueles velhos tempos, ainda permanecem em mim.

A vida correu. Passaram-se 40 anos. Estamos em dezembro de 2008. Nunca mais soube dele.

Vou encerrar este texto transcrevendo um email que recebi de um ex militante (omitirei seu nome), em 2005.

Vale como outra homenagem à memória do Zé, e a sua história , ou melhor a nossa pequena-grande história, e meninos quase adultos, naqueles meses de 67 e 68.

Eis o texto recebido:
" Maria Aparecida, o Vladimir sempre avisa que, nos tempos atuais, é preciso TER MUITO CUIDADO quando se fala de ex-companheiros, especialmente se for um “MAMA DON´T CRY” ("amigos presos e sumidos pra nunca mais voltar"). Vc. é jornalista e sabe muito mais que eu sobre o assunto. O Vladimir aconselhava que quando nos deparamos com tal fato, no caso o Zé Magro, é bom que narremos fatos e/ou costumes que NUNCA FORAM relatados nos vários livros de memórias ou histórias daquele período. Vou tentar seguir os conselhos do Vladimir. Eu conheci e fiquei amigo de um aluno do Colégio Pedro II, em 1968, chamado JOSE LUIS DA MOTTA RODRIGUES, que sempre comparecia as reuniões do Centro Acadêmico Candido de Oliveira, na Faculdade de Direito do Rio de Janeiro, na Praça da Republica ( Campo de Santana ), liderada por Vladimir Palmeira. Zé Magro, sempre com seu uniforme do “CAFÉ GLOBO”, como ele gostava de definir o Pedro II por causa de um horrível emblema pregado no lado esquerdo da camisa branca. Zé Magro tinha um “tique nervoso” de sempre alisar a gravata azul ( de péssimo gosto ) berrante que compunha o uniforme. Zé Magro falava sempre do seu amigo e colega de classe, um jogador (ponta-esquerda) de futebol do Fluminense, chamado Gilson Nunes, embora o Zé Magro se confessasse torcedor do Flamengo. Zé Magro contava que namorava uma normalista do Instituto de Educação, da Praça da Bandeira. Todavia era muito comum que as meninas de lá namorassem meninos do Pedro II e do Colégio Militar. As meninas do Pedro II também gostavam de namorar os meninos do Colégio Militar, os quais, por razões apenas sabidas por eles, não tinham coragem de levar, uniformizados, suas namoradas na porta do colégio Pedro II. Zé Magro morria de rir quando nos contava isso.... Zé Magro tinha uma grande amizade com o Prof. Jairo Bezerra, de quem falava muito bem, mormente quando contava vantagem de “ ter professores que foram autores dos livros que todo mundo usava no ginasial e científico do Brasil ". A ultima vez que conversei com Zé Magro, foi em 69, quando nos encontramos na sinuca da Praça Tiradentes, quando ele me contou que iria para São Paulo se juntar ao MR-8. Certa ocasião, em 1976, em Pigalle, Paris, vi uma pessoa muito semelhante ao meu amigo Zé Magro, mesmo descontando o desgaste do tempo. Soltei do táxi e saí correndo atrás da pessoa, mas não consegui encontra-lo. Li praticamente TODOS os livros de memórias “DOS QUE VOLTARAM”, mas não consegui identificar ninguém com traços do ZÉ MAGRO. Até hoje, tratando-se do Zé Magro, continuo “bêbado trajando luto”. Para que meu coração não dê problemas ( como o seu que disparou ) vou tomar meu Atenol 100. L.P.S.M.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Poema para o Natal





POEMA PARA O NATAL
Por Aparecida Torneros



Quero os mansos...nesta Noite quero-os todos
ao meu redor, como pequenos seres de aconchego
a eles darei meu testemunho da fé que ainda cultivo
pela humanidade inteira, quase toda em rebuliço...

Quero os mansos de pés descalços, os de pele curtida,
junto de mim espero que repousem suas almas plácidas,
seus ares de conformação, sua compreensão pelos fracos,
seu perdão pelos maus comandantes, sua carícia desprendida...

Quero os mansos de voz melodiosa, os de canção que embala,
aqueles de abençoada passagem pela terra, sem a mancha da ambição,
quero-os, melhor dizendo, dentro de mim, para que me aperfeiçoem...
que me façam aceitar as diferenças cruéis e me clareiem a comunhão...

Quero os mansos... por esta madrugada inteira, com a paz que me ofertarem
com a aura do amor dadivoso, com a certeza do sublime, com a magia da culpa desfeita...
preciso deles para combater a solidão do meu pensamento infestado de abandonos...

Mas, se os mansos não me visitarem na noite de Natal, eu prometo, irei ter com eles...
porque preciso ser humilde, buscar as esquinas da periferia, dar um pão a quem tem fome,
vinho a quem tem sede, abraçar um corpo magro e abandonado, olhar nos olhos um irmão
que me espera, por aí, sem sequer saber meu nome, mas confiante em que o farei feliz...

Pelo menos nesta noite de Natal, com cada manso que puder encontrar,
partilharei minhas dores, apertarei suas mãos entre as minhas, e cantarei
... então é Natal... com lágrimas nos olhos e coração em festa...

Férias d (para) o analista!!!


Hora de rearrumar a casa "interior".

Justamente no momento em que as obras da casa antiga estão quase concluídas e voltarei a morar lá. Virou casa rearrumada, por dentro, de verdade. E pedi férias ao analista. Por uns dois a três meses, tempo que preciso para acomodar os sentimentos nas duas moradas, a física e a psíquica, ele compreendeu bem.

Os objetos passam a ter vida nova, nem me reconheço nessa nova fase de vida, ando me redescobrindo, me reinventando, me reorganizando, há tantos espaços a preencher dentro dos meus sonhos ainda tão adolescentes, por mais que isso possa parecer piegas.

Hoje, me peguei revivendo meu dezembro quarentão, de 68, quando eu era uma menina cheia de ideais de justiça e liberdade. Como quarenta anos podem ter passado tão depressa?

Combinadas as nossas férias, eu e Arruda teremos mais uma sessão antes do Natal e ficarei atenta ao meu conforto emocional nesse período. Um bom exercício : me auto-referenciar para o mimo que necessito, a alegria de me cuidar e o desafio de me auto-agradar.

Pequenas coisas, como por exemplo, ter terminado o tapete de crochet para o meu novo banheiro, quando me senti orgulhosa do trabalho manual e do presente que fiz para mim.

Há a necessidade intensa de compreender que a vida da minha mãe velhinha é mesmo só dela, e me dispensar de pretensas culpas para os oitenta e poucos anos dela, que reclama que já virei sua mãe e isso não lhe agrada nem um pouco. Quanto ao filho entrante na casa dos trinta, dá gosto de ver como é lutador e responsável. Tem a maturidade tão protetora que me surpreende, e já é hora de me desfazer daquelas roupinhas de bebê que guardei por esse tempo todo. Vou doá-las, afinal o meu menino cresceu e eu andei parando no tempo para não me desgrudar daquela sensação de mãe feliz, que amamentava o filhote por mais de 3 anos.

Hoje, o tempo é outro, ele é um homem e pode até me dar netos, quem sabe, se resolver enfrentar essa responsbilidade que é ser pai.

Pois que o analista, mais uma vez, me dá passagem para meu crescimento. Já não sou a jovem do dezembro de 68, nem a mãezinha do bebê traquinas, aprendo a ser a mulher inteira de quase 60 anos, que vê tanto a fazer e tanto a aprender.

Se, durante as férias da análise, o meu potencial de rearrumar as casas me proporcionar a chance da redescoberta do amor, talvez sábio amor já tenha me encontrado antes, e esteja à espera de que eu apenas o reconheça. Provavelmente o sentimento que chamo de amor é bem mais doce que um beijo, é mais temperado que um talharim e é mais denso que um vinho rascante.

Estou pronta para tirar as férias do analista e dar férias ao próprio, já que a vida começa todo dia, é hora de recomeçar a viver as novas vidas que novas casas me oferecem.

Abrindo janelas e cortinas, deixando entrar luz, ouvindo as saudações dos vizinhos, ofertando sorrisos de paz, buscando solidão e quietude, em doses certas, com calma, usufruindo o verão, enquanto o mundo gira, e de 40 em 40 anos, meninas se olham no espelho e se aceitam como verdadeiras, fiéis aos seus sentidos de viver com paciência cada período de férias e qualquer recomeço.

Aparecida Torneros

No tempo das mini-saias....

Nossas primeiras mini eram discretas, deixavam de fora só os joelhos. Depois, ousamos, e lá se foram as coxas para a vitrine, bronzeadas, nos verões de 66, 67, 68, por exemplo. Nos anos 70, explodimos com pernas de fora, pelo mundo, e a revolução sensual era também sexual, e o era mais ainda social. Estávamos brigando pelo tal lugar ao sol acirrando um poder feminino, nos tornando as "feministas" de plantão, reivindicando direitos de abrir a boca e cuidar do próprio nariz.
Mostrar o corpo, desmistificar o comando masculino, assumir a liberdade de pensar e de agir, tomar conta da vida, sem amarras de pais ou de namorados e maridos....rs
Foi um tempo de buscas e encontros, também, se muitas de nós tentavam se afirmar como profissionais e livres, outras optavam ainda pelos casamentos e preferiam ser "do lar", em contraponto àquelas que seguiram sua luta solitária em solteirices agudas, entremeadas por "paixões" ocasionais ou "amores " atropelantes...
Tudo valeu a pena, porque a alma das meninas que vestiram as minis, com certeza nunca foi alma pequena... Crescemos muito com a vanguarda e não foi questão de moda, apenas, era um libelo de afirmação socio cultural num mundo até ali tão machista.
Hoje, passados mais de 40 anos, usamos saiões compridos e alternamos, porque nos é dado o direito de ultrajar, trajar de tudo um pouco, pelos menos no ocidente, de um modo geral.
Minha primeira mini era vermelha. Eu tinha 17 anos, ficava me divertindo com os olhares curiosos, e me flagrava orgulhosa por ter coragem de mostrar pernocas para sair de casa, passear, ir nas festas, dançar, e até de sentar e cruzar os joelhos....aí, era a glória....como se eu dissesse: - oi , tô aqui, sou eu mesma, inteira, cabeça, corpo e membros , um ser humano completo, mesmo sendo mulher!
Aparecida Torneros

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

68, dezembro, formatura como normalista no Instituto de Educação RJ



Minha linda normalista, dos anos 60, no Rio de Janeiro ( artigo publicado no livro A mulher necessária)


Maria Aparecida Torneros da Silva

O convite dizia:

Festa no Instituto de Educação: "Será realizada uma festa no Instituto de Educação do Rio de Janeiro no dia 18 de novembro às 20h, no Pátio do Chafariz, ao som da Orquestra Tabajara, na rua Mariz e Barros, Tijuca. Convidamos todos os professores, funcionários, ex-alunos, ex-professores e ex-funcionários para esta grande noite de confraternização, onde estarão juntos aqueles que têm o embleminha do Instituto em seus corações."

Lembra quem puder, conta quem souber, revive quem se emocionar, mas, nós, as ex-alunas do Instituto de Educação do Rio de Janeiro, aquela casa criada por Getulio Vargas, nos anos 30, com o objetivo de formar as novas professoras da capital federal, tem mesmo muita história para se contar.

Primeiro, foi o sonho de toda jovem educada segundo os princípios rígidos que norteavam a ditadura do gaúcho, e se alicersavam nos parâmetros de uma igreja católica ainda dominante, naquela época. Diretrizes morais que, durante muitas décadas, serviram de exemplo e ponto de apoio para que se divinizasse o papel das professoras, e das estudantes "normalistas", as que só se casavam após a formatura. Imortalizada na canção do Nelson Gonçalves, "Minha linda normalista, não pode casar ainda, só depois se formar", cada jovem que cruzasse nos anos 30, 40 ou 50 as ruas da cidade maravilhosa, vestida com o austero uniforme da blusa branca com gola fechada no pescoço, gravatinha azul indicando a sigla IE, saia plissada, cinto marcando a cinturinha fina, meias brancas e sapatos abotinados pretos rigorosamente engraxados, era como a reafirmação do compromisso com o Brasil do futuro.

Ficaram famosas as festas onde as meninas do Instituto bailaram e namoraram os rapazes do Colégio Militar. Desses bailes surgiram muitos reais casamentos e novas famílias tradicionais, imbuídas da fantasia dos dezembros dos "anos dourados", com o romantismo que o cinema americano se encarregava de fomentar em cada coração de um tempo em que o país iniciava sua industrialização e a capital se transferida para Brasília.

Na segunda metade dos anos 60, deu-se a mudança radical nos costumes e nas idéias da juventude brasileira. Uma revolução militar, seguida de uma ditadura castradora, atingiu a vida de todo jovem brasileiro, obrigando-o a se posicionar. Foram muitas as posições que se escolheu: podia-se observar simplesmente ou lutar. Quem quisesse colocar-se à margem, abster-se, seguir seu caminho individual, teria o respaldo do regime fechado, e isso era visível nas escolas oficiais, mas era próprio do tempo negro por que passava nossa história. Pode-se chamar de anos "clandestinos", com a inquietude modificando os padrões de comportamento das meninas do Instituto.

A esta altura, a escola rompera uma tradição e já aceitava rapazes em suas salas de aula, que eram gatos pingados naquele mar de meninas de azul e branco, saltitantes, alegres, competitivas, jogadoras de vôlei, ou nadadoras das ondas renovadoras, e o grupo se fortalecia com idéias de liberdade, aulas de canto coral. O teatro, com apresentação de peças como "Morte e vida severina", de João Cabral de Mello Neto, que assisti, em 66, no auditório, pela primeira vez, e foi como levar um soco no estômago, ao refletir ali, sobre as condições da vida do retirante nordestino, em contraponto com a miséria suburbana que os nossos professores nos preparavam para enfrentar, logo depois de formadas, onde iríamos levar ensino, hábitos, como missão de educadoras conscientes.

Em 67, a música do Chico Buarque, "A Banda", serviu de fundo para um protesto feminino inesquecível. Havia o controle diário, na entrada das aulas, para que nós não usássemos "porta-seios" ( era como chamavam), que não fossem brancos ou cor da pele. Se as inspetoras vissem que alguma trajava a sombra de uma roupa tão íntima, de cor preta, ou mesmo colorida, pois as mais ousadas já queriam provocar e vestiam até vermelho, éramos impedidas de entrar. Nossas saias, cumprimento permitido na altura dos joelhos, passavam por um sistema de enrola-estica, hoje digno de sonoras gargalhadas. Na portaria, todas enrolávamos a saia, ao ganhar as ruas, para mostrarmos as pernocas que deviam ficar guardadas pelo uniforme dentro dos pavilhões austeros do Instituto.

Mas, a tal "revolução" dos sutiens, quero lembrar, foi num dia em que combinamos, na turma da manhã, para levarmos as peças de biquinis de praia,as mais floridas, espalhafatosas, coloridas, dentro das malas de estudo, evidentemente. Na hora do recreio, fomos vesti-las nos banheiros, e em determinado momento, saímos em bloco animado, cantando a Banda, com as blusas abertas, peitos enfeitados à mostra, a felicidade de desafiar nossas inspetoras senhoris, que enlouqueciam correndo de um lado para outro, nos empurrando de volta para que nos recompuséssemos, segundo a moral e os bons costumes. Ali, surgiam os anos transparentes. Não era possível mais que o Instituto e as outras escolas normais do estado seguissem com hábitos fora da realidade lá fora que gritava a liberdade para uma juventude que via o país atravessar tanta perseguição política.

Em 68, fui a oradora oficial da formatura de 900 formandas, no Maracanãzinho. Tive o desprazer de ser abordada por agentes do SNI antes da minha apresentação que queriam saber do conteúdo do meu discurso, proferido dias depois da assinatura do AI 5. Não mostrei. Disse-lhes que correria o risco pois não queria estragar a surpresa preparada. E foi linda, emocionante.

Eu e um grupo de amigas havíamos organizado e ensaiado muito um jogral. Nossas vozes,em uníssono, treinadas, falaram de educação, respeito à criança brasileira, responsabilidade na condução das novas gerações, amor ao trabalho, intensidade na dedicação ao futuro.

Hoje, sabemos que o futuro chegou e agora, na festa do Instituto, vamos rememorar e comemorar cada capítulo dessa história de meninas e meninos que sonharam com um Brasil melhor e aqui estão, vivos, para testemunhar avanços e retrocessos, mas sobretudo, para renovar seu compromisso com a Educação, como Instituto de um patrimônio nacional inalienável.

Aparecida Torneros, formada em 68 no IE, jornalista ( este texto é dedicado à Lucia Ritto, colega de turma no Instituto e na UFF, jornalista-escritora, falecida em 2003)

Dezembro de 68, na minha formatura como professora primária...o discurso...e o AI5


Os namorados de outrora, o AI 5 e a liberdade‏ (artigo publicado no livro A mulher necessária)


Os namorados de nossos tempos davam flores e poemas, balas e bombons, livros e discursos, além de respeito pela condição de sermos inteiros e cidadãos do mundo. Tenho pena dessa garotada do Funk e da Balada... Nem de longe, apesar de toda a "ficação" a que se acostumaram por aí, vão um dia descobrir o que era namorar nos anos 50, 60 ou 70(bem no início). Coisa que nem filme meloso com happy end consegue passar com fidelidade, porque só quem viveu, sentiu...essa é a verdade absoluta. Lembro-me que fui namoradeira consciente. Isso mesmo. Avaliava as possibilidades de cada namorado novo. Atendia aos seus apelos românticos. Gostava de namorar os que me escreviam cartas melosas, cheias de versinhos, e tive dois assim. Um, o das férias de verão, em Itajubá, nas Minas Gerais, aquele com quem eu podia cantar nas noites seresteiras a música dos Beatles e dos Roling Stones, pelas calçadas da cidadezinha. Entre um beijinho e um sorriso cúmplice, sonhava ser jornalista, mesmo sabendo que perderia o namorado, machista, que me queria uma eterna professorinha de meninos e meninas, esposa de um engenheiro, especialista em eletricidade, maridão dominador,o que eu não aceitei e essa deve ter sido minha primeira renúncia afetiva séria.

Houve também o cadete de Barbacena, antigo colega de ginásio, que foi me conquistando com seus poeminhas que me diziam das noites estreladas da serra e das saudades absurdas que meus olhos lhe infundiam. Acreditei, correspondi, fiz o vestibular e deixei o futuro militar porque me apaixonei por um cineasta, companheiro de faculdade, a quem acompanhei nas inesquecíveis sessões da meia noite do Paissandu, para ver e discutir Bergman, Goddard, Buñuel. Chegou a me dar a chave de um apartamento que poderia ser o nosso ninho. Quando falou tão solene essa coisa, eu me escondi e fugi porque o mundo já me parecia muito grande, o meu filme ainda ia rodar, estava só ensaiando. Sem contar o namoradinho de Copacabana, o da praia, aquele que ia me ver no subúrbio, no portão da casa da minha avó, depois de viajar num ônibus por mais de meia hora, lá estava ele, com uma rosa vermelha nas mãos e um pacote das balinhas que eu mais amo: de doce de leite, da Kopenhagen. Ansiedade era mesmo esperar cada encontro, um raro telefonema, quando a telefonia era coisa cara, e o seu José do armazém da esquina vinha na minha porta, com o lápis de fazer as contas, preso na orelha, a me chamar: - Menina, está lá um rapaz a te chamar no fone. Parece que sente saudade de ti, o cachopa! E lá ia eu, correndo, às vezes até descalça, louca para ouvir o que podia ser um murmúrio de amor, delicado, inofensivo, um convite para uma festa, um cinema, ou mesmo só um alô saudoso, envolto em aura que camuflava com ternura, o sexo a aflorar em nossos corpos, em juventude e alegrias. Os namoros de outrora, esses sim, tiveram seus encantamentos em nossas vidas, e, agora, madurinhos, sabemos ainda como esticar uma conversa carinhosa, que não seja monossilábica e não se perca em - to, não to, fui, fiquei, não fiquei, vou nessa, já é, rolou, não rolou, e coisas do gênero.

Aprendemos a segurar as mãos, e quanto segredo há nessa atitude. Mãos são dádivas sedosas, passam energia pura, podem transmitir muitos recados. Também, desenvolvemos técnicas de leitura de olhares, próximos ou distantes. Sempre fui mestra nesses olhares, principalmente nos bancos escolares, quando me perdia desvendando o brilho intenso que os olhos de algum pretendente me enviava. É coisa do nosso tempo esse negócio de dançar coladinho, bochecha com bochecha, ao som de um bolero ou de um blue, para sentir tudo e sonhar com muito mais. Era proibido mas era permitido. Coisa Kafkeana, a transgressão das imposições morais, todos sabíamos que a carne é fraca e o amor pode tudo. Acho que os namorados dessas épocas sempre souberam o quanto se tornava importante valorizar um sorrizinho de libidinagem entrecortado por um murcho lamento de culpa. E a cada reencontro, um fogaréu. Era assim mesmo. Havia a saudade. Dava tempo de sentir saudade. A gente, ou morava longe, ou tinha que estudar a semana inteira, ou precisava manter distância e só se ver nos dias especiais, sábados , domingos e férias. Tempo suficiente para valorizar as frases, decodificá-las na alma, repetir nos cadernos adolescentes, e sonhar com o beijo prometido. Quando os namorados passavam da faixa dos 20, os amigos começavam a se amarrar, a gente comparecia a casamentos em igrejas floridas e iluminadas e vinha a perguntinha básica: qual de nós será a próxima? Seria o destino casadoiro a única opção daquele contingente de jovens? Lembro que no baile de formatura da escola normal, aluguei um namorado, quer dizer, em troca dos convites, intimei a um coleguinha que fosse vestido a caráter com o smoking do irmão mais velho, pois eu não podia passar pelo vexame de não ter um par para dançar na hora da valsa dos namorados.

Parecia uma estratégia perfeita. Fiz suspense com as amigas. Falei o quanto era bonito. Só que ele morava em Niterói e naquele tempo não havia a ponte ainda. O talzinho foi sim à festa, mas chegou muito depois da meia-noite, por conta da barca que perdeu, escassa na madrugada. Mesmo assim, eu perdoei, e descontei a solidão da dança principal, bailando com ele, até o amanhecer, lindamente trajada de brocado prateado, saltos altos brancos, cabelos cacheados a cair pelos ombros, trocando piscares de olhos com as companheiras formandas, que nem perceberam a mentira e acreditaram que eu tinha agora um futuro marido.


Isso era dezembro de 68, eu estaria na semana seguinte, como oradora da colação de grau. Tive uma missão difícil, com discurso observado por agentes do SNI, na semana do AI 5, e defendi a consciência de educar nossas crianças nas escolas públicas. Naquela noite, homenageei o namorado que sumira (nunca mais soube dele), presidente do diretório de estudantes do Colégio Pedro II, que me presenteara com um livro sobre o comunismo chinês.


Dali em diante, muitos de nós nos enamoramos também pelas causas sociais, pois, a universidade nos abria um universo de reflexões sérias, e os nossos namoros, embora românticos, passaram a ter sabor de lutas. Uma vez, ao iniciar um namoro que acabou em casamento, que também acabou depois de duas décadas, pensei que o melhor presente que ele me deu naquele dia dos namorados, foi mesmo ter me dito que sabia como éramos livres e soltos ao mesmo tempo.

Acho que os namorados de nossos tempos davam flores e poemas, balas e bombons, livros e discursos, além de respeito pela condição de sermos inteiros e cidadãos do mundo, pertencendo a gerações que conquistaram, a duras penas, o direito de defender a liberdade de pensar, agir e viver. Tenho pena dos que não viveram a felicidade de sentar num banco de jardim, bem no meio da praça pública, trocando confidências, projetando um futuro, onde a vida poderia não ser cor de rosa, mas teria, com certeza, o gosto de sonhos ou da busca eterna da conquista deles.


Aparecida Torneros

Brasil: a geração de 68 no poder


Brasil: a geração de 68 no poder

Há dez anos, Zuenir Ventura - escritor, jornalista e prestigiado colunista de 'O Globo'- publicou um livro chamado '1968 - O ano que não terminou', um empolgante e detalhado relato cronológico do ano que conduziria à instauração de uma criminosa ditadura militar de extrema-direita que ficaria como o período mais sujo de toda a história do Brasil. Na verdade, a ditadura militar havia sido instaurada em 64, para evitar a posse de um Presidente de esquerda, João Goulart, mas só em Dezembro de 68, com a aprovação do sinistro Acto Institucional nº 5 (o tristemente célebre AI-5), é que a ditadura meias-tintas que até aí se vivia descambou, sem pudor, num regime criminoso que, em nome da luta anticomunista, prendeu, torturou, exilou, assassinou e silenciou toda a elite política e cultural do Brasil, de Chico Buarque a Carlos Marighela. Os generais brasileiros foram os patronos ideológicos e precursores de uma leva de ditaduras militares fascistas que correu então toda a América Latina: Paraguai, Bolívia, Argentina, Uruguai, Chile, Colômbia, Panamá. Os "ásperos tempos", como escreveu Jorge Amado.
O AI-5 seria abolido em 74, seguido de uma amnistia que permitiu o regresso do exílio de gente como Caetano, Chico, Gilberto Gil ou Fernando Henrique Cardoso, que mais tarde viria a ser Presidente. Mas seriam precisos ainda uns anos para que a "suave ditadura" então reintroduzida, desse lugar a uma ditadura sem tutela militar, despoletada pela campanha das 'directas já', reunida na candidatura presidencial de Tancredo Neves. O papel da transição coube ao Presidente-general João Baptista de Figueiredo, célebre por declarar que preferia o cheiro dos cavalos ao dos seres humanos e por ter revelado como era enxertado o seu espírito democrático, quando ameaçou alguns colegas de armas que não queriam abandonar o poder: "Prendo e arrebento quem se opuser à abertura democrática!".
Dez anos depois, Zuenir Ventura acaba de publicar uma espécie de 'prolongamento', desse seu livro de referência: tem o título lindíssimo de '1968 - O que fizemos de nós', e nele, Zuenir, que é a suavidade e a simpatia em pessoa, interroga alguns dos protagonistas da revolta de 68 e da luta armada ou clandestinidade em que se engajaram a seguir, confrontando-os com a mais lógica e inconveniente das perguntas: valeu a pena, onde param os ideais de então?
Dificilmente a pergunta poderia ser mais actual, porque grande parte dessa geração, que eram, então, estudantes, jovens actores e cantores, militantes do 'partidão' ou de organizações de extrema esquerda, estão hoje... no poder. A lista é impressionante: Lula, que só despertaria para a política mais tarde, através do sindicalismo, é Presidente, e Fernando Henrique já o foi. Dina Roussef, torturada barbaramente e em vão pelos militares, é hoje o nº 2 do Governo, com o cargo de ministra da Presidência e coordenadora do Programa de Crescimento Acelerado, uma das grandes apostas de Lula. Gilberto Gil, ex-preso político e exilado, é ministro da Cultura. Franklim Martins, o líder dos estudantes em 68, cuja revolta desencadearia o golpe, é ministro da Comunicação Social. José Dirceu, também antigo líder estudantil e militante da resistência armada (cuja vida daria um fascinante romance), foi o nº 2 do Governo até passar a principal vítima do "mensalão" e, por ironia do destino, ver os seus direitos políticos cassados em democracia. Ele foi um dos presos políticos libertados em 71, por troca com o embaixador americano no Brasil, Charles Elbricht, sequestrado pela guerrilha urbana - e cujos sequestradores foram Carlos Minc, recém-nomeado ministro do Ambiente (com a missão impossível de resistir à destruição crescente da Amazónia), e Fernando Gabeira, deputado e candidato fortíssimo à prefeitura do Rio de Janeiro. E no Governo estão ainda os ex-militantes de extrema esquerda Carlos Ottony Fernandes, na Justiça, e Paulo Vanuci, no Ministério dos Direitos Humanos, além de uma série de senadores, deputados e prefeitos estaduais. Ou seja, nas palavras de José Dirceu, quando Lula entrou no Palácio do Planalto, a geração de 68 também "subiu a rampa".
E que fizeram eles com o poder? É difícil avaliar de fora, porque também não é claro o que os próprios brasileiros pensam. Claro é que Lula tem contra si 80% da imprensa e do "establishment" político e, acima de tudo, por uma questão de classe: apesar dos "banhos de loja" dados à primeira-dama é à sua "entourage", Lula continua a ser visto pelas famílias políticas tradicionais (e que se perpetuam ao longo de gerações, sejam de direita ou de esquerda) como um intruso no meio. Alguém sem currículo político ou intelectual, que gosta de se vestir de "terno" sem gravata e comer churrascos regados com muita cerveja, nos fins-de-semana do Palácio do Alvorada, a residência oficial. É difícil perceber assim o que é oposição política fundamentada e o que é rejeição social, pura e simples. Verdade, é isto, porém: o seu plano 'Bolsa Família' (através do qual é garantido um rendimento mínimo, em troca dos filhos frequentarem a escola e os centros de saúde) tirou já onze milhões de famílias brasileiras da miséria absoluta; o seu plano 'Luz para Todos' poderá ainda cumprir o seu desejo de "apagar a última lamparina a querosene do Brasil"; o seu Plano de Crescimento Acelerado fez explodir o PIB, e o seu plano energético tornou o Brasil auto-suficiente. Dizem que os banqueiros andam felizes e talvez seja verdade, mas, pela primeira vez, sente-se que há uma classe média a emergir no Brasil, intrometendo-se devagarinho entre as duas únicas classes de sempre: os milionários e os miseráveis.
No ajuste de contas ensaiado por Zuenir Ventura, Caetano Veloso, por exemplo, não esconde a sua oposição a Lula, que vê como um "populismo pré-capitalista" e declara-se partidário de Fernando Gabeira. Gabeira, esse, é um verdadeiro fenómeno político. Depois de 68, enquanto alguns, como José Dirceu, foram para Cuba, ele foi para a Suécia e cresceu ideologicamente na social-democracia. Daí, evoluiu para causas como a ecologia, o feminismo, a maconha livre e para a crença de que o que faz falta não é a utopia, mas sim uma política de avanços e ganhos concretos, ao longo de uma vida. "Evoluiu para a direita", dizem os seus antigos "compagnons de route". Não, responde ele, o problema da gente do Lula é que ainda estão agarrados a uma concepção leninista e ultrapassada da importância do papel do Estado em todas as transformações. Já o ministro Franklim Martins, o ex-ortodoxo comunista, hoje confessa-se social-democrata e assume que a luta armada foi um erro: "Um erro que eu cometi estando do lado certo. Mas hoje, boto a cabeça no travesseiro e durmo". Liquidado politicamente pelo "mensalão", à espera de julgamento e insultado nas ruas por onde passa, ressentido e acusado de "arrogante", José Dirceu continua fiel de Lula e orgulhoso do passado: "Não abri mão de nada. Eu me considero representante dessa geração de 68 até hoje. Mudei em muitas coisas, o mundo mudou, mas não nos meus ideais e nos meus sonhos. O Governo Lula tem valido a pena".
Tudo visto, também me parece.
Fonte: Miguel Sousa Tavares Expresso

Alegria Alegria, no sol de quase dezembro, eu vouuuuuuuuuuuuuu.....

Alegria Alegria_________
Caetano Veloso (1968)
Caminhando contra o vento
Sem lenço, sem documento,
No sol de quase dezembroEu vou...
O sol se reparte em crinas
Espaçonaves, guerrilhas
Em Cardinales bonitas
Eu vou ...
Em caras de presidentes
Em grandes beijos de amor

http://br.youtube.com/watch?v=GzUq73Ntwdc

domingo, 30 de novembro de 2008

Quem não traz seus Natais dentro do peito ?




Quando o Natal chega, todos os anos, não há como evitar, ela lembra de muitos Natais da sua vida. Recorda-se do carrinho azul que viu seu irmão brincar há mais de oito décadas, em manhã de um dezembro distante no tempo, mas tão presente na memória e aí, ela sorri.

Naquele tempo, eles moravam numa casa grande, com quintal arborizado, no subúrbio que marcou sua infância feliz. Como eram bons aqueles Natais, de folguedos e birnquedos, família e vizinhos, amigos e simpatícos agregados, trocando abraços, sorrisos e pratos saborosos.

Saudade das rabanadas da portuguesa Filomena, dos bolinhos de bacalhau feitos carinhosamente pela vó Luzia, e como era delicioso o frango com lentilhas que a mãe Maria preparava. Vinham em ondas aquelas imagens de pessoas e lugares, evoluindo para a sua adolescência, seus primeiros amores e finalmente, abrindo o baú, nas tardes lentas da velhice, pegava as fotos amareladas do seu casamento com Joaquim e dos seus filhos meninos, Luizinho e Bentinho.

Agora, morando num asilo para velhice, Anita se desmancha em sentimentos de saudade, justamente nessa época natalina. Sabe que a sensibilidade lhe aflora ao peito, faz dela uma criatura mole que nem manteiga derretida, a pensar no tempo que correu célere e no quanto foi possível aproveitar a vida, lutar pela criação dos filhos, tê-los visto se formarem, ter segurado nos braços netos que também tinham crescido.

A doce Anita de oitenta e tantos anos, ali, naquela casa de repouso e senilidade, traz dentro de si, muitos Natais presos no peito, e, quando as atendentes chamam para a ceia da noite Santa, busca enfeitar-se com seu melhor vestido, o azul royal, de golinha rendada e branca, para juntar-se à sua nova família, senhoras e senhores que dividem com ela, seus momentos de lazer e de oração, refeições frugazes e a certeza do dever curmprido.

Conclama a todos que rezem agradecendo aquela comida especial e tão bem cuidada, sorri em reverência a cada amigo ou amiga que lhe cumprimenta. Repete um 'Feliz Natal' que imagina seja o mesmo que seus filhos e netos estejam desejando aos amigos e amigas neste momento em algum lugar, apesar de não receber há muito sua visita, mas lhe mandaram presentes, como chinelos, sabonetes e colônias. Um motorista veio trazer uns dias antes.

Explicou que todos tinham viagem marcada e que telefonariam, se pudessem, no dia de Natal, para ela.

Anita pensa que já tem um bisneto que nunca viu, ele deve ter uns cinco anos, ela reflete.

Tudo bem, Anita pensa: - Deixai-os viver Senhor Jesus, e protejei-os, meu Pai do Céu. Meus filhos ainda são meninos para mim, apesar de cinquentões. E meus netos, já na casa dos trinta, têm muitas responsabilidades, filhos e trabalho, tenho que entender sua falta de tempo e só quero que todos estejam felizes, nesta Noite, como eu estou, aqui, tão bem cuidada.

Repentinamente, como se fosse um Anjinho de Natal eis que surge no salão de refeições do asilo, um menino risonho, correndo, que dispara na direção da vovó Anita, para abraçá-la, o que faz com que todos interrompam o jantar e observem a cena

- Quem é você, lindo pequerrucho? Anita indaga, extendendo as mãos e acolhendo o infante arfante.

- Vc é minha vó Anita, eu vi no retrato que a meu vô Bento me mostrou. Eu pergunto a ele todo dia onde vc mora. E hoje, que é Natal, pedi a ele que queria ver a minha vó Anita... Tô aqui, na sua casa, né? vim passar o Natal com vc, né? vc quer esperar o Papai Noel comigo?

Anita ri... vê que agora entram no refeitório, seu filho Bento, a nora, os pais do guri risonho, seu neto e esposa, e os observa, com certa perplexidade, pois há muitos Natais que não os vê e pensava que estavam todos a viajar nos feriados de final de ano, conforme lhe dissera o potador dos presentinhos, dias antes.

Mas, Bento, com jeito de filho arrependido, vem dizer à mãe, emocionado, que o pequeno Joaquinzinho não aceitou viajar. Convenceu a todos a irem visitar a bisavó, que ele vivia beijando no retrato, chegou a ficar febril a repetir que só queria ver a vó Anita no Natal, e esperar, com ela, pela chegada do Papai Noel.

Anita foi aplaudida pelos companheiros e companheiras de asilo. Agradeceu a visita, abraçou o bisneto, o filho e toda a família, convidou-os a sentarem à mesa. Manteve o menino no colo, que a acariciava, enquanto se pergunta, internamente: - Quem não traz seus Natais dentro do peito?

Este Natal é mais um deles, que ela jamais esquecerá, e fará parte da lista de Natais do Quinzinho, daqui a algumas décadas, com certeza.

Aparecida Torneros

neste Natal, a quem interessar possa...


Neste Natal, a quem interessar possa... ( texto de 2005)

A coisa funciona quase sempre assim. A gente corre e trabalha o ano inteiro, planeja uma série de atitudes, estabelece metas, decide que é momento de algumas mudanças, vai vivendo, driblando os percalços nos meses que se sucedem como num torvelinho.

Aí, um dia, provavelmente numa manhã em que a luz adentra pela janela na casa que se faz fervente, a criatura acorda se sentindo " caminhando contra o vento, no sol de quase dezembro".

Bem, não há como voltar atrás, o que passou, se foi, e o tal dezembro chegou de novo, com sua climatização, seus calores, que no Brasil, fazem do Natal aquele período de verão quentíssimo, de ruas entupidas, de gente se trombando pelos shoppings, de aeroportos e rodoviárias adensados de reencontros, de estradas cheias de esperança por momentos felizes. Não importa o quanto a política e a economia tenham afetado nossas emoções ou os nossos bolsos, agora é Natal e vamos é comemorar. Tem o show especial do Roberto na televisão, tem a árvore de Natal da Lagoa Rodrigo de Freitas, dá para encarar uma ceia novamente na casa da mamãe, ou da vovó, ou da namorada recente, quem sabe aquele gato escaldado que tem medo de casamento chegue enfeitiçado de espírito natalino e finalmente faça o sonhado pedido para juntar os trapinhos?

Meu dezembro , como o de vocês, tem mesmo essa aura de necessidade de amar e ser amado. Fico precisando dar o abraço naquele amigo que não vejo há muito tempo, me cobro a visita ao asilo dos velhinhos que tanto adiei, sou tomada de uma impiedosa culpa cristã pelas promessas que não cumpri, e o que é pior, me permito comer as gulodices mais díspares, misturadas e sem a menor parcimônia, em nome da confraternização das boas festas.

Nas luzes que piscam pelas avenidas, tento vislumbrar os amores do passado que me deixaram ainda algum brilho na alma, no afã de perdoar qualquer resquício de mágoa das separações e das traições, herança acumulada ano após ano, no decurso de prazo, no acúmulo de experiências afetivas.

Percebo que há mais sorrisos sendo distribuídos pelas calçadas, enquanto as tulipas de chope gelado são viradas a cada segundo contra bocas sedentas de frescor. Também é possivel identificar que há na febre consumista em torno dessa data um frenesi tresloucado de superação personalista. Todos querem ser queridos, presenteados, paparicados, lembrados, abraçados, beijados, numa proporção potencialmente acima das possibilidades rotineiras.

Mas, neste Natal, a quem interessar possa, nada será tão importante, para mim, do que me recolher com meus pensamentos, na solidão do ato reflexivo, na sala vazia.

Devo pensar sobre o quanto há para fazer além do circuito do meu umbigo, o mesmo que me liga a um ego que tento domar, ao qual me sinto ainda muito presa, com a consciência crescente de que preciso insistir em projetos mais ligados ao meu próximo, ao Brasilzão que implora por nova ordem social, ao meio ambiente e à felicidade compartilhada com meus vizinhos.

Com certeza, desse jeito, terei um Feliz Natal.

Aparecida Torneros
Jornalista-RJ

Rosa Passos...só danço o samba




Dona de um swing extraordinário, a baiana Rosa Passos é considerada pelos aficionados como a versão feminina de João Gilberto. Como o cantor, Rosa possui uma voz cálida, doce, afinadíssima. Sua simpatia e criatividade converteram-na em uma das maiores estrelas da moderna MPB, com influências do jazz e do samba.
A fama de Rosa Passos cresceu a partir do CD Curare (1991), quando se aproxima definitivamente do repertório de bossa nova, gravando temas de Tom Jobim como "Dindi", "A felicidade" e "Só danço samba". Desde então vem realizando turnês pelos Estados Unidos, Europa e Japão com um extenso repertório de temas próprios e interpretações de clássicos como Gilberto Gil, Djavan, Dorival Caymmi, Ary Barroso, Edu Lobo, etc.
Em suas gravações e shows conta com a participação de músicos como Ivan Lins, Chico Buarque, Yo-Yo Ma e Ron Carter. Seu último CD, Amorosa (Sony Classical/2004, é uma homenagem a João Gilberto, com participações de Henri Salvador e Paquito D'Rivera.

la familia femenina de Carmen Torneros en Brasil


http://br.youtube.com/watch?v=xoesjQkk5a4

Roberto Carlos - Las muchachas de la Plaza España

Compositor: M. Ruccione - A. Marchionne

Es la vieja RomaEn primaveraUna enredaderaDe jazmín en florY en la Plaza EspañaLos amantesHablan anhelantesDe su tierno amorHasta las campanasDe la iglesiaCantan alegríasPara el corazónLas muchachas de la Plaza EspañaSon tan bonitasCon sus juegos, sus cantos alegresY sus sonrisasSus vestidos son una acuarelaDe mil coloresTan hermosasComo floresCuantos sueños hay en sus ojitosResplandecientesSon miradas más dulces y suavesQue um beso ardienteCon sus caras y su aire ingenuoDe virgencitasLas muchachas de la Plaza EspañaSon tan bonitasSus vestidos son una acuarelaDe mil coloresTan hermosasComo floresCuantos sueños hay en sus ojitosResplandecientesSon miradas más dulces y suavesQue um beso ardienteCon sus caras y su aire ingenuoDe virgencitasLas muchachas de la Plaza EspañaSon tan bonitasSon tan bonitasSon tan bonitas
www.letrasdemusicas.com.br

Palavras de Amor...



Palavras de Amor
Maria Aparecida Torneros da Silva

Românticos ainda podemos ser ainda que não pudéssemos, seríamos... Palavras nos tocam, nos põem a perder as almas adolescentes, os corações meninos... Releio teus versos e me arrepio mais até do que sentindo que iríamos nos rever um dia desses na velhice ou no cio... Entendo agora por quem dobram os sinos... São os toques do amor que nos ressoam vêm em ondas pelas frases, pelas poesias, nos acolhem na solidão, da distância e na saudade... Nossas almas, indefesas, perdidas, voam em direção absurdamente confusa na nossa idade, e buscam a luz que vem das vozes vazias de som, indelével e pálido que se ouve em hinos de louvor ao mundo vasto, ao mundo excuso, ao mundo tolo, ao mundo enorme, ao mundo que recuso aceitar porque me fez sentir tua pele e me tirou o toque me deixou o gozo e me roubou a paz, como um reboque, me plugou um plus que carrego, pesadamente, quando sinto o peso da saudade, de cada amenidade, de toda a afinidade que ainda cultivamos... Somos assim, incorrigíveis seres, amigos necessitados de consolos vários, abraços estranhos, bocas passageiras, que nos substituem... Somos mesmo assim: amigos interligados pela internet, pelo cosmus, pela admiraçao, pela frustração infinda pelo romântico desejo de nos encontrar alguma vez ainda...

Federico Garcia Lorca


O POETA PEDE AO SEU AMOR QUE LHE ESCREVA
Amor de minhas entranhas, morte viva, em vão espero tua palavra escrita e penso, com a flor que se murcha, que se vivo sem mim quero perder-te.
O ar é imortal. A pedra inerte nem conhece a sombra nem a evita. Coração interior não necessita o mel gelado que a lua verte.
Porém eu te sofri. Rasguei-me as veias, tigre e pomba, sobre tua cintura em duelo de kordiscos e açucenas.
Enche, pois, de palavras minha loucura ou deixa-me viver em minha serena noite da alma para sempre escura.
( tradução: William Agel de Melo )

codinome beija-flor


Nem bem te vi, me apaixonei...


Nem bem te vi, me apaixonei...


Nem bem te vi, me apaixonei... Eras mais do que um menino grande, eras como o pássaro aleatório, aquele que voa com o bico empinado buscando sorver do céu o azul e a luz, estavas emplumado, trazias no peito o ar de quem conquista, e não desistas de me seduzir, não custa tentar mais um pouco, sou meio sonâmbula, não me deixes ir, me prende, me toma, me organiza a espera, não me permitas dispersar... Nem bem te vi, ouvi teu canto... Por muito menos, me encanta, me repousa num ninho de aconhego, sente minha disponibilidade para o simples ato de amor à vida, o chamego, tardes esmaecidas em redes alienadas, deixa que o vento me sopre um segredo, nem ouses mentir para o teu coração, nem camufles o sentimento com o medo, fica assim, inteiro, esvoaçante, domina os telhados de barro, os de vidro, grita... Nem bem te vi, és meu apreço, minha mais recente desdita, és minha pressa de ser e ter em ti um lugar de plenitude, e nem mede cada minha atitude, porque, não há o que raciocinar, não vale, deixa-me sentir teu vôo sobre mim, deixa-me voar para teus braços, distribuir meus beijos, receber os teus, enfim... Nem bem te vi, meu sentido de viver definiu o rumo, a alma buscou o prumo, e naquela manhã de recomeço, uma esperança risonha transformou-me em sumo em suco, em líquida sensação de ouro derretido, jóia rara, tomando nova forma... Nem bem te vi, tornaste-me o teu complemento, sem argumento, sem norma... Quero aprender a voar contigo, e te persigo no ar, em rodopio, em gozo e cio... Sou a ave que te completa, voaremos agora em duo, sintonizados e sem frio... Um aquecerá as asas do outro, a cada volteio, e seremos, um bem-te-vi e um beija-flor a espalhar no mundo tanta alegria, tanta sonoridade e toda a harmonia do maior amor... Aparecida Torneros